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    Pesquisadores apontam desafios no uso de antivirais contra a varíola dos macacos

    Estudo revela respostas de pacientes a dois medicamentos antivirais diferentes, brincidofovir e tecovirimat, sendo o segundo capaz de encurtar duração dos sintomas e tempo de contágio

    Autoridades de saúde pública buscam entender o que está causando os surtos de varíola em países da Europa
    Autoridades de saúde pública buscam entender o que está causando os surtos de varíola em países da Europa Morsa Images/Getty Images

    Lucas Rochada CNN

    em São Paulo

    Um medicamento antiviral pode encurtar os sintomas e reduzir o tempo de contágio da varíola dos macacos. É o que sugere um novo estudo retrospectivo com a participação de sete pacientes diagnosticados com a doença no Reino Unido entre 2018 e 2021. Os resultados da análise foram publicados na revista Lancet Infectious Diseases nesta terça-feira (24).

    De acordo com os pesquisadores, o pacientes avaliados representam os primeiros casos de transmissão intra-hospitalar e domiciliar fora da África. Além disso, os casos apontam a resposta em pacientes ao primeiro uso off-label, fora das indicações previstas em bula, de dois medicamentos antivirais diferentes – brincidofovir e tecovirimat – para tratar a doença.

    O estudo indica que foram encontradas poucas evidências de que o brincidofovir apresentasse algum benefício clínico, mas concluiu que seriam necessárias mais pesquisas sobre o potencial do tecovirimat. Os autores também relatam a detecção do vírus da varíola dos macacos em testes de sangue e da garganta.

    Os especialistas defendem que, uma vez que as estratégias de controle de infecção e tratamento para a doença ainda não foram estabelecidas, os dados do estudo podem ajudar a informar os esforços globais para entender melhor as características clínicas, bem como a dinâmica de transmissão.

    “Como as autoridades de saúde pública estão tentando entender o que está causando os surtos de varíola de maio de 2022 na Europa e na América do Norte – que afetaram vários pacientes que não relataram viagens nem uma conexão identificada para um caso conhecido anteriormente – nosso estudo oferece alguns dos primeiros insights no uso de antivirais para o tratamento da varíola dos macacos em humanos”, diz Hugh Adler, pesquisador do Liverpool University Hospitals da NHS Foundation Trust, principal autor do artigo, em comunicado.

    “Embora este último surto tenha afetado mais pacientes do que tínhamos detectado anteriormente no Reino Unido, historicamente a varíola dos macacos não se transmitiu de forma muito eficiente entre as pessoas e, em geral, o risco para a saúde pública é baixo”, completou.

    O pesquisador Nick Price, da Guy’s & St Thomas’ NHS Foundation Trust, autor do estudo, afirma que os casos relatados no estudo e no surto recente destacam a importância de uma rede colaborativa de centros de pesquisa.

    “Os casos que observamos eram desafiadores e de gerenciamento intensivo de recursos, mesmo no cenário de alta renda do Reino Unido. Com as viagens internacionais retornando aos níveis pré-pandemia, autoridades de saúde pública e profissionais de saúde em todo o mundo devem permanecer vigilantes à possibilidade de novos casos de varíola”, disse Price.

    Detalhes do estudo

    Dos sete casos de varíola no Reino Unido analisados ​​no estudo, quatro foram importados da África Ocidental, sendo os outros três causados pela transmissão entre pessoas dentro dos grupos de casos.

    Para descrever a duração e as características clínicas da varíola dos macacos em um ambiente de alta renda, os pesquisadores observaram dados clínicos juntamente com resultados laboratoriais de exames de sangue de amostras coletadas do nariz e da garganta.

    Eles também relataram as respostas dos pacientes a medicamentos antivirais desenvolvidos para tratar a varíola – brincidofovir e tecovirimat – que já haviam demonstrado alguma eficácia contra a varíola em animais.

    Entre 2018 e 2019, quatro pacientes observados no estudo foram tratados para varíola dos macacos em unidades de saúde destinadas a infecções contagiosas na Inglaterra. Três desses casos foram importados da África Ocidental e o quarto caso ocorreu em um profissional de saúde 18 dias após a exposição inicial ao vírus – o primeiro exemplo, segundo o estudo, de transmissão de varíola em um ambiente hospitalar fora da África.

    Os três pacientes iniciais foram tratados com brincidofovir sete dias após o início da erupção cutânea. De acordo com a análise, não foi observado que o fármaco tenha qualquer benefício clínico significativo no tratamento da varíola dos macacos, tendo sido observadas alterações nos exames de sangue do fígado.

    Os pesquisadores ponderam que não se sabe se a administração de brincidofovir no início da doença ou em um esquema de dosagem diferente teria produzido resultados clínicos diferentes. Apesar disso, todos os três pacientes, mais o quarto paciente com transmissão hospitalar, tiveram uma recuperação completa.

    Três outros casos de varíola foram relatados no Reino Unido em 2021 em uma família com histórico de viagem à Nigéria. De acordo com o estudo, dois desses casos foram os primeiros exemplos de transmissão doméstica fora da África.

    Um desses casos ocorreu em uma criança, que foi observada com atenção devido à maior probabilidade de mortalidade. O estudo aponta que a criança apresentou doença leve e se recuperou totalmente.

    Um dos pacientes diagnosticados em 2021 foi tratado com tecovirimat e apresentou uma duração mais curta dos sintomas e eliminação viral do trato respiratório superior do que os outros casos neste grupo.

    No entanto, os autores afirmam que não é possível obter conclusões sobre a eficácia antiviral contra a varíola dos macacos em um grupo populacional tão pequena, destacando a necessidade de estudos complementares sobre antivirais no tratamento da doença.

    De acordo com o estudo, todos os pacientes apresentaram doença leve e receberam tratamento em ambiente hospitalar com o objetivo principal de controlar a propagação da infecção e não devido à gravidade dos quadros.

    Nenhum paciente avaliado apresentou as complicações graves comumente reconhecidas da varíola dos macacos, como pneumonia ou sepse (infecção generalizada). No entanto, um paciente apresentou uma recaída leve seis semanas após a alta hospitalar e outro paciente desenvolveu um abscesso profundo (elevação do tecido da pele com pus) que exigiu drenagem. Os pacientes também apresentaram piora no humor, provavelmente decorrente do isolamento nas instalações de saúde.

    “Durante surtos anteriores de varíola dos macacos, os pacientes eram considerados infecciosos até que todas as lesões formassem crostas. Nesses sete casos do Reino Unido, a disseminação viral foi observada por pelo menos três semanas após a infecção. No entanto, os dados sobre infecciosidade permanecem limitados e são uma área importante para estudos futuros”, diz Catherine Houlihan, da Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido e da University College London, uma das coautoras do artigo.

    Os autores reconhecem algumas limitações deste estudo, principalmente a natureza observacional e o pequeno número de casos analisados. Os pesquisadores também não conseguiram confirmar os resultados positivos do teste de diagnóstico molecular (RT PCR) da varíola dos macacos com amostras laboratoriais do vírus, o que significa que a disseminação contínua do vírus não pôde ser verificada.

    Sobre a doença

    A varíola dos macacos é causada por um vírus “parente” do vírus da varíola. O agravo é classificado como “Doença Infecciosa de Alta Consequência” (HCID, na sigla em inglês) pela Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido.

    Atualmente, não existem tratamentos licenciados para a varíola e há dados limitados sobre a duração do contágio, com o período de incubação que pode variar de cinco a 21 dias. Os pacientes geralmente ficam isolados em um hospital especializado para evitar a propagação do vírus para outras pessoas.

    A varíola pode ser transmitida de animais para humanos por mordida de animal ou ingestão de carne cozida de maneira inadequada. Em casos raros, o vírus pode se espalhar entre pessoas a partir do contato próximo.

    O primeiro caso humano de varíola dos macacos foi relatado em 1970 na República Democrática do Congo, com raras ocorrências fora dos países da África Central e Ocidental.

    Os sintomas relatados da varíola do macaco incluem febre, erupção cutânea e linfonodos inchados. Complicações também foram relatadas, incluindo inflamação dos pulmões, do cérebro e da córnea, com riscos para a visão, além de infecções bacterianas secundárias.

    Existem dois grupos de vírus da varíola dos macacos: o da África Ocidental e o da Bacia do Congo (África Central). As infecções humanas com o tipo de vírus da África Ocidental parecem causar doenças menos graves em comparação com o grupo viral da Bacia do Congo, com uma taxa de mortalidade de 3,6% em comparação com 10,6% para o da Bacia do Congo.