De necessidade a orgulho nacional: ramen coreano conquista o mundo

Na cidade de Gumi, fábrica da Nongshim produz 6 milhões de pacotes por dia e faturou cerca de R$ 2,98 bilhões em 2024

Rebecca Cairns, da CNN
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No chão da fábrica de macarrão da Nongshim, na cidade de Gumi, uma sinfonia industrial se desenrola: o triturar da farinha de trigo e o barulho dos rolos dão lugar ao ritmo cadenciado das lâminas sobre a massa; fitas de macarrão fresco são cozidas no vapor com um chiado e fritas rapidamente com um estalo, depois arrebatadas em um piscar de olhos por uma esteira transportadora em constante funcionamento e embaladas em plástico crocante.

A cada minuto, 600 pacotes de ramyeonmacarrão instantâneo coreano, também conhecido como ramyun e ramen, saem das linhas de produção altamente automatizadas e ultrarrápidas para caixas levadas ao cais de carregamento por robôs.

Esta instalação de mais de 42 mil m² é a maior fábrica de macarrão instantâneo da Coreia do Sul, produzindo 6 milhões de pacotes por dia.

"No ano passado, produzimos 1,23 bilhão de unidades, no valor de 884 bilhões de won (cerca de R$ 2,98 bilhões)", diz o gerente da fábrica, Sang Hoon Kim.

A unidade de Gumi fabrica 80% do Shin Ramyun e 90% do Chapagetti (macarrão grosso e elástico, semelhante ao espaguete com pasta de soja preta) vendidos no mercado doméstico, com apenas 600 funcionários.

Isso é possível por um conjunto de sensores aprimorados por inteligência artificial e câmeras inteligentes que monitoram cada ponto da produção, garantindo segurança e qualidade, afirma Kim, acrescentando que a tecnologia é desenvolvida internamente por funcionários com "amplo conhecimento sobre a fabricação de ramyeon".

Mas em Gumi, o ramyeon é mais do que apenas um alimento: a fábrica e seus produtos tornaram-se a âncora cultural da cidade.

A cidade do ramyeon

A cerca de 270 quilômetros a sudeste da capital da Coreia do Sul, Gumi é uma cidade de médio porte com aproximadamente 400 mil habitantes e uma longa história como polo industrial, conhecida primeiro por têxteis, depois por eletrônicos e, hoje, como o maior centro de tecnologia de comunicações do país.

Normalmente não é frequentada por turistas, mas isso está mudando. Em 2022, Gumi colocou em destaque sua produção de macarrão, lançando o inaugural "festival de ramyeon" no mesmo ano.

O objetivo, segundo Jeong-tae Kim, um alto funcionário da Prefeitura de Gumi e organizador-chefe do festival, era transformar a reputação de Gumi como uma cidade industrial "entediante" em um destino "divertido" tanto para moradores quanto para turistas.

"Como cidade industrial, precisávamos de uma identidade cultural", diz Jeong-tae Kim.

A prefeitura procurou a Nongshim, que se tornou parceira do conselho no festival, o qual cresceu a cada ano: de apenas 10 mil visitantes em sua primeira edição para um recorde de 350 mil em 2025, vendendo 54 mil tigelas e 480 mil pacotes de ramyeon ao longo do evento de três dias.

O ponto alto do festival é uma faixa de pedestres de 475 metros repleta de vendedores, que os organizadores chamam de "o maior restaurante de ramen do mundo". Lá, dezenas de restaurantes e chefs servem ramen e pratos inspirados no ramen, de sanduíches de ramen a sopa de macarrão com carne de porco defumada.

Os vendedores recebem macarrão da fábrica da Nongshim. "O ramen recém-frito é incrivelmente delicioso", diz o gerente da fábrica, Sang Hoon Kim, acrescentando que ver turistas chegando a Gumi "nos deu um grande senso de orgulho".

Nos fins de semana do festival, as passagens de trem da cidade vizinha de Daegu se esgotam e os vendedores locais relatam um aumento nas vendas, diz Jeong-tae Kim. O desafio agora, diz ele, é estender os benefícios para além de um único fim de semana.

Da necessidade ao ícone nacional

O macarrão instantâneo chegou à Coreia do Sul na década de 1960, quando o país ainda se recuperava da Guerra da Coreia: havia escassez de alimentos e o arroz, alimento básico do país, era limitado. Assim, as pessoas começaram a fazer macarrão com farinha de trigo fornecida pelo exército americano, o que foi ativamente incentivado pelo governo na década de 1960.

A Samyang Foods, marca por trás do ardente "Buldak Ramen", tornou-se a primeira fabricante de macarrão instantâneo da Coreia em 1963, inspirando-se no estilo japonês de macarrão instantâneo desenvolvido pelo fundador da Nissin, Momofuko Ando, em 1958, mas adaptado ao gosto coreano: o caldo de frango foi substituído pelo de carne bovina e a pimenta vermelha foi adicionada. A Nongshim surgiu em 1965, com outras marcas domésticas como Paldo e Ottogi lançadas na década de 1980.

Sang Hoon Kim se lembra do lançamento do Shin Ramyun em 1986, quando ainda estava na faculdade. Nutritivo e barato — custava 200 won (cerca de R$ 0,67) — era a refeição perfeita para estudantes.

"Eu comia muito. Comprava caixas inteiras", recorda Sang Hoon Kim. "O máximo que já comi em um dia foram 10 pacotes." Após se formar, ele conseguiu um emprego na Nongshim em sua cidade natal, Busan, e se mudou para Gumi com a empresa em 1992, progredindo da linha de produção até a gerência.

Três décadas depois, ele não está cansado: mesmo provando diariamente o ramyeon produzido na fábrica, "nos feriados, ainda cozinho em casa e como de novo", diz ele.

Sang Hoon Kim não é o único em seu amor pelo ramyeon. Em 2025, os coreanos consumiram mais de 4 bilhões de porções de macarrão instantâneo, ou aproximadamente 77 tigelas por pessoa a cada ano, de acordo com a World Instant Noodle Association.

Expansão global

A popularidade do ramyeon também está disparando globalmente: as exportações de macarrão instantâneo da Coreia cresceram 22% em 2025, atingindo um recorde de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 7,59 bilhões).

Momentos da cultura pop, como a cena do "ram-don" em "Parasita" ou o momento em que se come macarrão em "Guerreiras do K-Pop", aumentaram a consciência dos consumidores internacionais sobre o ramen coreano, embora Jinny Seo, chefe global de marketing da Nongshim, afirme que esses momentos refletem décadas de campanhas para promovê-lo a um mercado mais amplo.

Esses momentos tornaram-se um "catalisador" para expandir ainda mais sua base de consumidores, diz ela. Por exemplo, a Nongshim colaborou com a Netflix em uma linha de sabores de macarrão inspirados nos personagens do filme "Guerreiras do K-Pop".

Enquanto a Nongshim domina o mercado doméstico, a concorrente Samyang a ultrapassou nas vendas no exterior em 2024.

"Estamos em uma situação em que compradores em lugares como a Europa estão exigindo mais produtos, mas não conseguimos entregar", diz Seo.

Para atender a essa demanda, a Nongshim está construindo a fábrica Noksan, voltada exclusivamente para exportação, em Busan, com um investimento de 191,8 bilhões de wons (cerca de R$ 648 milhões). A unidade deve produzir 500 milhões de unidades de ramyeon anualmente e quase dobrar as exportações domésticas atuais da empresa quando entrar em operação ainda este ano.

Isso vai abalar o título de Gumi como o lar do ramyeon na Coreia? Seo acredita que não: Gumi, com sua enorme produção de Shin Ramyun, é o "núcleo da produção da Nongshim".

Sang Hoon Kim também não está preocupado. Grande parte da tecnologia de ponta sendo instalada no polo de Busan foi desenvolvida e testada em Gumi, contribuindo para ampliar ainda mais a influência da cidade.

E por trás da intensa automação, cada produto conserva um pequeno toque humano. Sang Hoon Kim pega um pacote de Shin Ramyun e aponta para três caracteres abaixo da data de validade: é o nome da pessoa que embalou os macarrões.

"Hoje, imprimem o nome da pessoa responsável pela embalagem", diz Kim. "Mas quando eu era gerente de campo, era o meu nome que estava impresso. Se 500 milhões de unidades de Shin Ramyun eram vendidas, parecia que todo mundo no país conhecia o meu nome."

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