Negros têm 1,5 vezes mais chances de morrer por Covid-19 no Brasil, diz OCDE

Relatório que faz balanço dos impactos da pandemia na saúde de 43 países aponta milhões de mortes em excesso, queda na expectativa de vida e impacto na saúde mental

Negros têm 1,5 vezes mais chances de morrer por Covid-19 no Brasil comparado aos brancos, segundo OCDE
Negros têm 1,5 vezes mais chances de morrer por Covid-19 no Brasil comparado aos brancos, segundo OCDE Foto: Natalia Riabchenko/Shutterstock

Camila Neumamda CNN

São Paulo

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A pandemia de Covid-19 causou 2,5 milhões de mortes ou 16% a mais do que a expectativa para 2020 e primeira metade de 2021 em 43 paíse — 38 deles membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e 5 parceiros, entre eles o Brasil.

As principais vítimas da doença foram os idosos e as populações étnicas minorizadas e mais pobres, segundo o relatório Health at a Glance, da OCDE, divulgado nesta terça-feira (9).

No Brasil, o risco de mortalidade por Covid-19 foi 1,5 vezes maior na população negra, apesar de haver uma maior taxa de incidência entre a população branca, e negros e pardos brasileiros internados em hospitais tinham 1,3 vezes a 1,5 vezes mais risco de mortalidade em comparação com brasileiros brancos”, descreve o relatório.

A OCDE aponta ainda que a pandemia de Covid-19 causou diminuição na expectativa de vida e um grande impacto adverso na saúde mental dos residentes destas nações.

“A pandemia contribuiu direta e indiretamente, para um aumento de 16% no número esperado de mortes em 2020 e na primeira metade de 2021 nos países da OCDE. A expectativa de vida caiu em 24 de 30 países com dados comparáveis, com quedas particularmente grandes nos Estados Unidos (-1,6 ano) e na Espanha (-1,5 ano)”, segundo o relatório.

As populações consideradas vulneráveis foram as mais atingidas pela pandemia nos países da organização, correspondendo a mais de 90% do registrado e as mortes por Covid-19 ocorreram entre pessoas com 60 anos ou mais.

“Também houve um claro gradiente social, com pessoas desfavorecidas, aqueles que vivem em áreas carentes e a maioria das etnias minorias e imigrantes com maior risco de infecção e morte”, descreveu o estudo.

A OCDE, com sede em Paris, na França, é uma organização internacional composta por 38 países membros, que reúne as economias mais avançadas do mundo. Apesar de não ser um membro oficial da OCDE, o Brasil é considerado um parceiro-chave desde 2007, junto com China, Índia, Indonésia, Rússia e África do Sul.

São membros da OCDE: Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Checa, Dinamarca, Estônia, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Islândia, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Coreia do Sul, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, México, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Polônia, Portugal, República Eslovaca, Eslovênia, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos.

Brasil x países ricos

Ainda segundo o relatório, o Brasil registrou uma queda de 20% na cobertura de vacinação infantil em abril-maio ​​de 2020 em comparação com janeiro de fevereiro de 2020. Na Inglaterra, por exemplo, a cobertura de 12 meses para a vacinação hexavalente caiu apenas 0,1% em 2020 em comparação com 2019.

“Isso sugere que, na maioria dos países da OCDE, o impacto nas campanhas de vacinação em países de renda baixa e média provavelmente será muito mais significativo, com consequências negativas possivelmente importantes para os resultados de saúde infantil e a disseminação de doenças evitáveis ​​por vacinas”, afirma a OCDE.

A disparidade entre os gêneros na expectativa de vida e nível educacional no Brasil é uma das maiores entre os países parceiros da OCDE, segundo o relatório. Enquanto são menos de quatro anos nos países escandinavos, no Reino Unido, na Holanda e Islândia, no Brasil é de sete anos.

No entanto, as diferenças entre os gênero se mostraram muitos maiores nos países da Europa Central e Oriental – principalmente na Lituânia e Letônia (mais de 9 anos), Estônia (8,5 anos) e Polônia (7,8 anos).

“Isso se deve em parte à maior exposição a fatores de risco entre os homens – particularmente maior uso de tabaco, consumo excessivo de álcool e dietas menos saudáveis ​​- resultando em mais mortes por doenças cardíacas, câncer e outras doenças”, segundo o relatório.

Vacina e Covid longa

A vacinação contra Covid-19, por sua vez, conseguiu reduzir o risco de doenças graves e morte pela doença, com a participação de pessoas totalmente vacinadas, atingindo mais de 70% em 9 países da OCDE e em 15 já iniciando a vacinação com a terceira dose. O Brasil não foi citado neste levantamento.

As evidências apontam que, embora as vacinas sejam um pouco menos eficazes contra a interrupção da doença sintomática pela variante delta, ainda se mostraram altamente eficazes (mais de 90%) contra admissões hospitalares, segundo o relatório.

Impactos na saúde mental

Mas o documento também aponta o grande impacto da pandemia na saúde mental.

“O impacto da pandemia na saúde mental foi enorme, com prevalência de ansiedade e depressão mais do que o dobro dos níveis observados antes da crise na maioria dos países com dados disponíveis, a maioria notadamente no México, no Reino Unido e nos Estados Unidos”.

A Covid longa –sintomas de Covid-19 que persistem por semanas ou meses -, por sua vez, tornou o caminho para a recuperação lento e difícil, segundo o relatório da OCDE.

No Reino Unido, por exemplo, 1,1 milhão de pessoas (1,7% da população) relataram sintomas de Covid longa desde o início da pandemia, descreve a OCDE.

Nos Estados Unidos, uma pesquisa recente estimou que 37% dos pacientes sofreram pelo menos um sintoma de Covid-19 de 4 a 6 meses após o diagnóstico.

Estilo de vida e os impactos na saúde

Estilos de vida pouco saudáveis ​​e más condições ambientais continuaram a piorar a qualidade de vida, encurtar vidas e tornar as populações menos resilientes a choques de saúde, especialmente a infecção pela Covid-19.

O fumo, uso prejudicial de álcool e obesidade foram as causas de muitas condições crônicas, e aumentaram o risco de pessoas morrerem de Covid-19. As taxas diárias de tabagismo diminuíram na maioria dos países da OCDE na última década, mas ainda assim 17% fumam diariamente. As taxas atingiram 25% ou mais na Turquia, Grécia, Hungria, Chile e França.

O Brasil surge como um dos países com maior incidência de casos de diabetes entre as nações pesquisadas.

“Entre os países membros da OCDE, a prevalência de diabetes é mais alta no México, Turquia e Estados Unidos, com mais de 10% dos adultos vivendo com diabetes (dados padronizados por idade). Para os países parceiros da OCDE, a prevalência de diabetes também é alta na África do Sul, Índia e Brasil, em torno de 10% ou mais”.

As taxas de mortalidade infantil são baixas na maioria dos países da OCDE, embora sete países membros tenham relatado pelo menos cinco mortes por 1.000 nascidos vivos: República Eslovaca, Estados Unidos, Chile, Costa Rica, Turquia, México e Colômbia.

Nos países membros da OCDE, no entanto, as taxas de mortalidade infantil são frequentemente mais altas entre as populações indígenas, populações de minorias étnicas e outros grupos vulneráveis, como na Austrália, Canadá, Nova Zelândia e nos Estados Unidos.

O Brasil reportou o dobro disso, com acima de dez mortes por 1.000 habitantes. Porém, uma taxa menor do que de outros países parceiros da OCDE, cuja mortalidade infantil permanece acima de 20 mortes por 1.000 nascidos vivos na Indonésia, África do Sul e Índia.

 

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