Entenda por que infecção urinária pode chegar ao sangue, como a de Bill Clinton

Infecção pode evoluir para sepse e causar a morte se não for tratada rapidamente e com antibióticos na veia

Ex-presidente Bill Clinton está internado em decorrência de uma infecção no trato urinário que atingiu a corrente sanguínea
Ex-presidente Bill Clinton está internado em decorrência de uma infecção no trato urinário que atingiu a corrente sanguínea Foto: CNN

Camila Neumamda CNN

São Paulo

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O ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton está internado em um hospital da Califórnia devido a uma infecção no trato urinário que se espalhou para a corrente sanguínea. Este tipo de infecção ocorre quando bactérias alojadas na bexiga e/ou nos rins, geralmente criadas na urina, atingem o sangue.

Quando isso acontece, o paciente tende a sofrer uma bacteremia, que é quando alguma bactéria atinge a corrente sanguínea. Este tipo de infecção pode ser inicialmente assintomática ou causar febre, calafrios, tremores e queda abrupta de pressão.

Porém, as bactérias tendem a circular rapidamente pela corrente sanguínea e atingir outros órgãos, causando a temida septicemia, ou infecção generalizada, com risco latente de morte por falência múltipla de órgãos se a infecção não for controlada.

Segundo o urologista Fernando Leão, do Hospital Israelita Albert Einstein, a infecção quando atinge a corrente sanguínea, o organismo na totalidade, já pode ser classificada como sepse e precisa ser tratada em unidade de terapia intensiva de forma imediata.

“A sepse é um quadro recheado de sinais; o paciente tem confusão mental,  queda de pressão, aumento da frequência cardíaca, febre, diminuição do volume de urina, perda de apetite e queda no estado físico”.

Segundo ele, “o quadro requer internação de urgência em Unidade de Terapia Intensiva, e a necessidade de drogas para manter a pressão sanguínea, além de antibióticos pesados via endovenosa para resgatar o quadro crítico que se encontra”.

No entanto, em um estágio inicial pode ocorrer o que os médicos chamam de bacteremia, quando a infecção não se instalou em outros órgãos. É o melhor momento para intervenção com antibióticos, a fim de controlar a infecção e evitar que ela se torne generalizada, explica a infectologista Ana Gales, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

“Quando eu tenho um aumento de temperatura, de frequência cardíaca e respiratória e está estrita a um órgão, posso ter uma bacteremia. Para eu ter a septicemia ou sepse, além da circulação da bactéria no sangue, tenho que ter alguma disfunção orgânica, como confusão mental, respiração aumentada, pressão sistólica baixa, insuficiência renal, que tende a ser bem mais grave”, afirma.

Segundo a infectologista Raquel Muarrek, da Rede D’or, infecções em diferentes órgãos, não somente do trato urinário, podem levar ao quadro de sepse desde que a infecção atinja a corrente sanguínea.

“Pode ser uma infecção de pele, pulmão, abdome, urina. Todos os quadros de infecção no organismo podem levar à sepse, que é uma ação inflamatória com critério multissistêmico, que pode causar o choque séptico e a possível morte”, explica.

Segundo a Global Sepsis Alliance, a sepse afeta entre 47 e 50 milhões de pessoas todos os anos, e pelo menos 11 milhões morrem – uma morte a cada 2,8 segundos no mundo. Dependendo do país, a mortalidade varia entre 15% e mais de 50%.

No Brasil, a sepse é responsável por 25% da ocupação de leitos em UTIs e uma das principais causas de morte nas unidades de terapia intensiva e de mortalidade hospitalar tardia, superando o infarto do miocárdio e o câncer, segundo o Instituto Latino Américano de Sepse (ILAS).

A sepse tem alta mortalidade no Brasil, chegando a 65% dos casos, enquanto a média mundial está em torno de 30-40%, segundo o ILAS.

Segundo um levantamento feito pelo estudo mundial conhecido como Progress, a mortalidade da sepse no Brasil é maior que a de países como Índia e a Argentina. O instituto, por sua vez, não esclarece se estes dados contemplam a pandemia de Covid-19 ou se a antecede.

Como a infecção urinária causa sepse?

Casos de infecção urinária, no geral, não evoluem para sepse, e são mais frequentes em pessoas com pouca ingestão de água ou que não eliminam a urina na hora certa, quando seguram a ida ao banheiro, explica a infectologista Raquel Muarrek, da Rede D’or. No entanto, há situações que aumentam o risco, ela explica.

“Em tempos de férias, quando diminui a ingesta de água, as idas ao banheiro, e aumenta a frequência de relações sexuais aumentam os casos porque isso faz uma translocação bacteriana e leva à infecção. Como é uma infecção bacteriana, muitos não procuram auxílio para tratá-la, o que leva à pielonefrite (infecção nos rins)”, explica.

Mas casos como o de Bill Clinton podem também estar relacionados a idade mais avançada no homem. No idoso, isso geralmente ocorre pelo crescimento benigno da próstata, condição conhecida como hiperplasia prostática benigna.

A medida que a próstata cresce, ela espreme a uretra, que é por onde a urina passa e ela fica represada na bexiga.

Sem condições de esvaziar propriamente a bexiga, a urina que permanece se torna foco de bactérias que saem pelo canal urinário e pode atingir os rins. O foco de infecção, portanto, avança e pode chegar ao sangue e levar a um quadro de infecção generalizada, explica Leão.

Quando esta infecção atinge outras partes do trato urinário, como a uretra (uretrite), aumenta o risco do que os médicos chamam de infecção urinária complicada, que requer uso de antibióticos.

“Vale lembrar que a urina é o lixo do organismo. Ela não foi feita para ser armazenada. Esse resíduo acaba funcionando como um meio de cultura propício para o desenvolvimento da infecção urinária. E quando chega nos rins, que filtra o sangue, é ainda mais perigoso”, afirma Leão.

Esta evolução pode acontecer também em mulheres e em pessoas mais jovens. Nas mulheres, a causa mais comum é a cistocele, mais conhecida como bexiga caída. Geralmente surge após o parto, ou por outra tensão no músculo pélvico, como levantamento de peso, ou constipação severa.

Nestes casos, a mulher passa a ter dificuldade de esvaziar a bexiga, e ao reter urina, também cria o padrão infeccioso, que pode chegar ao sangue se não tratado corretamente, explica o urologista.

“Em homens mais jovens, a infecção urinária complicada pode ocorrer também, sobretudo por consequência de cálculos urinários acumulados na bexiga, que se espalham no trato urinário ou cálculos que se acumulam nos rins”, explica Leão.

A infecção urinária tem como sintomas o ardor e a dificuldade para urinar, dor no períneo, ou dor embaixo da barriga, que nos homens pode indicar uma infecção na própria próstata (prostatite) e nas mulheres a infecção na bexiga (cistite).

Até essa fase, a infecção pode ser tratada com antibiótico via oral e em casa. Mas quando surgem sintomas mais intensos, deve-se procurar um médico e pode haver necessidade de administrar antibióticos por via endovenosa – como na sepse, afirma Gales.

“Quando surge febre, dores lombares mais intensas, vômito e náusea, pode ser sinal que a infecção atingiu os rins e deve ser encarado como um sinal de alerta”, diz Gales.

Casos de infecção urinária em homens, que chegam ao sangue, podem evoluir por dois fatores, seja por questões genéticas, nas quais não se sabe exatamente porque o paciente evolui tão rapidamente para sepse ou por descuido em tratar o aumento da próstata.

Segundo o urologista, é comum que alguns pacientes não deem a devida importância ao aumento da próstata quando se ainda está nos estágios da hiperplasia prostática benigna.

No entanto,  se não tratada, ela pode causar sérias reações do organismo, como uma infecção grave da próstata, retenção urinária, que fará o homem precisar usar sonda na bexiga para urinar, além da formação de pedra na bexiga e deterioração da função renal por conta do crescimento benigno.

“São consequências graves, que podem ser irreversíveis e fatais. Deixar uma doença benigna evoluir para situações tão importantes é muito complicado e nós temos que orientar e informar o paciente nesse sentido, diz Leão.

 

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