Conheça restaurante de luxo que autoridades chinesas não podem frequentar
King's Joy, em Pequim, é o único restaurante chinês com três estrelas Michelin e estrela verde, mas funcionários públicos chineses estão banidos do local

Como um refúgio secreto que era reservado aos antigos imperadores da China, além dos homens de preto que guardam a entrada em frente ao histórico Templo Lama de Pequim, um estreito caminho de pedra leva silenciosamente a um pátio.
Uma névoa suave percorre o caminho. Ao seu final, uma mulher envolta em uma capa simples sobre um vestido tradicional chinês aguarda ao lado de uma parede caiada que protege o pátio das ruas movimentadas da velha Pequim. Com um gesto gentil, ela convida os clientes a entrarem no restaurante.
Não é o tipo de restaurante ao qual se vai todos os dias. É um lugar reservado para ocasiões especiais: pedidos de casamento, aniversários ou recepções.
No entanto, há um tipo de cliente que não pode desfrutar do elegante estabelecimento, nem mesmo em ocasiões especiais, mesmo que esteja pagando pela refeição: funcionários públicos chineses.
Por determinação do governo, funcionários estão proibidos de comer no restaurante desde o ano passado, disse à CNN uma fonte chinesa familiarizada com o assunto.
O local se chama King's Joy. A combinação dos caracteres em chinês remete ao rico patrimônio cultural de Pequim, capital de quatro dinastias imperiais. As reservas aqui tornaram-se muito disputadas, com chineses ricos e famosos competindo com visitantes estrangeiros por mesas. Cada vez mais, a crescente classe média chinesa também tenta garantir seu lugar.
King's Joy é famoso por seu cardápio inteiramente vegetariano, elaborado com ingredientes provenientes exclusivamente da China. Os pratos são preparados com técnicas culinárias simples e apresentados com elegância em um ambiente clássico para criar um ambiente zen.
No interior, um piso de mármore preto polido se estende pelo centro do salão como um lago profundo. As mesas são dispostas ao seu redor e um harpista se apresenta ao centro. Durante o dia, as mudanças de estação e a luz mutável do pátio do restaurante são visíveis pelas janelas. Quando a noite cai, o interior é iluminado por lustres de seda com brilho suave e pela luz das velas.
Dizer que o King's Joy é um sucesso é um eufemismo. É o único restaurante chinês no mundo a ter conquistado três estrelas Michelin e a estrela verde do guia por práticas sustentáveis. Foi chamado de "o padrão mundial da gastronomia vegetariana" pela lista do The World’s 50 Best Restaurants. Seu modelo operacional foi transformado em estudo de caso na Harvard Business School em 2019.
Parece contraditório que autoridades não possam jantar em um restaurante tão renomado, especialmente um que tem sido bem-sucedido na promoção da culinária chinesa em um momento em que Pequim está empenhada em projetar seu soft power no exterior.

Desde o ano passado, o King's Joy é um dos vários estabelecimentos em Pequim que os funcionários não têm permissão de frequentar, de acordo com uma fonte chinesa. A lista não é pública. Não há explicação oficial para a proibição.
Uma possível razão pode ser o preço: uma refeição no King's Joy começa em US$ 250 (cerca de R$ 1.285) por pessoa, o que o coloca em conflito com a incansável campanha anticorrupção do líder chinês Xi Jinping.
Xi fez dos banquetes luxuosos e do consumo excessivo de bebidas alcoólicas um dos principais alvos de sua longa guerra contra a corrupção, afirmando que tais práticas podem levar à decadência moral dentro do Partido Comunista.
O salário mensal médio dos funcionários públicos em Pequim é de cerca de US$ 1.600 (aproximadamente R$ 8.229), segundo dados do Departamento Nacional de Estatísticas da China de 2025. Essa renda relativamente modesta seria incompatível com visitas a locais de alto padrão e poderia dar a impressão de que recursos públicos estavam sendo mal utilizados, ou de que funcionários haviam recebido ou estavam praticando suborno.
A proibição provavelmente não é uma surpresa para aqueles que ela afeta. Inúmeros clubes privados luxuosos foram obrigados a fechar em 2014, quando Pequim intensificou sua campanha anticorrupção para conter o estilo de vida outrora extravagante dos funcionários.
Xi é conhecido por preferir refeições simples e caseiras em suas viagens pela China. Em 2013, ele foi fotografado fazendo fila para pegar uma bandeja de pãezinhos no vapor em um restaurante de beira de uma estrada em Pequim, uma imagem cuidadosamente elaborada para demonstrar sua proximidade com o povo comum.
Gary Yin, o chef executivo do King's Joy, disse à CNN que ouviu rumores sobre a proibição, mas que não observou nenhuma evidência disso por conta própria.
Um restaurante e uma atração turística

O King's Joy está localizado no antigo centro imperial de Pequim, a cerca de 6 km da Cidade Proibida. Também fica a apenas algumas estações de metrô de vários ministérios do governo central e embaixadas estrangeiras.
Embora pessoas ao redor do mundo adotem dietas vegetarianas por diversas razões, o vegetarianismo tem uma história longa e interessante na China. Por séculos, ele esteve associado à prática budista e a um modo de vida frugal.
Mas a habilidade do chef Yin de pegar pratos simples e humildes e transformá-los em uma experiência luxuosa lhe rendeu muitos fãs. "Escolhemos investir na alta gastronomia porque Pequim é uma cidade muito influente, cultural, política e historicamente", disse Yin.

"Estar localizado no antigo coração imperial da capital também nos dá a oportunidade de influenciar pessoas influentes e incentivá-las a falar em defesa do vegetarianismo e da alimentação sustentável", acrescentou.
"Se funcionários do governo reconhecerem e apoiarem essas ideias, isso poderia ajudar a avançar legislações em áreas como bem-estar animal, promoção de vegetais e apoio a práticas agrícolas mais limpas e orgânicas."
O pai de Yin, David Yin, foi um defensor do vegetarianismo por toda a vida. Ele fundou o King's Joy em 2010 e o nomeou em homenagem a um restaurante que sua família costumava administrar em Taipei.
Originários de Pequim, os Yin se mudaram para Taiwan em 1966, abrindo um restaurante famoso por servir doces de estilo imperial. Seu pudim de ervilha era considerado um favorito da Imperatriz Viúva Cixi no final da dinastia Qing.
A família Yin se mudou posteriormente para o Canadá em 1995, retornando a Pequim 15 anos depois para abrir o restaurante próximo ao Templo Lama.
Atualmente, Gary é o responsável pelo restaurante, enquanto sua irmã Mia é a chef de confeitaria.
Desde que abriu suas portas em 2012, o King's Joy tornou-se referência em alta gastronomia vegetariana na China, sendo frequentado por muitas celebridades, de Rupert Murdoch a Ashin, vocalista da banda taiwanesa Mayday. Figuras estrangeiras de destaque, como o presidente italiano Sergio Mattarella e o primeiro-ministro espanhol Pedro Sanchez, já jantaram lá durante visitas de Estado.

Bernhard Schwartländer, ex-diretor-geral assistente da Organização Mundial da Saúde e seu representante na China, disse à CNN que esteve no King's Joy várias vezes. "Eles dominaram a arte de preparar alimentos sem carne ou peixe. É uma combinação de leveza, frescor e muito, muito, muito sabor", disse ele. "O próprio restaurante, claro, é um oásis de beleza. O serviço é excepcional."
O King's Joy também se tornou um marco cultural único para muitos turistas ocidentais que visitam a China pela primeira vez. Embora sejam inegavelmente atraídos pela fama do restaurante, o cardápio vegetariano também será visto como tranquilizador por alguns visitantes estrangeiros preocupados com a segurança alimentar e estilos culinários desconhecidos.
Segundo Yin, a grande maioria dos clientes do King's Joy não é vegetariana.
O restaurante serve um menu fixo com pratos individuais, em vez das grandes travessas compartilhadas que podem ser comuns em outras partes da China. Os cardápios estão disponíveis em chinês e inglês, e a maioria dos funcionários fala ambos os idiomas com fluência.
Um conceito gastronômico "radical"

O King's Joy tem um cardápio sazonal que muda a cada duas semanas. Na China, isso não significa apenas primavera, verão, outono e inverno: o ano é dividido em 24 períodos solares com nomes poéticos como "água da chuva" e "orvalho branco".
Dependendo da época da visita, os clientes podem experimentar seda de arroz da Manchúria com trufa negra e bulbos de lírio, sopa feita com medula de bambu ou pudim de leite com osmanthus. Ingredientes chineses menos conhecidos, como a fruta gorgon — uma semente redonda e marrom-avermelhada — também aparecem no cardápio. O restaurante ainda oferece harmonizações com bebidas fermentadas artesanais, além de chá ou vinho.
Yin não acredita que a comida vegetariana deva ser tratada como algo secundário na China.
"Já existe uma base tão profunda de técnicas culinárias, desenvolvimento de sabores e sofisticação gastronômica", diz ele. "E, ainda assim, muitos restaurantes não tratam os vegetais como o verdadeiro protagonista de um prato. É uma pena."
"Em vez disso, países como Tailândia, Índia e até muitos países ocidentais, cujas culinárias são tradicionalmente muito menos centradas em vegetais, desenvolveram culturas gastronômicas vegetarianas vibrantes. Em um país como a China, poder desfrutar de uma culinária vegetariana verdadeiramente deliciosa deveria ser algo natural e esperado."
O que mudou não foi a existência da comida vegetariana na China, mas sim o fato dela poder ser sofisticada e cara.
Atualmente, cerca de 4% da população chinesa se identifica como vegetariana, de acordo com um estudo da mídia estatal de 2024. As Diretrizes Alimentares Chinesas, um conjunto oficial de sugestões sobre nutrição e alimentação saudável, passaram a incluir orientações para vegetarianos em 2016.
Fuchsia Dunlop, autora e chef britânica especializada em culinária chinesa, afirmou que apresentar comida vegetariana para o público geral, em vez de para budistas, ainda era uma atitude radical na China.
"A outra coisa radical é que são muito caros", afirmou. "É muito radical pedir que as pessoas paguem muito dinheiro por ingredientes vegetais."
"E acho que o que está acontecendo agora é que as pessoas estão interessadas na comida vegetariana como uma escolha de estilo de vida, não religiosa. Isso dá uma espécie de liberdade para a comida vegetariana."



