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    Entenda o que é o luto prolongado, considerado um transtorno mental pela OMS

    Considerado um processo natural diante do momento de perda, situação pode representar um problema para a saúde quando se torna intenso

    Saudade ou preocupação persistentes são alguns dos indícios do luto prolongado
    Saudade ou preocupação persistentes são alguns dos indícios do luto prolongado Wilson Dias/Agência Brasil

    Lucas Rochada CNN

    em São Paulo

    O luto é uma reação emocional associada a uma perda. Embora seja comumente relacionada à morte, a experiência também pode ser vivenciada após situações significativamente dolorosas, como o término de um relacionamento, o fim de uma amizade e a perda de emprego, além de despedidas e decepções.

    A forma como cada pessoa sente e processa o luto é única, o que indica que não existe um tempo certo de duração ou padrões de comportamento completamente definidos.

    Algumas características são comuns a essa vivência, como uma tristeza profunda, perda de interesse e sensação de forte desânimo, como se a vida tivesse perdido o sentido. Os impactos também se refletem em sintomas físicos, como dores no corpo, perda de memória e alterações no sono, como dificuldades para dormir e sonolência durante o dia.

    Considerado um processo natural diante do momento de perda, o luto pode representar um problema para a saúde quando se torna intenso e prolongado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o luto prolongado como um transtorno mental, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID). O problema também passou a ser considerado um transtorno mental na nova versão do manual de diagnósticos da Associação Americana de Psiquiatria (APA).

    Transtorno de luto prolongado

    O transtorno de luto prolongado é um distúrbio no qual há uma resposta persistente e generalizada caracterizada por saudade ou preocupação persistente após uma perda Ao mesmo tempo, há uma intensa dor emocional que envolve sentimentos diversos como tristeza, culpa, raiva e negação.

    Pessoas nessa situação podem apresentar dificuldade em aceitar a morte, por exemplo, sentindo que perdeu uma parte de si mesmo. Há uma incapacidade de experimentar um humor positivo, associada a uma dificuldade de envolvimento em atividades sociais.

    De acordo com a OMS, a resposta ao luto nesses casos mais graves persiste por um período de tempo atipicamente longo após a perda, sendo de mais de seis meses, no mínimo. O luto é considerado prolongado quando supera aquilo que se enquadra nas normas sociais, culturais ou religiosas esperadas ao contexto de cada indivíduo. Outro indicador do transtorno é quando a perturbação passa a causar prejuízos significativos na rotina de vida pessoal, familiar, social, educacional e ocupacional.

    Os sintomas são semelhantes aos da depressão e da ansiedade. De acordo com o Ministério da Saúde, a diferença entre os transtornos está no fator motivador para o sofrimento. No luto prolongado, a perda é o gatilho do problema.

    A psicóloga Samantha Mucci, professora do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que no processo de luto natural, a perda é marcada pela dor aguda que tende a ser ressignificada com o passar do tempo, o que não acontece no luto prolongado.

    “Há momentos em que a pessoa vai ficar mais voltada para a perda e outros em que ela vai retornar à sua vida de trabalho e estudos. Quando esse indivíduo fica muito voltado para a perda e não consegue retomar a vida e se reintegrar com lembranças, podemos pensar num processo de luto prolongado”, explica Samantha.

    Sintomas do luto prolongado são semelhantes aos de quadros de depressão ou ansiedade / Külli Kittus/Unsplash

    Vivência do luto por crianças e adolescentes

    O transtorno do luto prolongado pode ocorrer em todas as idades. Uma vez que os conceitos específicos de morte e perda são diferentes para cada faixa etária, a resposta também pode ser diferente dependendo da idade e do estágio de desenvolvimento.

    As crianças, muitas vezes, não descrevem explicitamente a experiência de saudade ou a preocupação persistente com a morte. Esses sintomas podem ser mais propensos a se manifestar em situações como brincadeiras ou outros comportamentos envolvendo temas de separação ou morte. Crianças enlutadas podem manifestar a saudade na espera pela volta da pessoa falecida ou ao retornar aos locais onde a viram pela última vez.

    Algumas crianças podem desenvolver uma preocupação com medo de que outros possam morrer, além da ansiedade de separação centrada em preocupações com o bem-estar e a segurança de seus cuidadores. Em crianças mais novas, a tristeza intensa ou dor emocional podem surgir de forma intermitente com humores aparentemente apropriados. Já a raiva relacionada à perda pode se revelar em crianças e adolescentes em quadros de irritabilidade, protesto e birras ou outros problemas de comportamento.

    Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o contexto da morte desperta um conjunto de questionamentos, principalmente em crianças pequenas, que podem misturar fantasia e realidade. Diante da morte da mãe ou do pai, por exemplo, a criança pode acreditar que a partida está associada a um comportamento inadequado.

    “Na mente das crianças, sentimentos de raiva e comportamentos agressivos podem causar a morte de uma pessoa querida. Diante disso, a criança pode apresentar embaraços em seu processo de luto, e, em meio a sentimento de culpa, inicia comportamentos de autopunição, entrando em um processo depressivo. Importante, assim, observar como as crianças estão lidando com a morte de uma pessoa querida, observando seus comportamentos e sentimentos para que, possam contar com ajuda especializada de um psicólogo, quando necessário”, afirma a SBP.

    Os sintomas relacionados à morte de um ente querido em crianças podem ser influenciados por diversos fatores. O início tardio ou o agravamento dos sintomas, por exemplo, podem ocorrer em resposta a uma mudança no ambiente social de uma criança ou adolescente ou na forma como os pais ou cuidadores enfrentam a situação.

    “Até os 10 anos de idade, a criança não tem compreensão de como a morte funciona. Ela acha que a pessoa ainda pode voltar, então acaba criando fantasias e pensamentos mágicos”, explica Samanta. Segundo a especialista, transtornos do humor que não são tratados na infância e na adolescência contribuem para que na vida adulta, o indivíduo apresente uma predisposição maior para o desenvolvimento de doenças físicas e transtornos de saúde mental.

    De acordo com a SBP, antes dos 3 anos a criança percebe a morte apenas como ausência e falta. Já entre os 3 e 5 anos, a morte assemelha-se a um estado de sono. Nesse momento, a criança, imersa em suas fantasias, acredita que pensamentos, desejos e palavras podem causar ou evitar a morte. De 5 a 7 anos, o indivíduo consegue entender a morte como “irreversível” ou “inevitável”. Já aos 10 e 11 anos, elas conseguem ter uma compreensão da morte de forma mais abstrata, formulando hipóteses sobre a sua causalidade.

    Entre crianças e adolescentes, o luto prolongado geralmente vem acompanhado de sentimentos de abandono e rejeição. Nessa fase, alguns sinais podem chamar atenção:

    • Isolamento
    • Retração
    • Dificuldade de concentração ou de socialização
    • Sinais de sofrimento agudo

    O luto sempre está atrelado a perdas, mas não está relacionado somente à morte. A perda de vínculos familiares pela separação dos pais, por exemplo, também pode ser gatilho para o luto prolongado.

    Na vida adulta, os principais sintomas do luto prolongado estão relacionados à dificuldade de concentração e de produtividade, sentimento de desvalorização da vida e de incapacidade.

    “No adulto, a dor está muito mais ligada à vontade de viver ou não e à vontade de produzir. A pessoa começa a ter sintomas como perda de libido, de desejo, de vontade de namorar, de ter vida pessoal. Ele vai se isolando também, como a criança e o adolescente, mas com uma intensidade diferente”, afirma a psicóloga.