Canjica ou curau? Veja por que os pratos juninos têm nomes diferentes pelo país

Especialista explica como surgiu a diferença das nomenclaturas das comidas típicas, enquanto chef Carmem Virginia conta as diferenças nas preparações dos pratos

Canjica em São Paulo e mungunzá no Nordeste, mas uma delícia em todos os lugares
Canjica em São Paulo e mungunzá no Nordeste, mas uma delícia em todos os lugares Eduardo Parra/Europa Press via Getty Images

Gabriela Pivado Viagem & Gastronomia

As festa juninas e julinas são um acontecimento de sul a norte do Brasil, mas isso não quer dizer que as mesmas comidas têm nomes iguais — e nem que levam os mesmíssimos ingredientes.

Um exemplo é que o doce curau, como é conhecido em São Paulo, é conhecido como canjica em Pernambuco; e a canjica de São Paulo é o munguzá-doce de Pernambuco.

A CNN conversou com Fabiane Altino, professora Associada do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), para entender o que faz com que as mesmas comidas recebam um nome em cada região do Brasil.

De acordo com Altino, as palavras refletem “de maneira muito particular” a história de quem as usam. “Quando analisamos o vocabulário regional, por exemplo, estamos fazendo também uma retomada dos fatos que colaboraram para a formação daquele povo: migração, cultura, sua maneira de ver e representar o mundo e suas ligações”, explica.

Os nomes de pratos típicos surgiram a partir da influência de outras línguas. O termo curau, ainda segundo a professora, intriga pesquisadores. Afinal, a origem da palavra não foi encontrada, mas trata do doce feito com milho-verde ralado e leite, podendo ser com ou sem coco. “Este termo curau é registrado mais comumente nas Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul”, explica.

A palavra canjica, no entanto, é originada do quimbundo, uma língua falada em Angola. Dessa forma, o uso deste termo reflete a influência maior do continente africano nas Regiões Norte e Nordeste do Brasil.

“Canjica, do quimbundo Kanjika e referente ao mesmo doce, tem maior produtividade nas Regiões Norte e Nordeste”, completa.

As palavras refletem a história social da região, segundo Altino. “Quando usamos a língua, usamos também o que conhecemos do mundo, nossas escolhas, nossa cultura e, tudo isso, reflete um pouco do que somos”, finaliza.

As diferenças nos nomes alteram os pratos?

A chef Carmem Virginia, do restaurante Altar Cozinha Ancestral, que foi declarado Patrimônio Cultural e Gastronômico do Recife, afirma que, no geral, não há diferença na preparação dos pratos — mesmo tendo nomes distintos. 

Mesmo assim, ela garantiu que a maior diferença é que a canjica sempre é feita com milho branco. “A canjica, que para nós nordestinos é munguzá, no Sul e no Sudeste tem uma tradição de ser feita mais com milho branco, mas, para nós, é feito com milho amarelo”, explica.

A chef Irina Cordeiro, ex-participante do MasterChef Profissionais e responsável pelo restaurante Cuscuz da Irina, também lembra que o munguzá costuma ser doce no Sul e Sudeste, mas é um prato salgado em algumas regiões do Nordeste. “Principalmente nas áreas interioranas e no sertão, ele é feito salgado. É como fazemos uma feijoada: colocamos vários pedaços de porco, carne seca, e a gente come ele em um prato salgado”, diz.

Ela também afirma que a preparação do munguzá (ou canjica), em regiões do Nordeste, segue a tradição da festa junina portuguesa. “Nosso munguzá, que o Sudeste chama de canjica, é feito com muitos miúdos, como os portugueses costumavam comer”, finaliza.

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