As viagens mudaram: menos excesso, mais consciência, inclusive à mesa

Mais do que tendência, a sustentabilidade redefine a forma de viajar e expõe desafios do setor, desde a gestão até a mesa do café da manhã

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Viajar nunca foi apenas sobre o destino. Sempre foi sobre o impacto que deixamos nele.

Ao longo dos anos, cruzando diferentes cantos do Brasil e do mundo, uma coisa ficou clara para mim: os lugares mais marcantes não são necessariamente os mais luxuosos ou mais fotografados. São, na verdade, aqueles que mantêm sua essência. Onde a cultura pulsa, a comunidade está presente e a experiência não parece desconectada da realidade local.

Talvez por isso o turismo esteja passando por uma mudança tão profunda e silenciosa. Hoje, mais do que escolher para onde ir, começamos a nos perguntar como ir, como consumir e que rastros essa viagem deixa para trás.

Essa percepção, que já vinha aparecendo em muitas experiências pelo caminho, agora ganha respaldo concreto. O Guia da Hospitalidade Sustentável 2026, realizado pelo projeto Hospitalidade Sustentável Brasil (HSB), atrelado à Inmix Consultoria, mostra que 98% dos brasileiros pretendem fazer viagens mais sustentáveis nos próximos meses.

A porcentagem é superior à média global, que oscila entre 85% e 89%. Os dados foram retirados de uma pesquisa da Booking.com, realizada em 2025 com 32 mil viajantes de 34 países. Assim, o levantamento deixa claro: sustentabilidade não é mais um nicho, mas um comportamento.

O turismo que transforma

Em muitas das viagens que fiz recentemente, especialmente pelo Brasil, vi de perto como o turismo pode ser uma ferramenta de transformação. Na Amazônia, por exemplo, a experiência vai muito além da paisagem. Ela passa pelas pessoas, pela cultura, pelo entendimento de que aquele território precisa ser preservado para continuar existindo.

Em lugares como o Anavilhanas Jungle Lodge, no coração da floresta, em Novo Airão (AM), a sustentabilidade não é mero discurso. Está na operação diária, na redução de desperdício e no uso de energia limpa.

Os números demonstram isso: à beira do Rio Negro, o lodge de luxo conserva 520 hectares de floresta; tem entre 40% e 50% de energia consumida proveniente de fonte solar; e cerca de 85% dos colaboradores são moradores das redondezas, contribuindo para o desenvolvimento da região. É o tipo de lugar que nos faz repensar o papel como viajante, abrindo caminhos para um turismo de propósito.

No Pará, a floresta oferece diferentes formas de apoiar o turismo sustentável. Uma expedição fluvial de cinco dias por três rios, o Tapajós, o Arapiuns e o Amazonas, é exemplo disso. O roteiro da Kaiara - Amazônia Essencial, que nasceu com o objetivo de mostrar as riquezas do Pará para conscientizar sobre a preservação da floresta, inclui visitas a comunidades como Jamaraquá, onde entramos em contato com a produção local de biojoias. Já na comunidade Coroca, formada por 50 famílias, o destaque é o projeto de preservação de tartarugas-da-amazônia.

Outra iniciativa que merece destaque é o refúgio ecológico Caiman, Pantanal, no Mato Grosso do Sul, premiado no ano passado pelas ações de regeneração da fauna e da flora pantaneira. A antiga estância inglesa se transformou em um projeto de manejo sustentável onde a pecuária extensiva foi integrada à natureza. O refúgio tem duas hospedagens e promove um turismo de natureza e conservação com ajuda de áreas protegidas e apoio a projetos como Onçafari e Instituto Arara Azul.

Fora do Brasil, outros destinos que se sobressaem no turismo sustentável são a Costa Rica e o Panamá, vizinhos na América Central.

Considerada um "case" global na preservação de seus recursos, a Costa Rica protege cerca de um quarto de seu território e transformou a conservação ambiental em ativo estratégico para atrair visitantes e investimentos, concedendo até um selo de certificação de turismo sustentável a operadores e hotéis.

No norte do Panamá, o arquipélago Bocas del Toro reúne águas azuis-turquesa e praias sossegadas. Para manter isso, a sustentabilidade é levada a sério: o local tem o primeiro parque nacional marinho do país e uma hotelaria de luxo que tenta ter impacto zero nos manguezais e corais. Há até locais "off the grid", como o Nayara Bocas del Toro, ecoresort autossuficiente com energia totalmente solar e purificação da água da chuva para reuso. Outros exemplos pelo mundo vão da Austrália à África do Sul.

Sustentabilidade além da natureza

No senso comum, existe uma ideia simplificada de que turismo sustentável está ligado apenas à natureza, mas a realidade é mais complexa. O próprio guia reforça que sustentabilidade também envolve impacto social, geração de renda local, inclusão e governança. Ou seja, sustentabilidade é, sobretudo, feita de pessoas.

Projetos ligados à hotelaria mostram isso de forma muito clara, com iniciativas que ampliam renda, geram emprego e criam oportunidades reais em comunidades locais. Quando o turismo funciona bem, ele preserva destinos e fortalece quem vive neles.

O mais interessante é perceber que essa transformação já está em curso dentro do próprio setor. Grandes grupos, como a Accor, que tem mais de 330 hotéis no Brasil, vêm implementando mudanças que parecem simples, mas têm impacto direto na sua enorme rede hoteleira.

Entram na conta a redução no consumo de água, energia e desperdício de alimentos. Em 2025, 77 itens de plástico de uso único foram descartados em 84% dos hotéis de marcas intermediárias e econômicas do grupo nas Américas.

Outros, como o Club Med, que opera três resorts no Brasil, avançam na eliminação de plásticos descartáveis e no incentivo a produtores locais.

Há também movimentos importantes com impactos ainda mais locais, como as ações do grupo Amarante, que administra resorts na costa de Alagoas. O grupo envolveu milhares de pessoas na construção de suas diretrizes ESG e capacitou mais de mil pessoas de comunidades locais por meio de cursos gratuitos profissionalizantes.

Além disso, fez uma parceria com a Biofábrica de Corais, que propõe um turismo regenerativo, para avançar no cultivo de mais de dois mil corais na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, uma das maiores unidades de conservação marinha do Brasil.

O grupo Nannai, que mantém hotéis em Muro Alto e Noronha (PE) e que abrirá em breve uma unidade em São Miguel dos Milagres (AL), tem atuado em iniciativas sociais por meio do Instituto Ianann. A ideia é capacitar jovens da comunidade local de Ipojuca (PE), onde fica Muro Alto, com oficinas abertas, mentorias e treinamentos.

A mensagem é clara: o diferencial começa a se tornar o padrão. Os exemplos provam que cada local e gestão atua de diferentes maneiras, dadas as particularidades de localização, de tamanho, de público e de estratégia. As soluções não são universais, mas a aplicação de uma agenda ESG adaptada é cada vez mais inevitável.

À mesa: aqui está o maior desafio

Se há um ponto em que o turismo ainda precisa avançar com urgência, é justamente naquele em que a oferta parece mais farta: na gastronomia. Buffets generosos, cafés da manhã fartos, mesas que convidam ao excesso. Durante muito tempo, isso foi sinônimo de hospitalidade. Mas hoje, começa a ganhar outro significado.

Estudos internacionais do setor da hospitalidade apontam que hotéis podem desperdiçar entre 12% e 18% de tudo o que compram em alimentos. Os volumes chegam a até um quilo de comida por hóspede, por dia, segundo levantamentos do setor compilados por plataformas como a FoodSight.

E o impacto vai muito além da cozinha. Dados de iniciativas globais como a Winnow Solutions, que monitora desperdício alimentar na hotelaria, indicam que cerca de 19% dos alimentos disponíveis no mundo são desperdiçados, contribuindo de forma significativa para as emissões de gases de efeito estufa.

Esses excessos, que já foram enxergados como "necessários", começam a ser questionados. Essa é, talvez, uma das mudanças mais significativas no turismo atualmente: deixar a abundância de lado e entender que servir bem é servir melhor.

Ao mesmo tempo, o próprio Guia da Hospitalidade Sustentável 2026 mostra que iniciativas focadas em gestão de resíduos e controle de desperdício já vêm reduzindo de forma consistente o volume de alimentos descartados na hotelaria brasileira.

O novo olhar do viajante

Cada vez mais, o viajante quer entender de onde vem o que consome, quem está por trás daquela experiência e qual é o impacto daquela escolha. Eu me incluo nesse movimento.

Isso aparece na gastronomia, quando valorizamos ingredientes locais; aparece na hospedagem, quando escolhemos endereços que respeitam o entorno; e aparece, principalmente, na forma como nos relacionamos com os destinos.

Falar de turismo sustentável hoje é, acima de tudo, falar de futuro. Para tanto, é necessário mudarmos a ideia de que viajar é estritamente um consumo. Para buscarmos um equilíbrio natural e social, viajar deve ser um ato de conexão.

O Brasil, com sua biodiversidade e diversidade cultural, tem um papel central nesse cenário. Mas isso exige responsabilidade e acaba respingando também na atração do turismo internacional, que resulta em uma grande geração de renda. O Brasil registrou em 2025 a chegada de 9,3 milhões de turistas estrangeiros, o melhor número da série histórica. Os gastos desses visitantes somaram cerca de US$ 7,9 bilhões (cerca de R$ 41,5 bilhões)

Mas temos potencial de ir além. Atualmente, a promoção internacional do turismo brasileiro é baseada em práticas ESG, ou seja, a Embratur usa princípios de sustentabilidade ambiental e social como pilares. A estratégia não é inventada: ela reflete as nossas riquezas e também a crescente demanda global por viagens mais responsáveis.

Além da preservação dos nossos recursos naturais e culturais, a sustentabilidade como base dessa abordagem pode atrair mais investimentos para o setor e a construção de uma reputação internacional positiva para o turismo brasileiro, reforçando nossa competitividade.

Trazer essa pauta para o centro da conversa é essencial para garantir que o crescimento do turismo aconteça de forma prudente, respeitando territórios, culturas e pessoas. A lógica precisa ser a de um verdadeiro ganha-ganha, ou seja, bom para quem viaja, justo para quem recebe e positivo para o ambiente.

No fim, a mudança mais importante é a transformação da nossa perspectiva. Uma viagem memorável não precisa ser resumida apenas pelas memórias que trazemos na bagagem. Viajar bem também envolve o impacto que deixamos no caminho.

 

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