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    Dois novos pacientes em remissão viral apontam caminhos na busca pela cura do HIV

    Cientistas apresentaram nesta quarta-feira (27) detalhes de estudos sobre os casos em uma conferência realizada no Canadá

    Lucas Rochada CNN

    em São Paulo

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    Desde o início da epidemia de HIV na década de 1980, cientistas em todo o mundo buscam novas formas de tratamento que sejam capazes de eliminar o vírus do organismo humano por completo. Embora a terapia antirretroviral seja eficaz na supressão da replicação viral, o HIV persiste nos reservatórios do organismo e volta a se replicar quando o tratamento é suspenso.

    Poucas pessoas, no entanto, mantêm cargas virais indetectáveis sem tomar medicação e constituem um modelo para o cuidado funcional do HIV. Outros casos de cura estão associados ao transplante de medula óssea ou em pacientes excepcionais que apresentam vírus defeituosos ou fatores genéticos associados a uma potente resposta imune ao HIV em um tipo de linfócitos, as células T CD8+, nos chamados controladores de elite.

    Um caminho promissor parece ter sido encontrado por pesquisadores que apresentaram, nesta quarta-feira (27), resultados de remissão viral em dois pacientes. Os achados foram divulgados na Conferência Internacional de Aids, realizada em Montreal, no Canadá.

    Uma delas é uma paciente da Espanha, com mais de 70 anos, que após supressão da terapia antirretroviral, tem controle absoluto da replicação do HIV, mantida por mais de 15 anos, com carga viral indetectável e sem tomar medicação para combater o vírus.

    O outro caso é de um homem dos Estados Unidos, de 66 anos, que recebeu um transplante de células-tronco, sendo considerado a quarta pessoa conhecida a entrar em remissão do HIV no mundo.

    O caso da Espanha

    O estudo conduzido por pesquisadores do Hospital Clínic, de Barcelona, descreve os mecanismos imunológicos de uma paciente que apresenta controle completo da replicação do HIV por mais de 15 anos.

    Ela foi diagnosticada na fase aguda da infecção pelo HIV e foi incluída em um ensaio clínico com tratamento antirretroviral por 9 meses e diferentes intervenções sobre o sistema imune.

    “A paciente não tinha fatores genéticos associados ao controle do HIV, não era uma controladora de elite da doença e, além disso, apresentava infecção grave em fase aguda, algo incomum em controladores pós-tratamento”, disse o pesquisador Josep M. Miró, em comunicado.

    Além disso, segundo os pesquisadores, foi demonstrado que a paciente não está infectada com vírus defeituosos, ou seja, o vírus era capaz de manter a infecção uma vez que foi possível isolá-lo e cultivá-lo em laboratório.

    “Ao longo desses anos, encontramos uma queda acentuada e gradual do número de vírus no reservatório, o que sugere controle pela resposta imune”, explicou Sonsoles Sánchez-Palomino.

    Os cientistas observaram que as células sanguíneas da paciente eram altamente resistentes à infecção pelo vírus HIV em culturas de laboratório (in vitro), mas suas células T CD4+ purificadas eram suscetíveis à infecção pelo HIV. Isso sugere que outras populações de células sanguíneas estavam bloqueando a infecção e podem contribuir para o controle do HIV.

    Utilizando um ensaio de inibição viral, o estudo demonstrou a existência de uma forte inibição do HIV promovida por dois tipos de linfócitos: células “natural killer”, que fazem parte do sistema imune inato e constituem a primeira linha de defesa contra diferentes patógenos, e células T CD8+, que desempenham um papel fundamental na defesa da célula contra vírus e bactérias.

    “A grande novidade do estudo é que caracterizamos as células que conseguem o controle do vírus”, disse Núria Climent. “A paciente tem níveis muito altos de ambas as células que podem bloquear o vírus ou destruir as células infectadas, conseguindo assim um cuidado funcional”, completou.

    “A cura funcional do HIV é um objetivo muito mais realista em escala maior do que uma cura esterilizante, por isso é tão importante entender os mecanismos subjacentes”, acrescentou Juan Ambrosioni.

    Paciente dos Estados Unidos

    Um paciente de 66 anos, que foi diagnosticado com HIV em 1988, está em remissão do vírus há mais de 17 meses após interromper a terapia antirretroviral e passar por um transplante de células-tronco de um paciente não relacionado doador para leucemia aguda. O homem, recebeu o transplante há quase 3 anos e meio no Instituto City of Hope, da Califórnia.

    Os resultados do caso foram apresentados pela pesquisadora Jana K. Dickter, professora associada na Divisão de Doenças Infecciosas do City of Hope.

    O paciente viveu com HIV por mais de 31 anos, o período mais longo em comparação com outros pacientes que entraram em remissão após receber um transplante de células-tronco para câncer no sangue e HIV.

    Segundo o instituto, o paciente recebeu o transplante de células-tronco no início de 2019 após o desenvolvimento de uma forma de leucemia mais prevalente em pessoas mais velhas com HIV, a leucemia mielóide aguda.

    O transplante foi recebido de um doador voluntário que tinha uma mutação genética rara, chamada CCR5, que torna as pessoas resistentes à maioria das cepas do HIV. O CCR5 é um receptor nas células imunes CD4+, e o HIV usa esse receptor para entrar e atacar o sistema imunológico. Mas a mutação CCR5 bloqueia esse caminho, o que impede a replicação viral.

    Durante o tratamento, o paciente também foi submetido a um regime de quimioterapia pré-transplante menos intensivo, que possibilita um transplante de células do doador, para que o alcance da remissão do câncer. Ele recebeu três terapias diferentes antes de receber o transplante e não apresentou problemas médicos graves após o procedimento.

    “Este paciente tinha um alto risco de recaída de LMA [leucemia mielóide aguda], tornando sua remissão ainda mais notável e destacando como City of Hope oferece excelente atendimento ao tratar casos complicados de LMA e outros cânceres do sangue”, disse o hematologista do City of Hope, Ahmed Aribi, professor assistente na Divisão de Leucemia da unidade.

    De acordo com o instituto, desde que se recuperou do transplante, o paciente não mostrou nenhuma evidência de HIV replicante no organismo, seja em amostras de sangue ou de tecidos. Com a aprovação do conselho de revisão institucional, ele parou de tomar o tratamento antirretroviral em março de 2021 e foi monitorado de perto quanto à possibilidade de retorno do vírus.

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