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    Covid-19: Brasil exportou 10 vezes mais variantes do que importou, diz estudo

    Estudo envolveu especialistas de mais de 100 instituições de pesquisa do Brasil e do exterior

    Iuri Corsinida CNN

    no Rio de Janeiro

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    Um estudo envolvendo cerca de 100 pesquisadores de diversas instituições de pesquisa, brasileiras e internacionais, apontou que o Brasil, além de ter sido um grande celeiro de novas linhagens, foi um dos grandes exportadores da Covid-19 para o mundo. O estudo indicou que o país teve um índice de exportação viral 10 vezes maior do que a taxa de importações.

    A pesquisa informa que foram 316 casos de exportações virais da linhagem P.1 (Gama), uma das linhagens de preocupação apontadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), além de 32 da P.2, variante de interesse. Entre as exportações, 65% foram para países vizinhos, da América do Sul, 14% para a Europa, 11% para a Ásia, 5% para a América do Norte, 2,5% para a África e 2,5% para a Oceania.

    O estudo destaca também a circulação das linhagens entre as regiões do Brasil. O Sudeste, a mais populosa, respondeu pela maior proporção de transmissões: cerca de 40%. Em segundo lugar aparece o Norte, que concentrou 25%. Nela fica Manaus, capital do Amazonas, que foi o epicentro da variante Gama.

    No entanto, o estudo reforçou, que embora essas estimativas estejam alinhadas com os dados epidemiológicos das regiões, o dado é também influenciado pelo fato destes locais terem um maior número de sequenciamento genético disponível para análise.

    O documento, ainda em fase de pré-publicação, ou seja, ainda pendente de revisão por outros pesquisadores, identificou que esses movimentos virais, especialmente os de exportação, foram potencializados pela redução das medidas restritivas para enfrentamento ao novo coronavírus, que incluíam viagens internacionais.

    “Nossos resultados sugerem que a migração do vírus geralmente seguiu os padrões de mobilidade nacionais e internacionais, ilustrando como a flexibilização das medidas de restrição facilitou a disseminação dessas variantes emergentes em todo o país e sua introdução além das fronteiras nacionais”, escreveram os pesquisadores no artigo.

    Um dos países mais afetados pelas exportações virais do Brasil foi o Paraguai. De acordo com os pesquisadores, após o sequenciamento genômico feito com amostras do país vizinho, foi identificado que a maioria das variantes em circulação no Paraguai tiveram o Brasil como ponto de origem.

    “Em 31 de julho de 2021, um total de 78% das sequências genômicas disponíveis do Paraguai estavam relacionadas a infecções causadas por variantes brasileiras, sendo a Gama a linhagem mais prevalente no país”, diz um trecho da pesquisa.

    Para Julio Croda, infectologista e pesquisador da Fiocruz e um dos responsáveis pelo estudo, a pesquisa conta a história da pandemia no Brasil, através de um sequenciamento extenso de muitas amostras. Croda criticou as medidas de combate à pandemia incentivadas pelo governo federal e diz que essa foi uma das principais razões de termos presenciado o surgimento de diversas variantes no país.

    “Fica claro que o surgimento de novas variantes no Brasil, inicialmente a P2 e depois a Gama, se deu por conta da nossa estratégia de combate à Covid, que foi baseada na não adoção de medidas restritivas que controlariam a contaminação. Se baseou na crença da imunidade de rebanho através de transmissão e contaminação da população. Quando o governo federal estimulou esse tipo de estratégia em detrimento de estratégias como isolamento, por exemplo, não contava com o surgimento de novas variantes que acabaram acontecendo”, disse o pesquisador.

    Segundo Marta Giovanetti, pesquisadora do Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e uma das autoras do estudo, o trabalho teve a intenção de mostrar como a transmissão do vírus aconteceu, e o resultado de sua dispersão entre as regiões. A pesquisadora ressaltou que a cooperação entre pesquisadores é fundamental para a eficácia das medidas de enfrentamento à pandemia e destacou o papel da globalização na dinâmica das epidemias.

    “O estudo deixa muito claro o quanto de fato as novas epidemias são ligadas ao conceito de mobilidade urbana e globalização. A globalização, aliada ao arrefecimento de medidas restritivas, que variou de país para país, possibilitou a introdução de patógenos novos e emergentes em lugares onde não havia circulação do vírus”, avaliou.

    A pesquisadora apontou ainda que o trabalho procurou mostrar os prejuízos relacionados ao aumento de circulação de pessoas e à não adoção do lockdown em alguns momentos da pandemia. O trabalho alerta ainda para a possibilidade

    O estudo também fez um alerta sobre a possibilidade, ainda que com frequência cada vez mais reduzida, por conta do avanço da imunização a nível mundial, do surgimento de novas variantes com o fim das restrições.

    “A atual circulação de variantes de preocupação e de interesse no Brasil, juntamente com o avanço lento da vacina, tem implicações importantes para a saúde pública neste país altamente populoso e regionalmente importante”, destaca outro trecho do documento.

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