Como Tóquio virou símbolo de bananas mesmo sem produzir a fruta
Centenas de milhares de bolinhos em formato de banana recheados com creme são vendidos em estações de transporte e áreas turísticas da capital japonesa

Você não consegue passar por Tóquio sem cruzar com elas: as caixinhas amarelo-claro, com fitas douradas e recheadas de pequenos bolinhos embalados individualmente, que estampam imagens dos pontos turísticos mais famosos da capital japonesa — e, às vezes, até personagens de animações icônicas do país.
Todos os anos, centenas de milhares desses pacotes da Tokyo Banana são vendidos em estações de transporte e áreas turísticas, promovidos como o petisco oficial da cidade. Mas o que essa guloseima tem a ver com Tóquio, uma cidade onde não há sequer um pé de banana?
Diferente de muitos doces japoneses, produzidos com ingredientes típicos de determinadas regiões e ligados a tradições seculares — como o udon, o chá-verde ou os doces de yuzu —, a Tokyo Banana nasceu puramente do capitalismo.
No século 20, à medida que Tóquio se consolidava como a maior cidade do mundo e se abria para o turismo internacional, ainda não tinha tradições gastronômicas próprias para chamar de suas. Não havia um produto único, com séculos de história, que representasse a capital.
Basta comparar com Kyoto, capital japonesa do século VIII ao XIX: lá, um restaurante serve soba feito com trigo-sarraceno local desde 1702. E o país ainda abriga o hotel mais antigo do mundo, um ryokan com águas termais que recebe hóspedes desde o ano 705.
Percebendo essa lacuna, a fabricante de doces Grapestone decidiu criar um produto “com a cara de Tóquio” que pudesse ser vendido como especialidade local.
“Tóquio é o lugar onde pessoas de todo o Japão se encontram e acabam criando novas raízes”, disse um porta-voz da Grapestone à CNN internacional.
“Queríamos inventar uma lembrança que fosse familiar e nostálgica para todos os japoneses. Para os mais velhos, a banana remete a produtos de luxo ou importados; para os mais jovens, lembra passeios escolares e memórias divertidas.”
Assim nasceram os bolinhos em formato de banana, macios por fora e recheados com creme de sabor de banana. Ou, como define a guia turística Katie Thompson, “um Twinkie chique”.
A cultura do presente
A Tokyo Banana é um exemplo perfeito do omiyage, tradição japonesa em que viajantes levam presentes — geralmente comestíveis — para familiares, amigos e colegas.
Diferente do Ocidente, onde é comum trazer camisetas ou ímãs de geladeira, o omiyage costuma ser algo que se come ou bebe e deve ser consumido pouco depois da viagem. Por isso, normalmente são produtos exclusivos de uma região ou conhecidos pela qualidade local, como o sal das ensolaradas ilhas de Okinawa, o matcha tradicional de Kyoto ou doces de maçã da província de Aomori, no norte do Japão.
Apesar dessa tradição, a Tokyo Banana foi pensada principalmente para turistas estrangeiros. Segundo a Grapestone, a ideia surgiu nos anos 1990, quando a empresa recebeu a proposta de vender no aeroporto de Haneda. O nome em inglês e o apelo visual ligado a Tóquio ajudaram a reforçar a associação com a cidade.
Para o canadense Jeff Lui, que vive no Japão, o marketing é brilhante: “Você quase se sente obrigado a levar esse omiyage para os amigos em casa. É como dizer: ‘Pensei em você enquanto estava lá e trouxe algo que sei que vai gostar’.”
Fama nas redes
No TikTok, visitantes estrangeiros correm para comprar a guloseima ao chegar em Tóquio. Alguns exibem sabores raros que encontraram, outros dão dicas sobre quais levar para a família. E, como o Twinkie americano, são tão divertidos de amassar quanto de comer.
O criador de conteúdo Eat With Adrian, por exemplo, teve mais de 260 mil visualizações em um vídeo provando a Tokyo Banana, com comentários de pessoas dizendo que querem experimentar.
A guia Katie Thompson, no entanto, não é fã: “Acho o recheio artificial demais. Banana não combina muito bem com creme doce ou balas.”
Ela conta que amigos e familiares nos EUA já perguntaram, mas prefere levar outro doce, o sugar butter sand tree — um biscoito também da Grapestone. Lui pensa parecido: não costuma comer nem comprar, mas diz que visitantes de Toronto sempre pedem ou levam caixas para casa.
Reinvenção constante
Para conquistar consumidores locais, a marca lança periodicamente novos sabores, como limão, sakura e mel, alguns vendidos apenas em lojas específicas, como a de Ginza. Já fez parcerias com personagens como Pikachu, Chiikawa, Hello Kitty e Doraemon, e até criou um Kit Kat sabor Tokyo Banana.
Em 2022, inaugurou sua loja principal na estação de Tóquio e, para marcar a ocasião, lançou uma versão salgada: um pão recheado com carne de porco e boi cozida com cebolas, creme de leite e purê de banana.
A Grapestone não revela o volume de vendas anual, mas afirma que a Tokyo Banana é o souvenir gastronômico mais popular da capital. Segundo o site da marca, se todos os bolinhos vendidos em um ano fossem colocados em fila, dariam para atravessar o Oceano Pacífico de Tóquio aos Estados Unidos.
Na prática, é claro, a viagem deles acontece pelo ar.



