10 países, um trem: a bordo da expedição que revive o Expresso do Oriente

Viagem liga Europa Ocidental e Oriental com roteiro que combina luxo, gastronomia e, principalmente, conhecimento

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Inaugurado no fim do século XIX, o Expresso do Oriente mudou a forma como enxergamos as viagens de trem. Partindo de Paris rumo a Constantinopla, a atual Istambul, a jornada entrou no imaginário popular pela abundância de sofisticação e pelo fascínio dos territórios cruzados. A literatura deu um empurrão para que o roteiro se tornasse ainda mais cobiçado, com a publicação em 1934 do livro "Assassinato no Expresso do Oriente", da ilustre autora Agatha Christie.

Para a nossa sorte, as grandiosas viagens que atravessam sotaques e que ligam Europa Ocidental e Oriental estão de volta. Hoje, algumas companhias têm ressuscitado o espírito do Expresso do Oriente em itinerários que combinam luxo, gastronomia e, principalmente, conhecimento. O coração destas expedições reside nos roteiros.

Os trens-dormitórios de luxo fazem parte de um contexto maior, funcionando como uma poderosa ferramenta que nos ensina sobre impérios, campos de batalhas e fronteiras redesenhadas, descortinando os aspectos culturais mais profundos das nações. Saímos da zona de conforto ao nos colocarmos disponíveis a aprender sobre novas, e antigas, realidades. É uma viagem que tem um valor imaterial imensurável.

Foi exatamente o que vivi ao longo de 22 dias na jornada "Grande Expresso do Oriente", planejada pela Latitudes, produtora de viagens pioneira no mercado brasileiro que desenha expedições de conhecimento. Digo sem titubear: era a minha viagem dos sonhos.

No último mês de outubro, embarquei junto da equipe do CNN Viagem & Gastronomia nesta viagem que entrega tudo: experiências, atividades personalizadas, aulas sobre cada destino com especialistas e, claro, hospedagens e refeições à altura. Saindo da Suíça em direção à Turquia, as andanças renderam cinco programas, reunidos em uma temporada inédita que será exibida a partir de abril.

Antes de adentrar nos detalhes de cada destino, compartilho a seguir as impressões gerais do roteiro, do trem e, essencialmente, dos motivos que fazem a expedição ser tão valiosa.

Viagem de conhecimento

Em números, a expedição "Grande Expresso do Oriente" durou 22 dias, sendo 12 noites em hotéis pelo caminho e sete a bordo do trem. Atravessei 14 cidades de 10 países: Suíça, Áustria, Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Sérvia, Kosovo, Macedônia do Norte, Bulgária e Turquia.

A jornada foi totalmente inspirada no roteiro clássico do Expresso do Oriente, mas vivida através de uma versão atualizada do mapa político contemporâneo.

Saí de Zurique, na Suíça, que é novidade em comparação com os trajetos clássicos, passando pela histórica região dos Bálcãs e remontando as fronteiras da antiga Iugoslávia. O destino final foi a antiga capital do Império Otomano, Constantinopla, hoje Istambul, na Turquia.

A viagem faz parte do leque de roteiros e destinos pensados pela Latitudes. Trata-se de uma "private train expedition", viagem privada em grupo sobre trilhos, feita por brasileiros e para brasileiros.

Esta foi a 9ª edição das "Private Expeditions" da empresa, que trabalha com outras modalidades, como aviões privativos e cruzeiros, sempre desbravando o mundo sob lentes culturais. Para 2026, há expedições confirmadas na Oceania, no Ártico e na Ásia Central.

Ao longo do caminho, compreendi o verdadeiro mote da viagem: ser movida pela curiosidade. Cada parada, cada atrativo e cada refeição colabora na construção do nosso repertório cultural e intelectual. Para ajudar a interpretar os elementos, a presença de especialistas (em português!) fez toda a diferença.

É uma experiência que atravessa a linha do comum e nos coloca em contato com questões históricas e geopolíticas.

Sofisticação a bordo: os detalhes do trem

O deslocamento entre Suíça e Turquia foi feito a bordo do Golden Eagle Danube Express, trem privativo que opera na Europa Central e Oriental. Ele nos permitiu viajar de uma maneira diferente, incluindo o charme nostálgico das cabines, os sons dos trilhos e o almoço servido como um ritual.

O veículo acomoda pouco mais de 60 passageiros, número que deixa a experiência mais intimista. A composição regular do trem envolve sete vagões-dormitório, um lounge, que funciona como o núcleo social da viagem, e dois vagões que abrigam o restaurante. Ao todo, são 29 cabines, divididas em duas categorias, a Deluxe e a Superior Deluxe, que diferem no tamanho.

Todas as acomodações são dotadas de banheiros privativos com chuveiro e água quente, além de guarda-roupa e ar-condicionado com controle individual. À noite, a equipe transforma os assentos das suítes em camas. Destaco ainda os janelões, sendo que um deles abre, ajudando a enquadrar as paisagens do lado de fora.

Fomos acompanhados de Wi-Fi e de uma equipe dedicada de atendentes. A viagem ficou completa com um médico disponível em tempo integral e com as conversas conduzidas pelos especialistas. Entre os diferenciais, a Latitudes divide os viajantes em pequenos grupos para passeios e atividades nos destinos. Sempre que possível, há visitas privativas, eventos especiais e jantares exclusivos, assim como oferta de programas opcionais.

Além do uso privativo do trem, a excursão incluiu todos os transportes terrestres e traslados, hospedagens, refeições, bebidas alcoólicas e não alcoólicas, passeios, seguro viagem, guias locais e brindes. Os valores são sob consulta.

Cada destino que visitei guarda características únicas, com línguas, sabores, aromas e histórias que resultariam em um livro. Por enquanto, darei uma pincelada em algumas das paradas e atrativos do roteiro, lembrando que o itinerário também incluiu estadias em hotéis, às vezes de mais de um dia.

Suíça a Turquia: da Europa Ocidental à Oriental

O pontapé deu-se com uma noite em Zurique, a maior cidade da Suíça, que já foi protagonista de um dos programas do CNN Viagem & Gastronomia. Da estação, atravessamos a fronteira para chegar em Salzburgo, na Áustria, terra de Mozart. A cidade reúne um admirável conjunto arquitetônico barroco. Por ali, visitei a Fortaleza de Hohensalzburg, um dos maiores castelos medievais da Europa; o local de nascimento de Mozart, a Catedral de Salzburgo e a Getreidegasse, principal via comercial da cidade.

Depois, chegamos à capital da Eslovênia, Liubliana, que já foi eleita a Capital Verde da Europa. A cidade mistura arquitetura barroca e resquícios dos tempos socialistas, formando um mosaico vivo de estilos e épocas. Alguns dos cartões-postais ficam nas redondezas, como o Lago Bled, com os Alpes Julianos de fundo, e a Caverna de Postojna, espetáculo subterrâneo com mais de 24 quilômetros de túneis, galerias e formações calcárias.

Na Croácia, os destinos foram Pula e Rovinj, que estiveram sob os domínios bizantino, veneziano e austro-húngaro. Pula é uma cidade costeira no extremo sul da península de Ístria, banhada pelo mar Adriático e conhecida por seu anfiteatro romano. Rovinj fica a cerca de 36 quilômetros dali, sendo a maior cidade da região.

Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina, entrou no mapa. Devido às dominações de diferentes impérios, a cidade é muito diversa no sentido cultural e religioso. Aqui encontramos mesquitas, igrejas católicas, igrejas ortodoxas e sinagogas convivendo lado a lado. No geral, o país montanhoso tem rios cristalinos e um visual marcado pelos Alpes Dináricos.

Depois, foi a hora de seguir viagem para Belgrado, na Sérvia, que se tornou um ponto estratégico e cultural na região dos Bálcãs. No século XX, foi a capital da Iugoslávia e passou por conflitos e renascimentos. Alguns dos pontos-chave são o Templo de São Sava, maior templo ortodoxo da Europa, e o Museu Nacional da Sérvia, no centro da cidade.

O trajeto ainda incluiu Pristina e Prizren, no Kosovo. A primeira é a capital e a segunda é menor, de atmosfera acolhedora. O país declarou independência da Sérvia em 2008, mas ainda não é reconhecido por certas nações mundo afora. Entre colinas próximas a Pristina, uma igreja ergue-se desde 1321: o Mosteiro de Gračanica, Patrimônio da Unesco, um verdadeiro tesouro de arte bizantina nos Bálcãs, com mais de quatro mil rostos de santos, reis e anjos pintados no interior.

Você já ouviu falar na Macedônia do Norte? A expedição seguiu até Escópia, a capital do país, com direito a visita em Ócrida. A capital foi reconstruída após um terremoto na década de 1960 com arquitetura socialista, de concreto e linhas duras.

Décadas depois, um projeto do governo espalhou pela cidade prédios neoclássicos falsos, pontes com estátuas, fontes iluminadas e heróis nacionais em grande escala. O resultado é uma estética que fascina e confunde. Além do cenário urbano único, Escópia é também o lugar onde nasceu Madre Teresa de Calcutá.

Antes de chegarmos a Istambul, os dois destinos anteriores foram Plovdiv e Sófia, na Bulgária. Sófia é a capital e maior cidade do país, esbanjando ruínas romanas, catedrais ortodoxas, mesquitas otomanas e edifícios do período comunista. É uma cidade viva e alegre. Por sua vez, Plovdiv, no interior, é considerada a cidade continuamente habitada mais antiga da Europa. Um de seus símbolos é o teatro romano de Philippopolis, do século I d.C.

A jornada foi encerrada na Turquia. Lar para mais de 15 milhões de habitantes, Istambul é a cidade mais populosa do país e capital dos antigos impérios Otomano e Bizantino. Estrategicamente posicionada entre Europa e Ásia, é hoje uma das cidades que mais recebem viajantes internacionais no mundo. Foi um destino mais do que especial para coroar a expedição, já que nos revela uma mistura de bazares, banhos turcos, imponentes mesquitas e passeios de barco no pôr do sol.

 

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