Estudo aponta queda de vacinação de bebês e crianças nos últimos dois anos

Em 2019, houve a aplicação de apenas 102.469.969 doses de vacinas, o que representa queda de 13,6%

Rio de Janeiro intensifica campanha de vacinação contra sarampo
Rio de Janeiro intensifica campanha de vacinação contra sarampo Foto: Tânia Rêgo - 1.fev.2020/ Agência Brasil

Julyanne Jucá, da CNN, em São Paulo

Ouvir notícia

Um estudo financiado pelo Programa de Pesquisa Intramural da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e publicado em Junho de 2020, no International Journal of Infectious Diseases, apontou expressiva queda na imunização brasileira, especialmente em bebês e crianças. 

A pesquisa coletou dados do Departamento de Informática do Ministério da Saúde do Brasil (DATASUS) que incluem informações acerca da cobertura vacinal em todas as faixas etárias e regiões do país, entre os anos de 1994 e 2019. Além disso, foram colhidos recortes específicos para vacinas do banco de dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Leia mais:
Apenas seis estados brasileiros estão em dia com metas da vacinação contra gripe
Para OMS, vacinação contra Covid-19 começará apenas em 2021
Vacinação contra gripe tem baixa adesão entre grávidas e crianças

Parâmetro geral em números absolutos

De acordo com o levantamento, o maior número de pessoas imunizadas no período recente foi em 2014 (125.357.642 doses aplicadas), em 2001 (123.428.150) e em 2017 (118.590.603). 

Nos últimos dois anos avaliados, houve expressiva diminuição da cobertura vacinal no país. Em 2019, houve a aplicação de apenas 102.469.969 doses de vacinas, o que representa queda de 13,6%.

Mesmo em queda, o estudo apontou que o país conseguiu disponibilizar maior variedade de vacinas oferecidas à população. Em 1994, a Saúde brasileira contava com 11 diferentes vacinas e pulou para 36 vacinas disponíveis no período atual (2019), segundo o PNI.

Diferentes regiões do país

A pesquisa mostrou que há relação direta entre a disponibilização das vacinas em todo o país e a queda da imunização. Nos últimos dois anos, apenas a região Sul apresentou ligeiro aumentou de sua cobertura vacinal.

As regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste mostraram que, mesmo que a variedade de vacinas tenha aumentado em todo o país, menos pessoas foram vacinadas. O primeiro território foi o mais impactante: o número de vacinas aplicadas na região Nordeste de 2017 para 2018 caiu 1.162.122, representando -4,05%. Já comparando 2018 com 2019, a queda foi de 1.344.017, ou 4,68%. 

As vacinas

Sete vacinas merecem especial atenção por terem apresentado maior redução de aplicação das doses, comparando os anos de 2018 e 2019 e as regiões do país. Curiosamente, são aquelas dedicadas a imunização de bebês e crianças:

– A vacina contra a paralisia infantil (poliomielite), no Sul;
– Vacina Tríplice Acelular (coqueluche, difteria e tétano); HIB (contra doença Haemophilus Influenzae do tipo B) e Pneumocócica 13-valente (VPC13), no Sudeste;
– Tetraviral MMR (sarampo, rubéola, caxumba e varicela) e sarampo/rubéola, no Nordeste

Explicação da queda

Um dos pontos levantados para a expressiva queda no número da cobertura vacinal no país, segundo o estudo, se relaciona com o aumento de grupos anti-vacinação em todo o mundo. 

Os pesquisadores demonstraram bastante preocupação com a imunização de crianças, grupo de maior suscetibilidade a novas infecções. No grupo com idade inferior a 10 anos, em específico, é apontado que a cobertura vacinal caiu entre 10 à 20% nos últimos anos, associado à diminuição do financiamento do SUS (Sistema Único de Saúde) e ao aumento da desconfiança e hesitação de pais com as vacinas. 

Outro aspecto sugere que pode conflitos políticos, colapsos socioeconômico e dificuldade de vacinar comunidades tradicionais, como quilombos e indígenas, podem ter apresentado certo impacto nos dados. “Tais aspectos combinados com o ativismo do grupo anti-vacinação nas mídias sociais e a desconfiança na ciência médica expuseram a complexidade de contestar a redução na cobertura da vacinação”

No entanto, é deixado claro que para correlacionar os grupos anti-vacinas com a baixa cobertura vacinal seria necessário um conjunto de pesquisas adicionais, com coleta de dados primários, por exemplo, dos movimentos anti-vacina. 

A Fiocruz ainda coloca que o pico apresentado em 2017 foi motivado, principalmente, por conta de um surto de febre amarela entre o final de 2016 e início de 2017 registrado, principalmente, na região Sudeste do Brasil. “As pessoas tendem a evitar a vacinação quando consideram desnecessária devido à falta de percepção de uma ameaça de doença.”

Os pesquisadores alertam para que a comunidade científica e agentes de Saúde elaborem estratégias mais efetivas que evitem a hesitação de pais e responsáveis, além de melhorar a cobertura e a adoção de medidas preventivas para que doenças já erradicadas não retornem. 

 

Tópicos

Mais Recentes da CNN