Falta de coordenação aumentou desigualdade vacinal no Brasil, diz pesquisa

Segundo estudo da Oxfam Brasil, o alto percentual de imunização ofusca omissões governamentais em resposta à pandemia

Beatriz Gabriele, da CNN*, em São Paulo
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Um relatório divulgado nesta quarta-feira (23) pela Oxfam aponta que o Brasil, apesar de ter o 2º maior número de casos de Covid-19 nas Américas, é o 15º em cobertura vacinal primária. Hoje, a nação tem mais 35 milhões de casos, atrás apenas dos Estados Unidos, que contabilizam 98 milhões de infecções.

O documento, intitulado “Desigualdade no acesso a vacinas contra a Covid-19 no Brasil”, cita dados do Ministério da Saúde para chegar à conclusão.

A pasta aponta que, em 11 de outubro de 2022, a média de cobertura vacinal primária contra a Covid-19 na população de três anos ou mais era de 81,5%. No entanto, segundo o relatório, a variação no número de imunizados pode ser muito significativa dependendo do estado.

Em Roraima, a média foi de 57,5%, enquanto, em São Paulo, atingiu 91%. O estudo mostra que somente 16% dos municípios brasileiros atingiram cobertura vacinal acima de 80%.

Outro dado divulgado foi sobre a cobertura vacinal primária por gênero. Em todos os estados brasileiros, as mulheres foram mais vacinadas que os homens. Segundo o estudo, não foram encontrados dados sobre a imunização da população LGBTQIA+.

A distribuição da vacina contra a Covid-19 mostrou grandes variações e impossibilitou as análises de cobertura vacinal por raça/cor da pele. Segundo o relatório, a ausência de registro sistematizado nesse campo impede o aprofundamento do debate sobre desigualdades raciais no acesso à vacina no país.

“Ao inviabilizar grupos raciais e impedir que sua condição de vulnerabilidade seja levada em conta no desempenho e implementação de políticas públicas, os efeitos do racismo estrutural e institucional comprometem a análise da desigualdade racial no acesso à vacina contra a covid-19", diz a pesquisa.

Sobre isso, o relatório utiliza dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), que mostram que, em maio de 2021, os países ricos -- que possuem 15% da população mundial -- detinham 45% das vacinas, enquanto os países de baixa e média renda -- que têm quase metade da população -- tinham acesso a 17% dos imunizantes.

Em todo o mundo, enquanto as primeiras vacinas começaram a chegar ao mercado no final de 2020, o governo brasileiro optou por investir em apenas uma marca, deixando de lado a CoronaVac, que vinha sendo pesquisada pelo Instituo Butantan em parceria com a chinesa Sinovac.

Falta de coordenação

Baseado em depoimentos e entrevistas, o relatório aponta que não houve diálogo entre representantes da sociedade e governo federal, gerando atraso e equívocos na definição dos grupos prioritários.

Diante da emergência de imunizar a população, diversas entidades subnacionais, como estados e municípios, tiveram que se mobilizar para negociar vacinas diretamente com as farmacêuticas, mas a disputa do governo federal com os países fornecedores dificultou a atrasou a entrega de vacina para todos.

*Supervisão de André Rosa, da CNN