Evidências apontam para caminho da intercambialidade, dizem especialistas

Professores da UFMG e UFMS defendem que estados sigam as diretrizes da Saúde em relação à dose de reforço da vacina contra a Covid-19

Produzido por Renata Souza*da CNN

em São Paulo

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O Brasil começa neste mês a aplicação da terceira dose contra a Covid-19 em idosos e imunossuprimidos. Um dos principais debates é em relação a qual imunizante utilizar. A norma técnica do Ministério da Saúde recomenda que se priorize a Pfizer, mesmo em pessoas que tomaram Coronavac ou AstraZeneca, no entanto os estados têm o direito de escolher como realizar suas campanhas.

Dados científicos corroboram a decisão da pasta ao apontarem como melhor caminho a intercambialidade das vacinas, segundo a professora titular de Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia, Ana Maria Caetano, e o pesquisador da Fiocruz, infectologista e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Julio Croda.

Ana Maria se baseia em um estudo da Universidade de Oxford para explicar porque a intercambialidade entre a AstraZeneca e a Pfizer é segura. “Pelas evidências científicas que temos hoje, ela seria a vacina de escolha, principalmente pela efetividade também nesta faixa etária [de idosos] que já tem um defeito na resposta imune.”

Julio Croda corrobora a recomendação técnico-científica da Saúde e complementa dizendo que há um estudo em pré-print (ainda sem revisão por pares) que recomenda a AstraZeneca como reforço a quem tomou Coronavac. Segundo Croda, a pesquisa comprova que o uso da AstraZeneca em quem já completou o esquema de duas doses da Coronavac melhora a produção de resposta imunológica, principalmente de anticorpos neutralizantes.

“As evidências científicas apontam para o caminho da intercambialidade, principalmente de outras bases tecnológicas de vacina de RNA Mensageiro ou de vetores virais. Mas não existe, claro, uma recomendação da utilização da Coronavac, especialmente como dose de reforço nesse grupo de idosos acima de 60, 70 ou 80 anos”, ressalta o médico.

Cinco cidades de São Paulo já estão aplicando a terceira dose contra a Covid-19. Na capital, a campanha começa nesta segunda (6) priorizando a população a partir de 90 anos. A orientação do governo do estado é que todos os imunizantes disponíveis nas unidades de saúde possam ser utilizados como dose extra. À CNN, o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, esclareceu que a Pfizer será priorizada apenas a partir de 15 de setembro.

Terceira dose em São Paulo

A decisão difere do recomendado pelo Ministério da Saúde, que estabelece o dia 15 de setembro como data do início da terceira dose para pessoas maiores de 70 anos e, preferencialmente, com o imunizante da Pfizer. Ambos pesquisadores criticam a antecipação de São Paulo e o uso da Coronavac para dose de reforço em idosos.

“Acho essa antecipação prematura, porque não tem base técnico-científica, principalmente na oferta da Coronavac”, diz Júlio. O professor sugere que a Coronavac seja utilizada para oferecer reforço aos profissionais de saúde com menos de 60 anos.

“A eficácia da Coronavac foi demonstrada como muito pior no grupo idoso. Nos outros grupos, a eficácia é boa, então não tem sentido a gente criar esse ruído e essa descoordenação exatamente no momento em que estamos começando a ter um ritmo de vacinação adequado e que, finalmente, o ministério da Saúde resolveu fazer uma coordenação nacional e criar diretrizes baseada no que a ciência tem publicado e no que os estudos têm demonstrado”, completa Ana Maria.

* (sob supervisão de Elis Franco)

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