Estudo indica ‘ponto ideal’ de sono para proteger saúde e o cérebro dos adultos

Dormir por muito pouco ou muito tempo pode elevar riscos à saúde do cérebro

Estudo analisou 4.417 participantes com idade média de 71,3 anos
Estudo analisou 4.417 participantes com idade média de 71,3 anos Andisheh A/Unsplash

Kristen Rogersda CNN

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O tempo que adultos dormem pode afetar a saúde e o cérebro, segundo estudo divulgado na semana passada pela revista JAMA Neurology. A interrupção do sono em pessoas com idade avançada é comum e está associada a alterações da função cognitiva – a capacidade mental de aprender, pensar, raciocinar, resolver problemas, tomar decisões, lembrar e ter atenção –, diz a pesquisa.

Modificações no sono também estão relacionadas à idade e a doenças como Alzheimer, depressão e problemas cardiovasculares. Os autores do estudo ainda observaram possíveis associações entre a duração do sono a fatores como o estilo de vida e a função cognitiva.

De acordo com a pesquisa, dormir por muito pouco ou muito tempo pode elevar os riscos à saúde do cérebro de adultos.

Os entrevistados que relataram uma curta duração de sono – de seis horas ou menos – apresentaram níveis elevados da proteína beta-amiloide, o que “aumenta muito” o risco de demência, aponta o pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Stanford, na Califórnia, Joe Winer, principal autor do estudo.

A comparação foi feita com os participantes que relataram duração do sono normal, definida como de sete a oito horas por noite.

Idosos com sono inadequado também mostraram desempenho moderado a significativamente pior em testes comumente usados para avaliar habilidades cognitivas, incluindo orientação, atenção, memória, linguagem e habilidades visoespaciais; além de identificação de demência leve.

Dormir muito também foi associado a funções executivas menores, mas sem níveis elevados de beta-amiloide. Os participantes que relataram uma longa duração do sono – nove ou mais horas – tiveram uma pontuação pior no Teste de Substituição de Símbolos de Dígitos do que aqueles que indicaram uma duração normal do sono. Por mais de um século, este teste avaliou as habilidades de aprendizagem associativa, observando a capacidade dos participantes de fazer a correspondência correta de símbolos com números.

“A principal lição é que é importante manter um sono saudável no final da vida”, disse Winer. “Além disso, tanto as pessoas que dormem muito pouco quanto as que dormem muito tiveram mais sintomas depressivos”. As descobertas sugerem que o sono curto e longo podem envolver diferentes processos de doenças subjacentes, acrescentou Winer.

O que é beta-amiloide

A beta-amiloide ou amiloide-β é uma proteína criada durante a atividade normal das células cerebrais, embora ainda não tenhamos certeza de sua função.

“Amiloide-β é um dos primeiros marcadores detectáveis ​​na progressão da doença de Alzheimer”, disse Winer. Na doença de Alzheimer, as proteínas amiloide-β começam a se acumular por todo o cérebro. “As placas amiloides têm maior probabilidade de aparecer com a idade, e pessoas com amiloide acumuladas no cérebro permanecem saudáveis. Cerca de 30% das pessoas saudáveis ​​de 70 anos terão quantidades substanciais de placas amiloides em seus cérebros”, afirmou.

Em alguém que tem a doença de Alzheimer, as células cerebrais responsáveis pela recuperação, processamento e armazenamento de informações degeneram e morrem, de acordo com a Associação de Alzheimer . A “hipótese amiloide”, uma das principais teorias sobre o culpado dessa destruição, sugere que o acúmulo da proteína pode interromper a comunicação entre as células cerebrais, acabando por matá-las.

Segundo Laura Phipps, chefe de comunicação da Pesquisa de Alzheimer do Reino Unido, que não estava envolvida no estudo, pesquisas anteriores sugeriram que o sono pode ajudar a limitar a produção de amiloide no cérebro e apoiar o sistema de drenagem que o limpa.

Para ela, o amiloide-β pode começar a se acumular muitos anos antes que os sintomas óbvios de Alzheimer apareçam. “Isso torna difícil separar causa e efeito ao estudar problemas de sono e risco de Alzheimer, especialmente se você olhar apenas para os dados de um ponto no tempo”, acrescentou.

Sono, depressão e dados sociodemográficos

O estudo analisou 4.417 participantes com idade média de 71,3 anos, a maioria brancos e nascidos nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Japão.

Ambos os grupos — de curta e longa duração do sono — relataram mais sintomas depressivos do que o grupo de sono normal. O consumo de cafeína não foi associado à duração do sono. Por outro lado, quanto mais bebidas alcoólicas os participantes ingeriam diariamente, maior a probabilidade de dormirem mais.

Também havia diferenças entre gêneros, raças e etnias: fatores ser mulher e ter mais anos de educação estavam significativamente associados a dormir mais todas as noites. Em comparação com participantes brancos, que relataram uma duração média de sono de sete horas e nove minutos, negros ou afro-americanos relataram uma duração média de sono de 37,9 minutos a menos. Os asiáticos apresentaram 27,3 minutos a menos do que os participantes brancos. Já os latinos ou brancos hispânicos relataram 15 minutos a menos.

Segundo autores do estudo, essas descobertas apontam que as disparidades de sono podem estar associadas a outros aspectos da vida, como saúde cardiovascular e metabólica, fatores socioeconômicos e “discriminação racial e racismo percebido” correlacionados com menos sono em estudos anteriores.

Perguntas restantes

“Para entender melhor a ordem e a direção da causalidade nessas relações, pesquisas futuras precisarão construir uma imagem de como os padrões de sono, processos biológicos e habilidades cognitivas mudam em longos períodos de tempo”, disse Phipps.

“Esta nova pesquisa é de um grande estudo internacional com pessoas cognitivamente saudáveis, mas contou com os participantes para relatar sua duração do sono, em vez de medi-la diretamente”, acrescentou ela. “Os pesquisadores não puderam avaliar a qualidade do sono ou o tempo gasto em diferentes estágios do ciclo do sono, que podem ser fatores importantes na ligação entre o sono e a saúde cognitiva.”

Segundo os autores do estudo, permanece controverso se alguns domínios cognitivos são mais afetados pela duração extrema do sono do que outros domínios. Winer entende que os idosos deveriam considerar o sono tão importante quanto a dieta e os exercícios para a saúde.

“Enquanto os pesquisadores ainda estão trabalhando para entender a relação complexa entre o sono e nossa saúde cognitiva de longo prazo, um sono de alta qualidade pode ser importante para muitos aspectos de nossa saúde e bem-estar”, disse Phipps. “A melhor evidência sugere que entre sete e nove horas de sono é o ideal para a maioria dos adultos. E quem pensa que seus padrões de sono podem estar afetando sua saúde a longo prazo deve falar com seu médico”, ressaltou.

Este texto foi traduzido. Clique aqui para ler o original

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