Turismo gastronômico: memórias que nascem à mesa e movimentam bilhões
Turismo gastronômico é tendência global que conecta culturas, valoriza tradições e gera riquezas financeiras e sociais

Turismo gastronômico é uma bandeira que levanto há mais de 20 anos. É convicção, quase missão. O Viagem&Gastronomia, meu projeto que hoje vive na CNN Brasil em programa, site e redes sociais, nasceu justamente dessa vontade de transformar a cultura de viajar.
Afinal, o que é o turismo gastronômico? É escolher a culinária local como protagonista da viagem. Parece simples, até óbvio, mas é aí que está sua força. Comer vai muito além de nutrir: é mergulhar em cultura, tradição, ancestralidade e história.
Essa jornada passa por restaurantes, claro, mas não se limita a eles. Inclui visitar mercados locais, realizar tours gastronômicos, conhecer bares e pequenos produtores, degustar o enoturismo local, fazer aulas de culinária, ir a festivais gastronômicos… Uma infinidade de experiências guiadas pelo fio condutor da comida. É ter a identidade de um povo revelada por meio de seus ingredientes e técnicas.
Gosto de repetir: é em torno da mesa que as coisas boas da vida acontecem. Entre amigos, em família, com nossos parceiros e, muitas vezes, sozinha mesmo. Comer é criar memória. E o mundo já entendeu isso.
Pesquisas mostram que 87% dos viajantes querem viver ao menos uma experiência gastronômica em suas viagens (UN Tourism/Booking.com, 2025). Outra aponta que 34% escolhem o destino pela força da culinária local (World Food Travel Association). E, em alguns mercados, 66% planejam fazer pelo menos uma viagem puramente gastronômica por ano (Condé Nast Traveler/Amex Travel Insights, 2024).
A vontade também está no recorte nacional. Uma pesquisa da Booking.com divulgada neste ano mostra que 69% dos viajantes brasileiros consideram a culinária local um fator importante na hora de escolher um destino. Visitar restaurantes pouco conhecidos, ir a mercadões, experimentar comida de rua e visitar uma cervejaria ou vinícola local estão entre os planejamentos mais comuns.

O impacto vai além do prato. Atrás de cada restaurante estrelado existe uma rede invisível que sustenta identidades e territórios: o fornecedor de hortaliças, o curador de queijos, o transportador, o maître, o produtor artesanal de azeite, a família que faz o vinho. Conhecer a procedência é, no fundo, a grande riqueza de se alimentar.
Se o turismo de massa traz impactos negativos ao redor do mundo, o turismo gastronômico aponta um caminho de equilíbrio: conecta viajante e comunidade, valoriza tradições, gera renda e fortalece pertencimento.
Há exemplos concretos de como a gastronomia pode transformar destinos. O Peru talvez seja o mais emblemático. Lima conquistou o título de capital gastronômica mundial graças a um movimento liderado por chefs, com Gastón Acurio à frente, aliado a iniciativas privadas e ao próprio governo.
Essa união reposicionou o país no mapa global, levou sua culinária aos holofotes e transformou pratos tradicionais, como o ceviche, em símbolos de identidade e orgulho nacional. Hoje, restaurantes como o Central, eleito o melhor do mundo em 2023, ou o Maido, o melhor do mundo em 2025, reforçam esse protagonismo e atraem viajantes de todos os continentes.
O potencial econômico também impressiona. Estimativas apontam que o turismo gastronômico deve movimentar mais de US$ 1,94 trilhão (cerca de R$ 10,6 trilhões de reais) até 2031, crescendo acima de 15% ao ano (Allied Market Research, 2024). Outros relatórios falam em crescimento de quase 20% ao ano até 2030, alcançando US$ 40,5 bilhões (Grand View Research, 2024). Ou seja: além de sustentável, cultural e comunitário, é também absurdamente rentável.
No Brasil, esse movimento ganha ainda mais significado. Falar de turismo gastronômico sustentável é falar de comunidades, de ingredientes locais e de pequenos produtores. É falar de impacto positivo no entorno e de representatividade. Basta observar nossos aeroportos: não vemos só malas, vemos isopores. O brasileiro leva comida na bagagem, leva identidade. Esse orgulho é cultura viva.
No fim, é simples: as melhores memórias de uma viagem quase sempre acontecem em torno da mesa. Uma refeição, um vinho compartilhado, um prato descoberto. A gastronomia é o fio condutor dessas experiências e também um dos motores mais potentes do turismo mundial.


