O olhar asiático que inspira a nova era da coquetelaria

Se a América ensinou o consumo e a Europa codificou o luxo, o leste e o sudoeste asiático ensinam o sentido - lição que a coquetelaria contemporânea incorpora com elegância

Márcio Silva, colaboração para o Viagem & Gastronomia
Márcio Silva traz reflexão sobre o papel da cultura asiática na coquetelaria
Márcio Silva traz reflexão sobre o papel da cultura asiática na coquetelaria  • Foto de Edward Howell na Unsplash
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Nos dias atuais, o leste e o sudoeste da Ásia se destacam como um dos principais epicentros da indústria mundial de bares e vivem um renascimento líquido que redesenha a coquetelaria mundial. Um movimento em que técnica, filosofia e estética se fundem em harmonia, revelando uma nova forma de servir, mais consciente, profunda e conectada às próprias culturas.

Vivemos a era da convergência. As fronteiras culturais se dissolvem e o copo torna-se instrumento de tradução entre mundos, um gesto de identidade e de consciência cultural. Poucos lugares compreendem isso tão bem quanto o Oriente. Essa sabedoria é ancestral, mas hoje ressurge renovada, pulsante e inspiradora.

Enquanto o Ocidente construiu sua narrativa sobre a velocidade e a revolução, o Oriente aperfeiçoou o silêncio, o tempo e o respeito ao gesto. Lá, o bar é mais do que técnica: é ritual, filosofia e contemplação.

 

No Japão, a precisão é espiritual. Bares como Bar High Five, Bar Benfiddich, The SG Club e Trench Bar transformaram o ato de preparar um coquetel em uma arte zen. Cada movimento é meditação, cada pausa tem significado. Em um mundo acelerado, o país ensina que a perfeição não é meta, é caminho, e que servir também é um ato de alma. Do gelo lapidado ao hard shake, tudo é feito com presença absoluta.

Na China, especialmente em Hong Kong, a coquetelaria reflete uma energia de expansão e inovação. Bares como Bar Leone (atual #1 do mundo pelo The World’s 50 Best Bars), Argo, Coa e Penicillin projetam o continente como potência criativa em hospitalidade, sustentabilidade e storytelling. São o retrato do novo luxo asiático: acessível, sensível e emocional.

Em Xangai, o passado e o futuro coexistem: entre o art déco colonial e o neon futurista, entre o speakeasy intimista do Speak Low e o rooftop ultramoderno do Flair Rooftop, a estética se torna tempo líquido e o tempo, experiência.

A Coreia do Sul traduz a nova geração consciente. Em bares como Zest e Charles H, a técnica encontra a ecologia e a hospitalidade são medidas pela pegada ambiental.
Em tempos de urgência climática, esses espaços representam a coquetelaria do futuro: sustentável, emocional e responsável.

No Sudeste Asiático, cidades como Bangkok, Manila, Singapura e Kuala Lumpur vivem uma efervescência criativa movida pelo tropicalismo e pela liberdade. Essas metrópoles reinventam o conceito de luxo e o significado do exótico, não como o diferente, mas como a profundidade do que é local.

Bares como Bar Us, Dry Wave Cocktail Studio, BBK Social Club (Tailândia) e Back Room (Filipinas) exploram ingredientes nativos e narrativas regionais com ousadia e sensualidade, expressando uma contemporaneidade autêntica, leve e emocional.

Em Singapura, o serviço é um rito. Casas como Native, Jigger & Pony, Nutmeg & Clove e Side Door fazem da hospitalidade uma arte conceitual e social. Ali, servir é um ato de empatia e colaboração, um manifesto coletivo sobre os encontros humanos.

Kuala Lumpur, por sua vez, vive sua maturidade criativa. Em menos de uma década, passou de periferia a protagonista da coquetelaria asiática, unindo sofisticação técnica, hospitalidade sensível e orgulho local. O Bar Trigona, ícone dessa nova era, tem a sustentabilidade como base. Inspirado nas abelhas nativas Trigona, cujo mel dá nome e sabor ao bar, o espaço cria um ecossistema líquido de ingredientes sazonais, desperdício zero e narrativa enraizada no território.

A lição asiática é clara: a verdadeira revolução não está na velocidade, mas na presença. Enquanto o Ocidente fala em branding e performance, o Oriente responde com paciência, humildade e profundidade. Não se trata do coquetel perfeito, mas do momento perfeito, aquele em que o cliente se sente visto, ouvido e honrado.

Em minha opinião, a nova coquetelaria asiática é um espelho que devolve ao Ocidente o que ele havia esquecido: propósito, poesia e essência. Se a América ensinou o consumo e a Europa codificou o luxo, o leste e o sudoeste asiático, na minha opinião, ensinam o sentido.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Márcio Silva

Márcio Silva, premiado bartender mentor e empresário da indústria de bares  • Divulgação
Márcio Silva, premiado bartender mentor e empresário da indústria de bares  • Divulgação

O premiado bartender mentor e empresário da indústria de bares Márcio Silva é sócio-proprietário do Exímia Bar, que conquistou o 61º lugar no The World's 50 Best Bars 2025, ao lado da chef Manu Buffara e dos irmãos Nic e Gabriel Fullen, do Grupo Locale.

Márcio integra há sete anos consecutivos a lista das 100 pessoas mais influentes da indústria global de bares, publicada pela revista londrina Drinks International – Bar World 100. Também é reconhecido como líder na cultura mundial de bares pelo Spirited Awards – Tales of the Cocktail, dos Estados Unidos, e detém o título de Melhor Profissional de Bar Mundial pelo Prêmios Excelencias – Fitur, Feira Internacional de Turismo de Madri, na Espanha.

Aprendeu o ofício na Europa, onde teve a oportunidade de trabalhar com importantes nomes do mundo da mixologia. De volta ao Brasil, em 2009, foi o consultor responsável pela abertura do SubAstor e, em 2019, tornou-se o primeiro brasileiro a liderar um bar do país na lista do The World’s 50 Best Bars, com o Guilhotina, que alcançou a 15ª posição.

 

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