Pesquisador da Fiocruz diz que países ricos não deveriam ter desprezado África

Augusto Paulo Silva disse que desprezo "foi um tiro no pé", e criticou o que considerou a retenção de vacinas por parte de países dos continentes europeu e americano

Variante Ômicron foi detectada por cientistas da África do Sul.
Variante Ômicron foi detectada por cientistas da África do Sul. Reuters

Iuri Corsinida CNN

no Rio de Janeiro

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O pesquisador do Centro de Relações Internacionais (Cris) em Saúde da Fiocruz e especialista em países africanos de língua portuguesa, Augusto Paulo Silva, criticou as medidas adotadas por alguns países de restringir voos vindos de países da África.

Para ele, o vírus é uma ameaça global e “nenhum país vai estar seguro se os outros não estiverem”. Segundo levantamento feito pela CNN, ao menos 41 países, incluindo o Brasil, impuseram restrições totais ou parciais de viajantes vindos de países do sul da África.

De acordo com o especialista, não foram enviadas ao continente vacinas suficientes, o que ajudou a eclosão do surto de uma nova variante no continente.

“O mecanismo Covax criado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) era para canalizar vacinas para países mais pobres, mas infelizmente os mais ricos ficaram com vacinas de que não precisavam, prejudicando aqueles que precisavam. Daí surge o que vamos enfrentar daqui em diante”, disse o pesquisador.

Para ele, “com o pequeno percentual de população vacinada, era previsível a evolução do vírus e consequentes mutações. Foi um tiro no pé o que os países ricos fizeram ao desprezarem o continente africano”, queixou-se Augusto.

O mecanismo Covax é uma iniciativa global para garantir a equanimidade das vacinas em todos os países, mesmo aqueles de baixa renda e poucos recursos técnicos. Segundo argumentou a OMS, para combater a Covid-19 é necessária uma abordagem coordenada para que todos consigam receber a proteção adequada contra o vírus. Em maio deste ano, o Unicef já havia alertado que cerca de 170 milhões de doses já deveriam ter sido entregues aos países de baixa renda.

O pesquisador da Fiocruz, que mantém contato direto com cientistas e moradores de países africanos, disse que a maior preocupação da comunidade africana atualmente é com o baixo estoque de vacinas e com a consequente baixa taxa de vacinados. Atualmente, na média da maioria dos 55 países do continente, a taxa de cobertura vacinal está em apenas 7%. A meta até o final do ano é atingir 10%.

Paulo, no entanto, diz que graças ao esforço de algumas nações, em especial a China, a maioria dos países africanos já têm condições mínimas de diagnóstico e tratamento.

“No geral, a África teve relativamente menos mortes do que outros países. Mas sem vacinas nenhum sistema de saúde resiste, como se viu nos Estados Unidos e no Brasil. Porém, por exemplo, o sequenciamento genômico que descobriu a Ômicron foi feito pela África do Sul e a maioria dos países africanos hoje já fazem monitoramento genômico. São capacidades que se instalaram ao longo da pandemia e o apoio da China e de alguns pais foram determinantes”, finalizou.

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