No Alentejo, a casa do renomado chef José Avillez pode ser sua

A cerca de duas horas de Lisboa, o chef e sua esposa transformaram uma propriedade de 65 hectares às margens do lago Alqueva em uma hospedagem privada com serviços de hotel cinco estrelas; conheça a Casa Nossa

Tina Bini, do Viagem & Gastronomia
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Um dos principais nomes da gastronomia portuguesa, e ouso dizer, da cena mundial, decide ir além dos restaurantes e provar que a excelência faz parte do seu DNA. Depois de consolidar um grupo com 15 endereços, incluindo casas em Dubai e Macau, ganhar prêmios, estrelas, capas de revistas e até protagonismo em programa na televisão, o chef José Avillez amplia sua atuação dentro da própria hospitalidade e atravessa a fronteira da restauração para a hotelaria, criando no Alentejo um projeto que traduz seu universo de forma íntima e surpreendente.

À margem do Alqueva, maior lago artificial da Europa, em Campinho, pertinho da encantadora vila medieval de Monsaraz e a cerca de duas horas de carro de Lisboa, está a Casa Nossa – The Lake Farmhouse, uma herdade alentejana de 65 hectares que combina natureza preservada, privacidade absoluta e o conforto de um hotel cinco estrelas, com uma diferença essencial: aqui a casa é sempre alugada por inteiro, como se fosse realmente sua. 

Curiosamente, o projeto não começou com vocação hoteleira. O terreno foi comprado por Avillez e por sua esposa, a fotógrafa tão detalhista quanto o marido, Sofia Ulrich, que se apaixonaram por uma ruína que tem no terreno e tinham a intenção de criar um refúgio para a família, uma casa de campo onde pudessem desacelerar e passar as férias com os filhos adolescentes, longe da rotina intensa de quem administra um grupo gastronômico internacional.

Mas, quando alguém acostumado a pensar grande decide fazer algo apenas para si, o resultado dificilmente permanece pequeno. Hoje, eles contam que vão pouco a esse refúgio e, muitas vezes, a trabalho, como aconteceu na nossa estádia, que foi inteiramente acompanhada pelo casal e por Pote, o cachorro da dupla, que não desgruda de Avillez.

Tradição alentejana e a personalidade do casal em cada peça

A arquitetura respeita a tradição alentejana e dialoga com a paisagem e com a luz natural que invade os ambientes ao longo do dia. O interior revela ainda mais a presença de José Avillez e Sofia: a casa é repleta de obras de arte, fotografias e peças garimpadas pelo casal ao longo dos anos, objetos que carregam memória, além de um piano, uma vitrola com discos que revelam o gosto musical da família e uma biblioteca recheada de títulos de gastronomia. São detalhes que deixam claro que eles realmente compartilham com os hóspedes a casa de veraneio que construíram para si.

O mobiliário desenhado por artistas locais, os materiais que conversam com o campo e a adega generosa, repleta de rótulos da região, reforçam o vínculo com o território. A cozinha foi pensada com o mesmo rigor de um restaurante de alta gastronomia e as dez suítes, todas amplas, com terraços voltados para o verde, banheiras, lençóis de inúmeros fios, garantem conforto absoluto, silêncio e noites dignas da realeza.

Biblioteca, sala de cinema, mesas de jogos, um bar no subsolo, academia, espaço para prática de yoga e duas piscinas de borda infinita que se confundem com o horizonte completam a estrutura, que mantém a alma de casa, mas entrega padrão internacional de hotelaria. A propriedade nunca é fracionada e, por consequência, as chaves dos quartos praticamente não são usadas, já que a casa recebe apenas grupos que alugam a herdade por inteiro.

Ao chegar ao quarto, um porta-retrato com a sua foto já está ali, como se aquela casa o esperasse há tempos. Um belíssimo buquê de flores completa a cena, assim como o nome do hóspede na porta de cada suíte, pequenos gestos que traduzem o nome do lugar e fazem você realmente se sentir na “nossa casa”.

E são justamente esses detalhes que transformam a estadia. São 13 funcionários fixos, treinados para perceber hábitos e preferências sem necessidade de grandes explicações. O serviço acontece com naturalidade, como se todos já conhecessem seu ritmo.

A cozinha é um capítulo à parte

Na Casa Nossa, a gastronomia naturalmente ocupa o centro da experiência. Não poderia ser diferente quando o anfitrião é José Avillez. Ainda assim, o que acontece ali vai além da expectativa. É do tipo de vivência que faz surgir uma pergunta inevitável: como voltar à rotina depois de dias assim?

A proposta valoriza ingredientes sazonais e produtos da própria herdade, que conta com horta, galinheiro, árvores frutíferas e oliveiras centenárias, além de privilegiar fornecedores locais. Não há rigidez conceitual, mas há identidade. A matriz é portuguesa, alternando pratos tradicionais e criações contemporâneas preparadas diariamente. O menu é definido antes da chegada, em conversa com o grupo, mas a palavra final costuma ser dos anfitriões. Os hóspedes sugerem preferências, indicam desejos, mas a melhor escolha é confiar. A sensação é a de estar na casa de uma avó portuguesa que insiste em servir sempre mais um pouco, e é impossível resistir.

Quem conduz a cozinha no dia a dia é o brasileiro Vicente Neto, seguindo receitas de Avillez que incluem também preparações de família, como a torta de nozes com ovos moles que encerra refeições de forma memorável. Café da manhã, almoço e jantar estão incluídos na diária e alinhados previamente de acordo com as preferências do grupo. Ao longo do dia, petiscos podem surgir sem cerimônia, como tábuas generosas de embutidos regionais que tornam qualquer tentativa de moderação um desafio.

O café da manhã reforça ainda mais o DNA de hotel cinco estrelas e deixa evidente o cuidado em cada detalhe, não apenas pela variedade, mas pela execução primorosa de itens à la carte e do buffet. Almoços e jantares acontecem sem formalidade excessiva, com técnica apurada e serviço atento. Os vinhos acompanham todos os momentos e também estão incluídos. A estadia custa a partir de 6.600 euros por noite para o grupo, valor que contempla essa experiência integral, da primeira xícara de café ao último digestivo.

Há ainda espaço para desejos específicos. Mediante planejamento prévio e pagamento à parte, é possível solicitar um menu do Belcanto, o restaurante duas estrelas Michelin de Avillez em Lisboa, recriado ali, em pleno Alentejo. Uma ponte direta entre o endereço mais emblemático do chef e seu retiro no campo.

Fora da casa, o lago dita o ritmo. Stand up paddle, mergulhos tranquilos, desportos náuticos ou simplesmente contemplação. Nas redondezas, a vila medieval de Monsaraz reforça a atmosfera histórica da região. Dentro da propriedade, o tempo ganha outra dimensão. É possível fazer muito ou absolutamente nada, sem culpa.

No fim, talvez o nome diga tudo. Não é apenas uma casa no Alentejo, é uma casa pensada para ser partilhada, celebrada e guardada na memória. Um endereço que integra o 50 Best Discovery, plataforma internacional que reúne hotéis, bares e restaurantes recomendados pelos especialistas da academia do 50 Best. E que, por alguns dias, deixa de ser apenas destino para se tornar sua casa também.

Casa Nossa: reservas e informações via site oficial.

 

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