Conheça o ube, ingrediente que viralizou nos Estados Unidos
De cor roxa e sabor que lembra nozes ou baunilha, o alimento das Filipinas movimenta milhões pelo mundo, mas tem causado tensões no país de origem

Em dezembro passado, a Pantone coroou o "Cloud Dancer", um tom volumoso de branco, como a Cor do Ano para 2026. Apenas alguns meses depois, evidências sugerem que os especialistas em cores podem ter feito essa escolha um pouco cedo demais.
De cafeterias em Nova York a padarias em Sydney e lojas de cosméticos em Londres, um reinado roxo está se enraizando em todo o mundo. Variando do violeta vívido ao lavanda claro, o tom exato muda, mas pode ser rastreado até as Filipinas.
Mais especificamente, para logo abaixo da superfície do arquipélago, onde há uma espécie nativa de inhame. É um tubérculo rico em amido com muitos nomes — dioscorea alata, uwhi, Guyana arrowroot — mas é mais conhecido localmente, e cada vez mais internacionalmente, como ube.
Palavra que significa "tubérculo" em tagalo, uma língua falada nas Filipinas, o ube está se tornando uma exportação filipina cada vez mais lucrativa, à medida que o resto do mundo busca saciar seu apetite pelo ingrediente roxo terroso com sabor que lembra nozes ou baunilha. Em 2024, o ube foi eleito o "Sabor do Ano" no Relatório de Tendências de Sabores de Alimentos e Bebidas, um levantamento anual da empresa T. Hasegawa USA, sediada na Califórnia.
Quase 1,7 milhão de quilos de produtos de ube, avaliados em mais de US$ 3,2 milhões (cerca de R$ 16,7 milhões), foram exportados pelo país do Sudeste Asiático no ano passado, de acordo com dados compartilhados com a CNN pelo Departamento de Comércio e Indústria (DTI) das Filipinas, um aumento de 20,4% em relação a 2024.
Quase metade dessas exportações de ube, aproximadamente 956 mil quilos no valor de US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 7,8 milhões), foi para os Estados Unidos. Isso é o dobro do volume que os Estados Unidos importaram no ano anterior, superando os cinco maiores mercados seguintes — Canadá, Austrália, Reino Unido, Holanda e Nova Zelândia — combinados.
Ingrediente superpopular
Basta olhar para o Starbucks, que, no início do mês, lançou um macchiato gelado de ube com coco em suas lojas nos Estados Unidos como uma adição "da moda" ao seu menu de primavera.
Citando sua popularidade no ano passado entre os clientes das lojas Reserve da rede, onde são servidas bebidas exclusivas em ambientes conceituais, o Starbucks adicionou ainda mais produtos de ube na Europa, incorporando-o tanto em lattes gelados quanto em tradicionais de baunilha.
Algumas variações são infundidas com matchá, o chá verde japonês em pó que conquistou o mundo na última década, protagonizando quase 700 mil vídeos no TikTok (também conhecido como MatchaTok) até setembro passado.
Como esperado, vídeos de usuários experimentando as bebidas de ube recém-lançadas, que também foram introduzidas este mês pela rede de cafeterias britânica Costa, já estão se espalhando pela plataforma.
Os paralelos entre dois produtos particularmente pitorescos se tornando sucessos virais não são coincidência para Bettina Makalintal, repórter sênior do site Eater.
"É aquele impacto visual imediato", disse Makalintal à CNN, que nasceu nas Filipinas antes de se mudar para os Estados Unidos aos cinco anos de idade.
"Mesmo que haja algo muito familiar e simples, se a cor for diferente ou empolgante — como o bagel arco-íris, como a tigela de açaí, como morangos mais pálidos que um morango comum, como o matchá — isso ajuda a trazer esse apelo."
"O ube parecia um candidato óbvio baseado em ambos, 'aqui está um novo sabor que não é muito desafiador para as pessoas, mas também se encaixa nesse desejo de ter comida esteticamente agradável.'"
Além das bebidas
As bebidas são apenas um ramo da cadeia de suprimentos do ube. Quando é amassado e fervido com leite, açúcar e manteiga, forma-se uma pasta espessa chamada ube halaya, também conhecida como halayang ube.
Embora seja uma sobremesa independente, a geleia também é usada como cobertura, recheio ou base em uma variedade de sobremesas. Kora, uma padaria pop-up filipina em Nova York, acumulou uma lista de espera de 10 mil pessoas em 2021 devido, em parte, à popularidade esmagadora de seu donut brioche de ube. Uma loja permanente foi aberta no Queens em março passado.
Cheesecake, pudim e sorvete também apresentam variações inspiradas no ube em todo o mundo, enquanto a mistura para panquecas e waffles de mochi de ube do Trader Joe's tem se mostrado um sucesso absoluto. Desde 2020, o produto é lançado por tempo limitado anualmente.
Até o mundo da beleza está aproveitando a tendência: a marca de cosméticos Huda Beauty lançou uma coleção global de produtos inspirados no ube, incluindo pó fixador e gloss labial, em janeiro de 2025.
"Hoje ele [o ube] está em toda parte", disse o representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) nas Filipinas, Lionel Dabbadie, em um discurso na Conferência Internacional de Turismo Rural na cidade filipina de Baguio no início deste mês.
"Sorvete de ube em Nova York, bolos de ube em Londres, lattes de ube em Tóquio. É uma história de sucesso incrível."

Demanda mundial cria tensão
No entanto, esse sucesso está exercendo uma enorme pressão sobre aqueles encarregados de garantir que o fornecimento possa acompanhar a demanda mundial crescente pelo inhame roxo.
A produção anual de ube nas Filipinas caiu de mais de 15 milhões de quilos em 2021 para aproximadamente 14 milhões de quilos nos últimos dois anos, segundo o New York Times, com a maior parte dessa produção sendo reservada para consumo nacional. Nos últimos anos, Vietnã e China aceleraram sua produção de inhames roxos, acrescentou o New York Times.
Diferentemente do arroz, milho e outras culturas produzidas em massa, o ube é tipicamente cultivado em pequenas áreas sazonais de terra agrícola. Com muitas parcelas espalhadas pela região de Visayas Central, o tubérculo requer umidade abundante durante todo seu período de crescimento antes de ser colhido aproximadamente 10 a 11 meses após o plantio, entre novembro e fevereiro.
Isso a torna especialmente vulnerável a mudanças climáticas e variações nas condições de cultivo, um cenário pouco favorável em um país que vem enfrentando eventos climáticos extremos com frequência crescente.
Em novembro passado, o Tufão Fung-wong foi a 21ª tempestade nomeada no ano a afetar as Filipinas, à medida que a crise climática continua a afetar desproporcionalmente o Sul Global.
Além disso, muitos agricultores estão buscando lucrar com o atual interesse global no ube vendendo o máximo possível de sua colheita enquanto os preços estão mais altos, segundo relata um documento da empresa multinacional britânica de pesquisa BMI.
Como o ube é normalmente cultivado a partir de partes do próprio tubérculo enterradas no solo, a redução desse material disponível para novos plantios vem agravando os problemas de abastecimento, aponta o relatório.
Todos esses fatores contribuem para a crescente dificuldade de Makalintal e das comunidades filipino-americanas mais amplas, como aquelas no enclave "Little Manila", no Queens, de encontrar ube autêntico.
"Muitas pessoas com quem conversei, a maioria dos filipinos que conheço, não conseguem realmente obter o vegetal-raiz verdadeiro", disse Makalintal, que vive em Nova York. "A demanda cresceu, mas a disponibilidade e o mercado de importação não necessariamente acompanharam."
Raízes do ube
Além da logística, há uma preocupação crescente levantada pela adoção global do ube: a de que um querido alimento básico nacional está se desconectando de suas raízes culturais.
Gerações de filipinos têm brindado os dias quentes de verão e ocasiões festivas com um alto copo de halo-halo, uma icônica sobremesa de gelo raspado onde o ube halaya é destaque em meio a uma miscelânea de coberturas coloridas, desde jaca cristalizada e feijões adoçados até pérolas de tapioca.
O ingrediente frequentemente serve como elemento central de outros pratos nacionais, como o "champorado", um mingau de arroz doce, e o "mamón", um bolo esponja, mas alguns temem que sua importância esteja sendo diluída ao chegar em terras estrangeiras.
"Não pude acreditar quando li que poucas pessoas sabem que o ube vem das Filipinas", continuou Dabbadie em seu discurso na conferência.
Para Makalintal, isso cria uma “preocupante” profecia autorrealizável: a falta de conhecimento sobre a cultura filipina, somada aos problemas de oferta, faz com que muitos estabelecimentos substituam o ube verdadeiro por extratos, batata-doce ou até dispensem o ingrediente, usando apenas corantes roxos para surfar na tendência.
É uma questão agravada pelo sabor inerentemente discreto do ube. Quando reduzido a um extrato, ou misturado com sabores dominantes como coco, muitas pessoas que experimentam a infinidade de produtos comercializados como sabor ube estão provando apenas um traço, ou nada, de um ingrediente pelo qual Makalintal e incontáveis outros se sentem apaixonadamente protetores.
"Todo mundo está consumindo ube agora, mas muita gente nem sabe qual é de fato o seu sabor. O ingrediente acabou sendo reduzido a algo que é apenas roxo", disse ela.
“O mais difícil é ver um elemento da sua cultura chegar ao mainstream e, de certa forma, perder o controle sobre como ele é retratado. Esse é o preço da visibilidade.”



