Protagonista no combate à Aids, David Uip completa 50 anos de medicina

Médico infectologista completa meio século de carreira que mescla ações em saúde pública, área clínica e acadêmica

Gabriela Maraccini, da CNN Brasil
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O infectologista David Everson Uip completa 50 anos de carreira na medicina e, ao longo de sua trajetória, tornou-se uma das principais referências em infectologia no Brasil. Sua história na profissão se mescla a grandes acontecimentos da saúde brasileira, como o diagnóstico do primeiro caso autóctone (transmissão local) de Aids no país, na década de 1980, e as epidemias de gripe H1N1, febre amarela, dengue e, mais recentemente, Covid-19.

Além disso, o médico viveu grandes transformações da medicina ao longo de cinco décadas, como o surgimento dos exames de imagem mais modernos para o apoio diagnóstico, transplantes complexos, sequenciamento do genoma humano, vacinas de RNA mensageiro, Big Data e Inteligência Artificial (IA) aplicadas à área.

 

Em entrevista à CNN, entre todas as grandes experiências que viveu como médico, Uip afirma que considera sua ação no combate à Aids a mais importante, ao integrar o grupo que diagnosticou o primeiro caso de transmissão local da doença no Brasil.

"Fizemos o diagnóstico do primeiro caso autóctone no Brasil, ou seja, um brasileiro que pegou [a doença] de outro brasileiro, em 1982", relembra. "Havia um preconceito enorme e estigmas. Nós não sabíamos o que transmitia, quais eram as vias de transmissão. E isso lidando com a morte. Você fazia o diagnóstico de HIV e era uma sentença de morte. Isso durou muitos anos, até que nós alcançamos uma terapêutica forte", afirma.

Além disso, Uip se tornou um dos principais porta-vozes do enfrentamento da epidemia de Aids no Brasil e no exterior, tendo sido responsável pela elaboração de protocolos de atendimento a pacientes com HIV e prevenção para médicos, dentistas e outros profissionais de saúde do país.

Anos mais tarde, em meados da década de 1990, o então senador José Sarney, paciente e amigo de Uip, aprovou a lei que tornaria universal o tratamento de todos os pacientes soropositivos do país, por sugestão do infectologista. Essa política pública é até hoje considerada um exemplo de sucesso pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

"Isso mudou a vida com HIV. Primeiro, as pessoas passaram a viver mais e melhor. Depois, isso influiu decisivamente na transmissão, inclusive no corte da transmissão vertical de mãe para filho. Então, olhe a importância. Não temos vacinas, mas temos uma terapêutica muito efetiva", afirma Uip.

Em meio século, Uip se destacou como médico de celebridades e como gestor de importantes instituições de saúde brasileiras, como Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da FMUSP, Casa da Aids, Fundação Zerbini e Instituto de Infectologia Emílio Ribas, além de ter sido secretário de Estado da Saúde de São Paulo (2013 -2018) e secretário de Estado de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento de São Paulo (2022).

Em São Paulo, o infectologista fundou e dirigiu por oito anos a Casa da Aids do Hospital das Clínicas da FMUSP, serviço de referência até hoje em funcionamento na capital paulista. Foi, ainda, diretor técnico de Serviço da Divisão de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da HCFMUSP.

De 2002 a 2019, o especialista coordenou um trabalho de combate à Aids e outras epidemias em Angola, na África, com resultados expressivos, com a melhoria de diversos indicadores, tais como número de grávidas cobertas pelo pré-natal, de gestantes que passaram a realizar o teste de HIV e de grávidas soropositivas que ingressaram no tratamento antirretroviral, além da queda na transmissão vertical do HIV e da ampliação da cobertura do tratamento de crianças e adolescentes vivendo com HIV/Aids, dentre muitos outros.

Entre os anos de 2009 e 2013, o médico dirigiu o Instituto de Infectologia Emílio Ribas, maior centro de tratamento de doenças infecciosas da América Latina e até hoje referência no tratamento da Aids.

Protagonismo na pandemia de Covid-19

Em 2020, Uip enfrentou outro grande desafio em sua carreira: a pandemia de Covid-19. Na época, coordenou e integrou o Centro de Contingência contra a Covid-19 do Governo de São Paulo, órgão que subsidiou a tomada de decisões da administração pública estadual no enfrentamento da pandemia, bem como o desenvolvimento de protocolos para o manejo da doença.

O reconhecimento do trabalho do Centro de Contingência levou o governo estadual a criar a Secretaria de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde, que David Everson Uip coordenou por nove meses, em 2022, trabalhando em parceria com os integrantes do comitê para formular políticas públicas capazes de prever novas epidemias e pandemias, bem como estruturar seu enfrentamento com base nas melhores práticas.

Passada a pandemia, Uip considera que o combate à desinformação é um dos grandes desafios ainda existentes, principalmente em relação às fake news sobre vacinas. "É absolutamente inadmissível, sem sustentação científica, quem fala contra a vacina", afirma. "A vacina não é discutível, tem aparato científico e sustentação de que ela é inabalável (...). Vacina não é só um bem pessoal, é um bem social", afirma.

Atualmente, Uip comanda a reitoria do Centro Universitário FMABC, em Santo André, mesmo local onde se formou em medicina em meados da década de 1970. Na instituição, o médico também é professor titular de Infectologia. Além disso, atua como professor convidado do Grupo Educacional CEUMA, formado pela Universidade CEUMA (São Luís – MA), Centro Universitário UNIEURO (Brasília - DF), Centro Universitário UNIFAMAZ (Belém – PA) e Faculdade CEUPI (Teresina – PI).

Aos 73 anos de idade, David Uip mantém intensa atividade clínica, acadêmica e científica. Apesar de sua longa trajetória, não demonstra qualquer intenção de reduzir o ritmo.

"Eu fui convidado há um ano, um ano e meio, para dirigir a Infectologia da Rede D'Or do Brasil inteiro. São 80 hospitais. E eu falo que isso é um recado importante para as gerações que vêm depois de mim, além de ter sido muito importante para a minha geração. Eu fui convidado com 71 anos e o recado é que ainda é possível [nesta idade] começar com grande entusiasmo", finaliza.