Por que é difícil estimar o pico de Covid, mesmo com o exemplo de outros países

Em análise feita para a CNN, três especialistas falam sobre as dificuldades que o país enfrenta em fazer projeções sobre a onda de contaminações pela variante Ômicron

Profissional de saúde realiza teste para coronavírus.
Profissional de saúde realiza teste para coronavírus. Breno Esaki/Agência Saúde DF

Ingrid Oliveirada CNN

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Na quarta-feira (19), o Brasil bateu recorde e registrou 200 mil casos de Covid em 24 horas. Um dia depois, na quinta-feira (20) o mundo também alcançou recorde, com 3,79 milhões de casos da doença. A variante Ômicron, muito contagiosa, é associada ao altos índices.

Com base no que se conhece sobre a cepa do coronavírus e observando dados epidemiológicos de outros países que já passaram pelo auge, especialistas ouvidos pela CNN estimam quando o Brasil chegará ao pico de casos. No entanto, todos deixam clara a ressalva: são estimativas e é difícil prever com exatidão o momento de queda das infecções.

Entre os países que já passaram pelo auge de casos após a identificação da variante Ômicron estão África do Sul, Estados Unidos e Reino Unido.

Diferentemente destes lugares, o Brasil ainda não mostrou queda na contabilidade de casos. Segundo os dados da plataforma Our World in Data (que reúne informações sobre Covid em diversos países), o Brasil chegou à média móvel de 110 mil casos diários no último dia 20 de janeiro — número que só tem crescido em 2022.

Veja no gráfico abaixo:

O que se sabe sobre os picos da Ômicron em outros países

Nos Estados Unidos, a Ômicron foi confirmada pela primeira vez no dia 1 de dezembro de 2021. Um mês e meio depois, em 15 de janeiro, o país alcançou a média móvel de 802.223 casos. Em 20 de janeiro, no entanto, a média móvel já estava em 731.313 infecções, representando queda de quase 9%.

O Reino Unido viu a primeira infecção pela Ômicron no final de novembro e teve o pico em seis semanas, chegando a 182.890 infecções registradas em 5 de janeiro de 2022. Já em 19 de janeiro, a média móvel estava em 92.442 casos, queda de 49%

A África do Sul chegou à média móvel de 23.437 infecções no dia 17 de dezembro — pouco mais de três semanas após a identificação da cepa no território. Um mês depois, em 17 de janeiro de 2022, o país registrava a média móvel de 4.636 novas infecções, uma queda de 80%.

Veja no gráfico abaixo, com números do Our World in Data, os picos dos três países:

Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro, afirmou à CNN que a variante “se comportou [de forma] muito parecida com os outros países: é um aumento intenso e rápido do número de casos, é uma onda bastante aguda. A gente viu que fica próximo a 30 dias a duração dessa curva”.

Já o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Alberto Chebabo, disse que, embora seja difícil prever o pico no Brasil, “talvez no final de fevereiro o número de casos já será bem menor”.

O infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) José Cerbino Neto também aponta que “o que temos hoje são dados das ondas na África do Sul e de países do Hemisfério Norte, que estão algumas semanas na nossa frente. Os dados deles sugerem uma duração de cinco a seis semanas, mas temos tido uma variação geográfica muito grande entre as ondas.”

Como todos ressaltam, é difícil espelhar o que aconteceu em outros países no Brasil. Mas por quê?

Quais as dificuldades em prever os picos

Como Cerbino Neto lembra, o Brasil tem infecções prévias, cobertura vacinal e sazonalidade muito diferente da Europa, América do Norte ou África.

Fernando Spilki, virologista e professor da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul, lembra que as subnotificações de casos no Brasil também interferem nas estatísticas. “Isso acontece porque a gente tem uma série de pessoas que podem estar sendo testadas e não sendo reportadas. Pode haver atrasos na inserção de dados”, disse.

Já o cientista de dados e pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Helder Nakaya, afirma que os fatores que dificultam as previsões de pico envolvem tanto a parte do hospedeiro (humanos) quanto do vírus.

“Quando o epidemiologista vai fazer uma previsão, ele utiliza uma fórmula com alguns parâmetros que levam em consideração, por exemplo, a população que é suscetível ao vírus, a transmissibilidade, janela de transmissão, quantas vacinas foram aplicadas etc.”

A previsão do pico de infecções conta ainda com diversos fatores demográficos, como aponta Filipe Prohaska, infectologista da Universidade de Pernambuco e do Grupo Oncoclínicas. “Nesses últimos meses, com as novas variantes, é difícil prever quais delas podem infectar, principalmente em bolsões de não-vacinados, o que torna difícil determinar qual vai ser o momento exato da diminuição do número de casos.”

Falta de testes também impacta

Outro fator que influencia a projeção do pico de casos é a falta de testagem. “Com certeza testamos bem menos do que deveríamos. Temos um número de assintomáticos — e que transmitem o vírus — muito maior”, disse Prohaska .

Nakaya aponta que saber o número de pessoas infectadas é de extrema importância para o manejo da saúde pública. “A baixa testagem não só atrapalha a previsão, como prejudica o controle da doença. O gestor de uma pandemia não consegue determinar se vai haver um lockdown, se promove algum tipo de lei que obrigue as pessoas a utilizarem máscaras, se fecha estabelecimentos etc.”

Flexibilizações e restrições são fator-chave

Quando questionado se o cenário [pico de casos seguido de queda em semanas] pode ocorrer no Brasil, Nakaya, da Fapesp, diz que nem sempre aumento e diminuição são “simétricos”, como se fosse um V invertido. “Isso porque a curva vai depender do quanto de pessoas suscetíveis sobraram (ou quantas o vírus ainda pode infectar), além do comportamento da população.” “Se olharmos para dados mundiais, os picos mudam porque alguns governos agem mais rápido [decretam medidas restrições, por exemplo] e outros não”, lembra.

Spilki afirma que a redução no número de casos após um pico muito rápido pode se repetir no Brasil se algumas ações forem adotadas. Se, não forem tomadas medidas de restrições mais rígidas, ou se “avançarmos em um grau de relaxamento do controle, como o retorno ao trabalho em um prazo inadequado, manutenção de aglomerações, este ciclo [pico de infecção] pode se estender”.

Prohaska aponta alguns comportamentos como determinantes para o controle da pandemia. “Querendo ou não, avançamos muito com a vacinação, porém, se flexibilizar [o isolamento social] demais, principalmente nesse período de férias em que há muitos eventos, podemos nos tornar novamente o novo epicentro da doença — mesmo com o alto índice de vacinação.”

Situação atual é diferente do começo da pandemia

A curva de novas infecções por coronavírus que acontece no Brasil agora é diferente da que acontecia no início da pandemia, segundo Prohaska.

“As curvas são bem diferentes porque nós estávamos no período em que não tínhamos vacinados, era uma coisa bem mais explosiva no número de casos e no número de gravidade. Hoje, com a Ômicron, o número de casos também está explosivo, porém o número de internados e de mortalidade está menor”, explica.

Spilki comenta que é possível comparar as curvas porque o número de casos por dia é muito similar ao que se pôde observar na onda provocada pela variante Gama, no início do ano passado.

“Felizmente, esses casos não estão sendo acompanhados — em virtude da vacinação — com a mesma elevação no número de internações, principalmente UTI e no número de internações.

Nakaya diz que matematicamente é possível comparar as curvas para ver qual é a fração de pessoas infectadas e a velocidade das infecções. Entretanto, ele aponta que explicar por que cada onda se comporta de determinada forma não é tão simples. “Como o vírus muda, a população muda, a taxa de vacinação afeta, tudo interfere. Fica difícil tentar explicar as curvas em momentos diferentes da pandemia”, explica.

* Com informações de Isabelle Saleme

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