Barulho em hotéis: por que este é o inimigo número um dos hóspedes
Viajantes relatam noites mal dormidas por causa de ruídos em quartos de hotel; especialistas apontam que esta é a maior preocupação após a limpeza

Em uma viagem de trabalho ao Mississippi no ano passado, Jason GaNun acabou testando três quartos de hotel diferentes em busca de paz e sossego antes de um dia agitado — e nenhum deles resolveu o problema.
No primeiro, ele disse que o ar-condicionado "antigo" era um dos mais barulhentos que já tinha visto. Quando se mudou para o segundo quarto, foi o barulho do refrigerador que atrapalhou o sono. E, ao lado do terceiro quarto que tentou, outros hóspedes do hotel estavam fazendo uma festa.
"Eu conseguia ouvir tudo o que eles estavam fazendo", disse GaNun, gerente de projetos de uma empresa de demolição na Pensilvânia, que viaja a trabalho a cada duas semanas.
Para Lindsey Maness, o problema durante uma estadia a trabalho em um hotel em Austin, no Texas, foi um elevador barulhento perto do seu quarto. Grávida de sete meses na época, Maness conseguia ouvir o "tilintar" dos elevadores abrindo e fechando a noite toda. E esse não era o único problema.
"As paredes eram finíssimas, e eu conseguia ouvir as pessoas no quarto ao lado conversando até tarde da noite", disse Maness, que agora trabalha para a National Sleep Foundation. De longe, foi "a pior noite de sono" que ela já teve em um hotel.
Qualquer pessoa que se hospeda regularmente em hotéis provavelmente já enfrentou o mesmo problema: o barulho.
Ruído externo, ruído interno, não importa. Depois da limpeza, é a principal preocupação dos hóspedes de hotéis, de acordo com a ProStay, uma empresa de software e consultoria que atende hotéis.
Com a crescente importância de um sono de qualidade para a saúde e o bem-estar, os hóspedes de hotéis estão cada vez mais convictos de que uma boa noite de sono é um fator essencial no momento da reserva. No entanto, lidar com problemas de ruído é desafiador, em parte porque as fontes variam — pense no trânsito em uma rua movimentada em Manhattan versus gritos em um quarto vizinho. Além disso, a mitigação de ruídos às vezes envolve obras ou reformas custosas.
Eis o que está em jogo — e o que os hóspedes podem fazer para proteger o seu sono.
É para isso que serve um hotel, não é?
Embora ter um lugar para dormir sempre tenha sido a principal solução que os hóspedes buscam nos hotéis, criar um ambiente calmo e silencioso nem sempre foi a preocupação predominante dos hoteleiros, afirma Chekitan S. Dev, professor da Escola de Administração Hoteleira Nolan da Universidade Cornell e especialista em marketing e branding na área da hotelaria.
"Isso não foi priorizado de forma significativa pelos hotéis até o final dos anos 1990", disse Dev à CNN Travel.
Uma manifestação dessa mudança foi uma campanha publicitária do Holiday Inn Express que durou mais de uma década a partir de 1998 e mostrava pessoas comuns realizando tarefas complexas, como cirurgias cerebrais, que estavam muito além de sua expertise profissional. Quando questionadas se eram capazes de realizar a tarefa, elas se justificavam dizendo: "Me hospedei em um hotel Holiday Inn Express ontem à noite."
Mas, em muitos casos, os hotéis investiram mais tempo e dinheiro nos últimos anos na criação de saguões atraentes, restaurantes sofisticados e instalações para exercícios físicos.
No entanto, à medida que os preços dos hotéis sobem, as expectativas dos hóspedes também aumentam e, no fim das contas, eles precisam dormir.
"Se você está me cobrando US$ 400 (mais de R$ 2 mil) por noite em um hotel, eu espero que o quarto seja silencioso", disse Dev.
Simon Chapman, gerente-geral do hotel The Benjamin em Nova York, afirma que os viajantes de hoje estão muito mais atentos à "qualidade do sono".
"Eles não perguntam mais apenas se a cama é confortável; eles pensam no ambiente completo — som, luz, temperatura do quarto, suporte do travesseiro e com que facilidade podem se desconectar da tecnologia", afirmou em um e-mail.
O valor de oito horas de sono profundo tornou-se mais evidente para os hóspedes em uma era de aplicativos de meditação e rastreadores de atividades físicas vestíveis que monitoram o sono.
"A importância do sono está se tornando cada vez mais central na vida das pessoas comuns, considerando todo o trabalho que elas precisam realizar em seu ambiente doméstico habitual”, disse John Lopos, CEO da National Sleep Foundation. "E quando elas viajam a trabalho, por que deveriam abrir mão disso?"
O que os hotéis podem controlar

Os proprietários de hotéis podem fazer muito para minimizar o ruído para todos os hóspedes, principalmente quando estão construindo novas propriedades.
Lopos diz que "se houver nova construção, eles definitivamente devem pensar em coisas como mitigação de ruído, na fase de projeto e construção, incluindo a seleção de materiais. O que estão fazendo para gerenciar som, luz e clima?"
Existem normas para transmissão de som nos códigos de construção modernos.
De acordo com Glenn Nowak, professor associado de arquitetura da Universidade de Nevada, em Las Vegas, uma classificação de transmissão sonora (STC) de 50 é "o padrão de referência".
Hotéis cujos quartos são construídos com essa pontuação de som tornariam uma conversa normal "inaudível" no quarto ao lado e uma "música alta seria bastante abafada."
O problema? "Muitos hotéis ao redor do mundo foram construídos antes que tais padrões fossem estabelecidos", comentou Nowak à CNN Travel.
E, em propriedades mais novas, reformas às vezes reduzem inadvertidamente a classificação acústica de um hotel.
Seja a propriedade antiga ou nova, o principal obstáculo costuma ser financeiro. Todas essas considerações voltadas para a mitigação de som custam dinheiro.
"A questão é que o investimento necessário para proporcionar uma boa noite de sono é proporcional ao preço do quarto de hotel", disse Dev. "Às vezes, os hotéis não investem o valor necessário."
As propriedades acústicas dos materiais, contudo, variam bastante. Nowak afirma que, quando se trata de atenuação de ruído, uma "parede de concreto moldada no local" costuma ser "significativamente superior a uma parede com estrutura metálica."
No entanto, para o hotel, isso se traduz em um investimento maior.
"A parede de concreto leva mais tempo para ser construída, é menos flexível e tem custos de mão de obra mais altos", disse. "Uma parede de concreto é muito mais pesada do que uma parede com estrutura de perfil metálico, portanto, essa decisão de projeto impactaria todo o sistema estrutural do edifício."
Isso também se aplica à construção de paredes duplas, disse Nowak, que estão "entre as estratégias mais avançadas para separar acusticamente cada quarto do outro", mas aumentam os custos de construção.
Além da construção física de um hotel, que pode ou não ter sido projetada para atenuar o ruído, os viajantes geralmente também enfrentam sistemas de reserva que não permitem escolher quartos em áreas específicas que poderiam ser mais silenciosas.
Normalmente não há esquemas como os que as companhias aéreas oferecem para que os viajantes escolham sua localização ideal — janela ou corredor, frente ou fundo. Infelizmente, não é possível ver quais quartos de hotel estão ocupados ou onde estão localizados.
Viajantes frequentes, como GaNun, dizem que quartos em andares mais altos ou no final dos corredores são mais silenciosos. Mas, mesmo que um hóspede antecipe o problema e tente encontrar uma solução, como reservar um quarto de canto, não é fácil fazê-lo sem falar com alguém no local.
Dev diz que é algo que o irrita profundamente e que discute frequentemente com gerentes gerais de hotéis e com seus alunos.
"Você pode ver cada assento disponível no avião", diz ele, referindo-se à reserva de voos online. "Por que não posso fazer o mesmo quando reservo um hotel?"
GaNun concorda. "Deixe-me escolher onde fico", disse.
Dev diz que algumas redes estão estudando essa mudança nas reservas, mas equilibrar as necessidades de limpeza com uma variedade de horários de chegada e saída não é tarefa simples.
Há também preocupações de segurança que impedem os hotéis de exibir os níveis de ocupação durante o processo de reserva online.
Alguns hotéis estão comercializando seus quartos mais silenciosos para viajantes que buscam uma experiência de sono especialmente restauradora. Sob o guarda-chuva do "turismo do sono", eles frequentemente vêm acompanhados de comodidades, como opção de travesseiros ou máscaras de dormir. Mas tudo isso tem um preço elevado que o viajante médio dificilmente pagaria por uma estadia comum em um hotel.
Os hóspedes podem, é claro, ligar diretamente para o hotel para pedir um quarto mais silencioso no final do corredor ou longe do elevador, ou ainda mencionar suas preocupações com o barulho na seção de observações do sistema de reservas online. Esses pedidos também podem ser feitos no check-in, embora as opções se reduzam quando a ocupação é alta.
O que os hotéis não podem controlar

O ruído externo apresenta seus próprios desafios. Em Nova Orleans, podem ser explosões repentinas de som de músicos que passam por ali.
Quando Silvia Passiflora viajou para Nova Orleans, a música vinda de fora do quarto do hotel a acordou. Sendo musicista, Passiflora sabe que Nova Orleans é um polo de música ao vivo, então isso não a incomodou muito. Mas a animação da madrugada definitivamente penetrou as paredes do hotel.
"Eu ficava acordando às 2h, 3h, 4h da manhã por causa da música", disse ela.
Os sons vindos do exterior frequentemente não são constantes e, por isso, podem ser bastante perturbadores para um viajante.
O The Benjamin, por exemplo, está localizado na Lexington Avenue com a 50th Street em Manhattan, a alguns quarteirões da Rockefeller Plaza e de outras atrações turísticas populares.
"Nenhum hotel — especialmente um no coração de Manhattan — consegue eliminar todos os sons", diz Chapman, o gerente-geral, acrescentando: "A atividade da cidade pode ser imprevisível."
Muitos imóveis urbanos, como The Benjamin, investiram em janelas com múltiplas camadas de vidro e cortinas blackout, que podem bloquear tanto a luz quanto o som. Na ausência de mudanças maiores que pudessem reduzir as reclamações de barulho, muitos hotéis agora distribuem rotineiramente protetores auriculares e máscaras de dormir.
E isso é útil porque alguns quartos — ou áreas do hotel — são mais barulhentos do que outros.
Maness, que passou a noite observando o movimento do elevador do hotel, disse que seu quarto ficava no primeiro andar, onde os sons costumam reverberar. Ela aprendeu muito com sua péssima noite no Texas.
"Agora eu peço quartos de hotel o mais longe possível do elevador e tento reservar quartos sem hóspedes adjacentes quando possível", disse Maness.
Chapman, o gerente-geral de The Benjamin, incentiva esse tipo de solicitação, dizendo que os hóspedes podem indicar "andar mais alto, localização mais tranquila ou quarto longe do elevador" e, se a disponibilidade permitir, os pedidos serão atendidos.
Muitas grandes redes hoteleiras também enfrentam outro problema: atendem a uma ampla gama de pessoas com necessidades diversas, incluindo viajantes a negócios reunidos para uma conferência, casais em um fim de semana romântico e famílias que querem entreter as crianças. Para este último grupo, o que é melhor do que um hotel com piscina?
Quando Marie Cloutier se hospedou em um hotel econômico em Massachusetts durante uma conferência, a piscina ficava em um átrio no térreo, no centro da propriedade, onde todos podiam ver — e ouvir — a movimentação. Ela presumiu, erroneamente, que a diversão diminuiria à noite.
"Quando liguei para o gerente do hotel, ele disse que as crianças precisavam brincar e que o resto de nós podia aguentar!", disse.
É claro que alguns dos motivos pelos quais os hóspedes têm dificuldade para dormir durante as viagens não têm nada a ver com a espessura das paredes ou com o barulho do corredor.
Lopos diz que, especialmente nas viagens a trabalho, "você sai da sua rotina, está socializando, e isso é estressante".
Os hóspedes de hotéis frequentemente tomam um drinque a mais no bar do saguão. Comem muito logo antes de dormir. E ficam acordados até mais tarde do que o habitual. Tudo isso afeta o sono.
Como aumentar as chances de uma estadia tranquila

Os consumidores têm cada vez mais a possibilidade de personalizar outros produtos e serviços que adquirem. Será que um dia isso poderá significar um sistema de reservas online que permita aos viajantes ter maior controle sobre os quartos que lhes são atribuídos nos hotéis? Talvez.
"O controle está se deslocando do operador para o cliente", afirma Dev.
Mas pode levar algum tempo para que os hotéis se adaptem aos hóspedes que cada vez mais consideram uma boa noite de sono a comodidade mais importante que um hotel pode oferecer, mas não estão dispostos a pagar um preço exorbitante por uma suíte exclusiva para dormir.
Enquanto isso, os hóspedes de hotéis muitas vezes precisam encontrar soluções por conta própria.
Além de solicitar partes mais silenciosas e menos movimentadas de um hotel, você pode consultar sites, incluindo The Quiet Hotels e outro de nome semelhante, Quiet Hotels, que atribuem pontuações aos hotéis com base no nível de silêncio que oferecem.
O site The Quiet Hotels, por exemplo, atribui avaliações a hotéis em Nova York, Atlanta, Los Angeles e muitas outras cidades. Hotéis com pontuação igual ou superior a 90 são considerados "excepcionalmente silenciosos". O site explica sua metodologia: os editores avaliam a vizinhança do hotel em busca de vias movimentadas ou vida noturna, e também analisam a construção do edifício, prestando atenção à transmissão de som, à qualidade das janelas e ao posicionamento dos quartos.
Assim, em sua entrada sobre The Lowell em Manhattan, por exemplo, os autores do site afirmam que o hotel está em um quarteirão residencial da East 63rd Street, sem tráfego de passagem, além de ter uma "baixa quantidade de quartos distribuídos por quatorze andares silenciosos".
Já a descrição do Hotel Commonwealth, em Boston, cita a "construção pós-2003 em concreto e aço com vidro de alto isolamento acústico". Os hóspedes também podem reservar quartos voltados para um pátio interno. Vale notar que nenhum dos hotéis listados é uma propriedade econômica, mas alguns têm preços moderados.
Nowak recomenda propriedades mais antigas, como o The Peery Hotel em Salt Lake City, Utah, construído em 1910 com "maciças paredes de tijolos estruturais" e que consta no Registro Nacional de Lugares Históricos.
O gerente-geral, Todd Wheeler, afirma que o "trabalho artesanal histórico" empregado na construção do hotel contribui para tornar a propriedade relaxante.
"Muitos hóspedes apreciam a sensação de tranquilidade proporcionada pela sólida construção em alvenaria do edifício", disse.
Lopos recomenda que todos os viajantes adotem práticas que favoreçam o sono, como receber bastante luz natural durante o dia, praticar exercícios e manter um horário regular de refeições. Fechar bem as cortinas antes de dormir e reduzir a temperatura do termostato também ajudam.
Lopos ainda viaja com um aparelho de ruído branco para onde quer que vá, e os hotéis estão cada vez mais equipando os quartos com despertadores modernos que oferecem uma variedade de configurações de som.
As taxas de ocupação hoteleira têm sido bastante elevadas este ano, com propriedades americanas registrando níveis recordes, de acordo com um relatório da CoStar e da Tourism Economics.
É uma boa notícia para o setor de turismo, mas, para os hóspedes de hotel incomodados por elevadores barulhentos e outros hóspedes indisciplinados, isso pode soar apenas como mais ruído.
Portanto, para garantir, não se esqueça de levar seus protetores auriculares na mala.



