Guest bartending: entre a vitrine profissional e a perda de seu propósito

Prática acontece quando um bartender convidado assume o bar por algumas horas e apresenta uma seleção de coquetéis que representam o seu trabalho

Márcio Silva, colaboração para o Viagem & Gastronomia
Compartilhar matéria

Por anos, o universo dos bares de coquetelaria mundial, impulsionado por competições de bartenders, rankings internacionais, busca por relevância e por estratégias cada vez mais sofisticadas de marketing e relações públicas, consolidou um formato de evento que hoje virou quase um padrão: o guest bartending.

Mas afinal, o que é isso que vem acontecendo com tanta frequência ao redor do mundo? Na prática, é simples. Um bartender convidado assume o bar por algumas horas e apresenta uma seleção de coquetéis que representam o seu trabalho, muitas vezes com o apoio de marcas do setor.

Porém, se fizermos uma leitura honesta do momento em que vivemos, isso já não explica tudo. O guest bartending deixou de ser apenas um simples evento. Ele se transformou em um dos pilares da cultura contemporânea dos bares, e ao mesmo tempo, em um dos seus maiores dilemas.

Esse tipo de evento vai muito além do balcão, já que o guest bartending de hoje opera em múltiplas camadas. Ele é, antes de tudo, uma celebração de um grande intercâmbio cultural. É quando técnicas viajam, ingredientes cruzam fronteiras e diferentes formas de hospitalidade se encontram.

É também uma poderosa ferramenta de mercado, na qual marcas e bares constroem presença narrativa e relevância em novos territórios. E é, inevitavelmente, uma plataforma de carreira profissional, na qual bartenders consolidam reputação, ampliam suas conexões, validam seu trabalho e expandem sua rede global.

Esse sistema cria uma engrenagem gigantesca para gerar novos negócios, em que visibilidade, influência e relevância circulam com velocidade inédita. Mas, como toda engrenagem que acelera demais, em alguns momentos começa a apresentar sinais de desgaste.

Em algumas das principais cidades de coquetelaria do mundo, o volume de guest bartending já começa a atingir um ponto de saturação, seja pela alta frequência de eventos simultâneos, seja pela repetição de nomes, o que faz com que as experiências se confundam e, aos poucos, percam seu propósito.

Enquanto a indústria se observa e se valida, o cliente — aquele que realmente importa para o bar — muitas vezes não entende o que está acontecendo e se sente excluído, em alguns momentos, sem saber que há um bartender convidado trabalhando. Ou até sabe, mas não entende e nem se conecta ao que está sendo apresentado. Pois existe um padrão recorrente nestes eventos atuais: a tentativa de impressionar por meio da complexidade.

Durante alguns anos, a apresentação de coquetéis tecnicamente elaborados, com perfis sensoriais difíceis de decodificar, foi considerada como sinal de avanço. Hoje, muitas vezes, isso começa a soar como ruído.

O consumidor mudou. Ele já tem repertório e vivência. Não busca mais apenas técnica, busca clareza em sua experiência. Busca sentir que aquele momento foi pensado para ele, e não para impressionar a indústria.

É neste momento que o grande desafio do bartender contemporâneo convidado não é apenas técnico. É interpretativo. É entender o contexto. Cada cidade tem seu próprio ritmo. Cada público tem um repertório. Cada bar tem uma energia própria. E é nesse espaço que o bartender convidado precisa operar. Adaptar-se não significa diluir identidade; significa traduzir. Significa manter a essência, mas ajustar a linguagem.

Porque, na minha opinião, um grande guest bartending bem apresentado não é aquele que replica fielmente 100% seu bar de origem. E sim, aquele que consegue fazer sentido no lugar onde acontece.

O guest bartending continua sendo uma das ferramentas mais potentes da coquetelaria mundial. Mas ele está em transição. Entre o excesso e o propósito. Entre o desempenho e a experiência. Entre o ego e a hospitalidade.

E, talvez, o caminho seja mais simples do que parece. Menos sobre provar o quanto sabemos fazer. Mais sobre saber ler o ambiente, as pessoas e o momento. No fim, o bar continua sendo o mesmo lugar de sempre, um espaço de encontro, onde as pessoas querem se sentir bem, acolhidas e, acima de tudo, felizes.

E nenhum formato de evento, por mais global, sofisticado ou relevante que seja, pode perder isso de vista.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Márcio Silva

Premiado bartender, mentor e empresário da indústria de bares, Márcio Silva é sócio-proprietário do Exímia Bar, no 61º lugar no The World's 50 Best Bars 2025, ao lado da chef Manu Buffara e dos irmãos Nic e Gabriel Fullen, do Grupo Locale. Márcio integra há sete anos consecutivos a lista das 100 pessoas mais influentes da indústria global de bares, publicada pela Drinks International – Bar World 100. Também é reconhecido como líder na cultura mundial de bares pelo Spirited Awards – Tales of the Cocktail, dos EUA, e detém o título de Melhor Profissional de Bar Mundial pelo "Premios Excelencias – Fitur" (Feira Internacional de Turismo), da Espanha. Aprendeu o ofício na Europa, onde trabalhou com importantes nomes da mixologia. De volta ao Brasil em 2009, foi consultor responsável pela abertura do SubAstor e, em 2019, tornou-se o primeiro brasileiro a liderar um bar do país na lista do The World’s 50 Best Bars, feito obtido com o Guilhotina.

Acompanhe Gastronomia nas Redes Sociais