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    Síndrome do coração partido: é possível morrer de amor?

    A condição é caracterizada por sintomas que se assemelham a um infarto e está relacionada a eventos estressantes, como término de relacionamento e morte de um familiar ou do cônjuge

    A síndrome do coração partido tem origem psicológica, mas pode afetar o fluxo sanguíneo, causando dor no peito e falta de ar
    A síndrome do coração partido tem origem psicológica, mas pode afetar o fluxo sanguíneo, causando dor no peito e falta de ar Jamie Grill/GettyImages

    Gabriela Maraccinida CNN

    Sofrer um grande estresse emocional — como um término ou a morte de um familiar — pode trazer consequências para a saúde do coração e, até mesmo, levar à morte. A condição conhecida como síndrome do coração partido é uma dessas complicações e é caracterizada por sintomas que se assemelham a um infarto.

    Também chamada de “cardiomiopatia induzida pelo estresse” ou “síndrome de Takotsubo“, a síndrome do coração partido ocorre quando os músculos do coração enfraquecem, causando dor no peito e falta de ar. Ela é desencadeada por eventos estressantes, ao invés da obstrução das artérias coronárias do coração. Por isso, não é considerada um infarto, apesar dos sintomas semelhantes.

    “Durante um episódio [de síndrome do coração partido], o ventrículo esquerdo do coração sofre uma paralisia no ápice e no centro, que o deixa sem força para desempenhar sua função adequada. Esse quadro é desencadeado pela exposição excessiva a hormônios do estresse, como a adrenalina, que são produzidos quando somos submetidos a fortes emoções”, explica o cardiologista Gabriel Gonzalo, do Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês (IRSSL).

    A síndrome do coração partido, geralmente, é considerada uma doença de origem psicológica, relacionada à liberação de altas taxas de hormônios na corrente sanguínea. Porém, ela pode ser identificada por meio de exames de imagem, que mostram que a musculatura dos ventrículos, especificamente o esquerdo, não se contrai corretamente, diminuindo o fluxo sanguíneo.

    Geralmente, os pacientes se recuperam em dias ou semanas, mas, em casos raros e não tratados adequadamente, podem levar ao óbito. Isso acontece devido a complicações decorrentes da síndrome, como arritmias cardíacas, formação de trombos intracavitários ou insuficiência cardíaca refratária.

    Quais são as causas da síndrome do coração partido?

    Segundo Jasvan Leite, cardiologista do Hcor, a síndrome pode ser causada por eventos estressantes e traumáticos, como morte inesperada de um ente querido, término de relacionamento, demissão do emprego, desastres naturais e, até mesmo, perda de bens materiais com valor emocional.

    “Esse tipo de situação provoca um aumento da produção de hormônios do estresse no organismo, que podem gerar contração de alguns vasos cardíacos, lesando o coração. Inclusive, estudos indicam que passar por situações estressantes, como essas, aumenta em duas vezes a chance de um infarto”, explica o especialista.

    A síndrome foi descoberta há cerca de 35 anos, mas vem se tornado mais comum nos últimos tempos, devido ao nível de estresse e sobrecarga emocional no estilo de vida moderno. “Essa doença tem origem psicológica, porém os danos causados ao coração são físicos e simulam um infarto do miocárdio”, acrescenta o cardiologista.

    Mulheres e idosos são os mais afetados

    Segundo Gonzalo, a síndrome é mais prevalente em mulheres e em idosos. No caso do público feminino, fatores hormonais podem estar relacionados. “Alterações hormonais, especialmente durante a menopausa, quando ocorre a diminuição da produção de estrogênio, um hormônio protetor do coração, podem contribuir para essa maior suscetibilidade. Além disso, as mulheres tendem a apresentar maior sensibilidade ao estresse físico e emocional”, explica o cardiologista.

    Já em idosos, estudos documentaram que existe um fenômeno chamado “efeito viuvez” que pode aumentar o risco da síndrome. De acordo com um estudo publicado em 2008, o risco de um idoso morrer por qualquer causa aumenta entre 30% e 90% nos primeiros três meses após a morte do cônjuge e cai para cerca de 15% nos meses seguintes.

    Além disso, pesquisadores mostraram que a viuvez afeta a saúde dos idosos de maneira não uniforme. Quando um parceiro morreu de morte súbita, por exemplo, o risco de morte do cônjuge sobrevivente aumentou, segundo um trabalho realizado pelos pesquisadores Nicholas Christakis, que dirige o Laboratório da Natureza Humana na Universidade de Yale, e Felix Elwert, professor de sociologia da Universidade de Wisconsin.

    Já quando o cônjuge morreu de Alzheimer ou Parkinson, os pesquisadores observaram que não houve impacto na saúde do parceiro sobrevivente. Na hipótese dos pesquisadores, isso aconteceu, possivelmente, porque ele teve tempo adequado para se preparar para perder o cônjuge.

    Como a síndrome do coração partido é tratada?

    O tratamento da síndrome do coração partido é feita a depender da gravidade dos sintomas. Segundo Gonzalo, podem ser receitados medicamentos como diuréticos, betabloqueadores e inibidores da enzima conservadora de angiotensina (IECA), além de vasodilatadores para enfrentar o mecanismo que causou o problema.

    Além disso, a síndrome pode causar um grande impacto emocional, levando a sintomas de tristeza profunda, ansiedade e depressão. Por isso, em alguns casos, podem ser incluídos no tratamento medicamentos antidepressivos e ansiolíticos.

    É possível prevenir a síndrome?

    De acordo com o cardiologista, não existe uma forma eficaz de prevenção total da síndrome do coração partido. Porém, a adoção de hábitos saudáveis pode contribuir para melhorar a saúde cardíaca. “Devemos manter um estilo de vida mais saudável, tanto física quanto emocionalmente, buscando atividades que aliviem nossa tensão e promovam o autocontrole, como prática de esportes ou exercícios de relaxamento”, finaliza.

    “Aqueles em situação de estresse emocional muito grande também precisam de uma rede de apoio forte, que ajudem na superação do trauma. É imprescindível, assim que possível, fazer exames específicos que possam avaliar a capacidade cardíaca do indivíduo. Não fumar e não consumir bebidas alcoólicas são outros indicadores que ajudam a prevenir patologias no coração”, acrescenta Leite.

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