O Dry Martini não envelheceu: evoluiu e está de volta aos balcões

Símbolo de sofisticação, o retorno do coquetel é um chamado para nos reencontrarmos com o que realmente importa

Márcio Silva, colaboração para o Viagem & Gastronomia
Dry Martini do The Liquor Store
Dry Martini do bar The Liquor Store, em São Paulo  • Tati Frison
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Dias atrás, enquanto recepcionava alguns amigos apaixonados por coquetéis no meu bar, algo me chamou profundamente a atenção. Entre tantos drinques pedidos naquela noite, havia um que dominava a cena com uma naturalidade absoluta: o Dry Martini.

Enquanto brindávamos e falávamos sobre receitas, técnicas e histórias de bar, comecei a lembrar das minhas últimas viagens pelo mundo, e percebi o mesmo movimento em todos os lugares por onde passei. O Dry Martini havia retornado; estava sendo apreciado em bares onde normalmente não seria pedido.

Essa constatação ficou ainda mais evidente neste ano, no maior congresso mundial de bares, em Nova Orleans, onde vários novos livros foram lançados e dedicados inteiramente a ele. Um sinal claro de que o interesse por esse coquetel voltou a crescer: não era coincidência; era sinal de um interesse renovado, profundo, quase acadêmico.

Foi então que percebi que essa pura atitude líquida recuperou seu papel de protagonista, definindo novas cenas, narrativas e comportamentos, apenas com sua presença e sua força simbólica.

Esse retorno também faz sentido historicamente. Revisitei pesquisas antigas que há muito não consultava e, entre relatos clássicos e contemporâneos, encontrei um consenso entre historiadores e escritores: o Dry Martini nasce entre o fim do século XIX e o início do século XX, quando misturar bebidas deixava de ser rotina e passou a ser arte.

A teoria mais difundida aponta para o coquetel Martinez, criado por volta de 1880 no Occidental Hotel, em São Francisco, para um mineiro que seguia rumo à cidade de Martinez durante a corrida do ouro.

Outra narrativa atribui a criação ao bartender Martini di Arma di Taggia, do Hotel Knickerbocker, em Nova York, que, em 1910, teria equilibrado gim, vermute seco e aromatizante de laranja, formando a base do Dry Martini que conhecemos hoje.

Desde então, esse coquetel se tornou símbolo de sofisticação, elegância e atitude. O Dry Martini nunca foi apenas um mero coquetel: é um gesto, um posicionamento.

Ao longo do século XX, conquistou artistas, escritores, políticos e ícones da cultura pop, cada um com seu próprio ritual e interpretação.

Ernest Hemingway pedia o famoso “Montgomery Martini”, em proporção agressiva de 15 partes de gim para um de vermute. Frank Sinatra preferia o Dirty Martini, com toque salino, refletindo o charme imperfeito de quem vivia entre palcos e noites. E, claro, James Bond eternizou o “batido, não mexido”, ainda que os bartenders mais puristas defendam que o Martini perfeito é sempre mexido.

De Tóquio a Londres, de Nova York a São Paulo, o Dry Martini continua sendo reinterpretado com rigor técnico e a sensibilidade de uma geração que voltou a valorizar o essencial.

Preparo do Dry Martini

Ao preparar esse coquetel, alguns detalhes importantes: o gelo deve ser cristalino, capaz de resfriar com eficiência no copo misturador, e a taça precisa estar extremamente gelada.

O gim deve ter personalidade marcante; o vermute, escolhido como perfume — seco, sutil e preciso. Os bitters podem conferir nuances aromáticas, dependendo da assinatura e do conhecimento técnico do bartender, e a finalização exige cuidado, azeitonas de qualidade e procedência impecável, ou um “twist” perfeito de casca de fruta cítrica.

Hoje, esse ícone social e cultural representa mais do que um drinque clássico. Ele marca o retorno ao gosto pelo detalhe, pelo tempo, pelo estilo. É a nostalgia que transforma o ato de beber em uma celebração íntima, um momento em que revelamos nossa personalidade e nossa identidade.

O Dry Martini vive em cada história, em cada memória, em cada gesto de cada pessoa que o aprecia. E talvez por isso, justamente agora, ele tenha voltado ao centro da cena mundial dos bares: um chamado para reencontrarmos o que realmente importa, o essencial, na coquetelaria e na vida.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Márcio Silva

Márcio Silva, premiado bartender mentor e empresário da indústria de bares • Divulgação
Márcio Silva, premiado bartender mentor e empresário da indústria de bares • Divulgação

O premiado bartender mentor e empresário da indústria de bares Márcio Silva é sócio-proprietário do Exímia Bar, que conquistou o 61º lugar no The World's 50 Best Bars 2025, ao lado da chef Manu Buffara e dos irmãos Nic e Gabriel Fullen, do Grupo Locale.

Márcio integra há sete anos consecutivos a lista das 100 pessoas mais influentes da indústria global de bares, publicada pela revista londrina Drinks International – Bar World 100. Também é reconhecido como líder na cultura mundial de bares pelo Spirited Awards – Tales of the Cocktail, dos Estados Unidos, e detém o título de Melhor Profissional de Bar Mundial pelo Prêmios Excelencias – Fitur, Feira Internacional de Turismo de Madri, na Espanha.

Aprendeu o ofício na Europa, onde teve a oportunidade de trabalhar com importantes nomes do mundo da mixologia. De volta ao Brasil, em 2009, foi o consultor responsável pela abertura do SubAstor e, em 2019, tornou-se o primeiro brasileiro a liderar um bar do país na lista do The World’s 50 Best Bars, com o Guilhotina, que alcançou a 15ª posição.

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