Morre Carlo Petrini, homem que revolucionou a gastronomia com o Slow Food

Fundador do movimento Slow Food, Petrini transformou a comida em debate cultural, político e ambiental

Tina Bini, do Viagem & Gastronomia
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O mundo da gastronomia perdeu nesta sexta-feira (22) uma de suas vozes mais influentes: o italiano Carlo Petrini, criador do movimento Slow Food e um dos principais responsáveis por mudar a forma como o planeta passou a discutir comida, agricultura e sustentabilidade nas últimas décadas.

Aos 76 anos, Petrini morreu em Bra, pequena cidade na região do Piemonte, no norte da Itália, onde nasceu e também deu início, nos anos 1980, a uma revolução silenciosa contra a industrialização da alimentação. Nos últimos anos, foi diagnosticado com um câncer de próstata.

Muito antes de temas como rastreabilidade, biodiversidade, valorização de pequenos produtores e sazonalidade se tornarem parte do vocabulário da alta gastronomia, Petrini já defendia que comer era um ato cultural, ambiental e político. Seu discurso ajudou a redefinir o papel da gastronomia contemporânea, influenciando chefs, agricultores, universidades e políticas públicas ao redor do mundo.

O movimento Slow Food nasceu oficialmente em 1986 como resposta à inauguração de uma unidade do McDonald's próxima à Piazza di Spagna, em Roma. A provocação era clara: resistir ao avanço da cultura do fast food e defender tradições culinárias locais ameaçadas pela padronização global.

O símbolo escolhido para o movimento foi um caracol. Não por acaso, já que a ideia era desacelerar. Comer com tempo. Valorizar ingredientes locais, técnicas ancestrais e produtores artesanais. Sob o lema “bom, limpo e justo”, o Slow Food se expandiu para mais de 160 países e se tornou uma das organizações mais influentes do universo gastronômico.

Um legado que vai muito além dos restaurantes

Petrini ajudou a criar iniciativas que se tornaram fundamentais para a preservação de alimentos e tradições ameaçadas, como a Arca do Gosto, catálogo internacional que mapeia ingredientes e produtos em risco de desaparecer, e a rede Terra Madre, criada para conectar agricultores, pescadores, cozinheiros e comunidades alimentares de diferentes partes do mundo.

Em 2004, fundou também a University of Gastronomic Sciences, em Pollenzo, considerada a primeira universidade do mundo dedicada às ciências gastronômicas e aos sistemas alimentares sustentáveis. A instituição recebeu alunos de mais de 100 países e ajudou a formar uma nova geração de profissionais que enxergam a gastronomia para além da cozinha.

Sua influência atravessou fronteiras e aproximou Petrini de nomes como Papa Francisco e Rei Charles III, ambos defensores de pautas ligadas à agricultura sustentável e ao meio ambiente.

No Brasil, suas ideias também ecoaram fortemente. O Slow Food criou redes ativas no país. Iniciativas como a Arca do Gosto Brasil ajudaram a mapear ingredientes nativos, pequenos produtores e tradições ameaçadas pelo desaparecimento. Em 2017, Petrini esteve no Rio de Janeiro para lançar a edição brasileira do projeto.

Ao longo da vida, Petrini insistiu em um conceito que hoje parece quase óbvio, mas que, quando começou a defendê-lo, soava radical: comida não deveria ser apenas mercadoria.

Sua morte encerra a trajetória de um dos questionadores mais importantes da gastronomia contemporânea, mas deixa viva uma discussão que transformou o modo como o mundo passou a olhar para o que chega ao prato.

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