Malbec já não é mais uma uva “tão francesa” assim

Com o passar das décadas, a casta tornou-se a expoente de vinhos argentinos e é aposta de importadores que vendem no Brasil

Lujan de Cuyo, Mendoza, Argentina.
Lujan de Cuyo, Mendoza, Argentina. Getty Images

Stêvão Limanada CNN

Cada vez menos francesa e cada vez mais argentina. A uva Malbec, queridinha dos brasileiros, virou expoente dos “hermanos” e até recebeu uma espécie de “rebatismo”.

Originária de Cahors, no sudoeste francês, a casta teve um protagonismo gigantesco na viticultura do velho continente, principalmente dos vinhos de Bordeaux até a chegada da filoxera, no final da década de 1850.

A praga devastou quatro quintos de todos os vinhos do mundo e pegou em cheio variedades mais sensíveis e suscetíveis a doenças como a Malbec. Por isso, de forma repentina verificou-se um “sumiço” de vinhedos com Malbec e uma dificuldade enorme de recomeço da casta na França, pois os viticultores temiam novas perdas.

 

No entanto, anos antes, a uva já havia desembarcado na Argentina a partir das mãos do agrônomo francês Michel Aimé Pouget e teve uma adaptação fantástica no solo seco, desértico e alto de Mendoza.

Para termos noção, a França, atualmente, possui apenas 5 mil hectares destinados à produção da Malbec, enquanto os “hermanos” superam os 45 mil. E o “rebatismo” aconteceu em Luján de Cuyo, em 1991, cidade que pertence a Mendoza e que dá nome à primeira denominação de origem da Argentina.

A D.O.C (como é chamada) foi fruto do trabalho de Alberto Arizu, conhecido como o “guardião do terroir argentino” e um dos donos da vinícola Luigi Bosca. Em visita ao Brasil, Alberto Filho (quarta geração da família Arizu), reconheceu a importância dos protocolos fitossanitários e sustentáveis na produção, além de dizer que a vinícola só conseguiu chegar ao atual patamar após mais de 120 anos de seleção dos melhores clones genéticos da planta.

Alberto ressaltou, ainda, que em visita à vinícola é possível beber o “pai dos Malbecs argentinos”: o primeiro rótulo da casta produzido pela empresa em 1912.

“Já tiveram pessoas que me ofereceram quanto eu quisesse para comprar este vinho, mas não há dinheiro que pague. Nós costumávamos abrir garrafas somente em momentos de comemorações, mas com a ajuda do Coravin é possível fazer mais vezes”, disse.

A denominação de origem de Luján de Cujo tem apenas 34 anos de existência e é sede de outras grandes marcas como Catena Zapata, Susana Balbo, Cheval des Andes e Achaval Ferrer. A potência do terroir de altitude de 800 a 1200 metros, aliado ao clima cálido e seco da região propiciam cada vez mais Malbecs elegantes, redondos e intensos, ideais para harmonizar com churrascos e que fazem a gente poder contar nos dedos quantos varietais franceses da uva bebemos nos últimos anos.

E olha que nem sou tão fã de Malbec assim.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Stêvão Limana

O jornalista Stêvão Limana com taça de vinho na mão
O jornalista Stêvão Limana / Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Stêvão Limana é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pós-graduado em enologia, postulante a sommelier profissional e maratonista nas horas vagas. Na TV fala sobre política e eleições, enquanto na internet foca em vinhos e gastronomia.