Budapeste e os vinhos da Hungria: uma viagem entre história e terroirs

Da história à mesa, Budapeste revela diferentes camadas da Hungria, enquanto as regiões de Eger e Tokaj mostram a riqueza dos vinhos húngaros que atravessam gerações

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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A Hungria é um prato cheio para quem aprecia a harmonia entre passado e presente. Em Budapeste, a história acompanha todas as nossas andanças, com monumentos e símbolos que nos lembram as dores, as conquistas e as transformações vividas pelo país ao longo dos séculos. Ao mesmo tempo, antigas construções ganham novos significados e a gastronomia local é reinterpretada, ajudando a escrever mais um capítulo desse livro.

Além da capital, minha jornada para a 13ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia apresentou um universo à parte: os vinhos da Hungria. Parti para o interior do país para conhecer regiões como Eger e Tokaj, que, além de revelarem boas surpresas nas taças, guardam histórias e legados transmitidos de geração em geração.

A seguir, faço um convite: venha conhecer Budapeste, porta de entrada da Hungria, mas estique o roteiro e dê uma chance aos outros patrimônios do país. Confie em mim: vale a pena.

História e fé em Budapeste

Budapeste é uma das cidades mais belas da Europa, não apenas pela paisagem, mas pela forma como revela várias camadas a cada esquina. Diferentes arquiteturas e símbolos nos lembram da resiliência da cidade em períodos conturbados, como a Segunda Guerra e o comunismo. Mesmo assim, suas igrejas e monumentos continuam em pé para nos contar essa história.

Exemplo disso é o Bastião dos Pescadores, no alto da Colina do Castelo, que possui uma vista panorâmica deslumbrante da cidade, melhor aproveitada em dias de sol. Mas o endereço vai além, já que guarda parte da identidade da capital húngara.

Aqui ficavam muralhas de proteção como parte de uma estrutura militar, transformada hoje em terraço panorâmico, valorizando a Igreja de Matias, que fica ao lado. O nome remete à antiga Cidade dos Pescadores, área que ficava abaixo das muralhas. Tem uma aparência de fortificação medieval, mas foi erguida, reconstruída e reformada ao longo dos anos.

"As torres representam as sete tribos fundadoras da Hungria, que vieram da Ásia. Cada torre representa essa vida nômade", conta Kitty Pavone, guia de turismo e fundadora do receptivo Budapeste para Brasileiros. Os telhados da igreja vizinha chamam a atenção por conta do material, pirogranito, que aparenta ter uma textura que mescla cerâmica e borracha, de alta resistência. As áreas externas e os terraços inferiores do Bastião podem ser visitados de graça, mas há outras modalidades de ingressos.

Outro exemplo notável de como história e religião se misturam em Budapeste é a Sziklatemplom, conhecida como Igreja na Pedra ou Igreja na Caverna. Logo de cara, ela já nos transmite essa ideia de resistência e fé. O espaço, construído dentro de uma caverna no monte Gellért, concentra diferentes momentos da história húngara.

A igreja nasceu ligada à tradição católica e, durante períodos de guerra e instabilidade, tornou-se também um espaço de abrigo. Com a chegada do regime comunista, porém, a relação entre fé e poder ganhou outra dimensão: a igreja foi fechada e sua entrada chegou a ser isolada.

Com o fim do regime, a Sziklatemplom foi reaberta e ganhou novos significados. Hoje, permanece como um templo católico ativo, recebendo missas e fiéis. Nos horários das missas, turistas não são permitidos. Ingressos e horários podem ser consultados no site.

E não acaba por aqui: o roteiro por Budapeste reúne outros endereços emblemáticos, como o Castelo de Buda, a Basílica de Santo Estêvão, a Ópera Estatal, a Avenida Andrássy, a Praça dos Heróis e a Ponte das Correntes. Entre os destaques estão ainda a Grande Sinagoga e o Parlamento Húngaro, cartão-postal da cidade e símbolo da grandiosidade do antigo Império Austro-Húngaro.

Da tradição à reinterpretação: gastronomia local

A gastronomia local é, em muitos sentidos, uma colcha de retalhos de tradições da Europa Central. Para entendermos esse universo, vale começar pela cozinha tradicional e, depois, observar como ela vem sendo reinterpretada por chefs contemporâneos.

Uma porta de entrada é o Urban Betyár, restaurante que abriga um museu etnográfico, com objetos que ajudam a contar a história do país, incluindo peças relacionadas ao período soviético. O cardápio valoriza receitas húngaras e pode ser acompanhado por rótulos regionais.

A refeição começa de uma maneira bastante típica, com embutidos, queijos locais e pão. Nos embutidos, é interessante notarmos a presença generosa da páprica, um dos ingredientes mais emblemáticos da Hungria. Entre os pratos principais, o schnitzel é uma clássica e deliciosa pedida.

À noite, uma das minhas escolhas foi o Textúra. À frente da cozinha está o chef Ákos Sárközy, que trabalha com diferentes texturas e cria uma experiência sazonal que vai além do sabor. A inspiração, conta ele, vem de casa. Sua esposa é artista e pintora, e, às vezes, o chef diz pensar primeiro na composição visual do prato para depois chegar ao sabor.

Foi nessa mesma busca que estiquei minha jornada gastronômica até o Borkonyha Winekitchen, quase vizinho, restaurante com estrela Michelin também liderado pelo chef Ákos. Entre os pratos que experimentei, destaco uma paleta suína acompanhada de um ensopado de pulmão de porco. A carne estava no ponto certo, enquanto a combinação com picles e legumes trouxe um frescor que me surpreendeu.

Eu queria mostrar que a culinária húngara pode ser mundialmente famosa se soubermos como refiná-la e se soubermos adaptá-la ao espírito dos tempos atuais
Ákos Sárközi, chef do Borkonyha Winekitchen e do Textúra

Para complementar o roteiro gastronômico, vale conhecer os ruin bars, bares em prédios abandonados do antigo Bairro Judeu que transformaram a decadência em identidade. Outro endereço imperdível é o New York Café, inaugurado em 1894 e considerado um dos cafés mais bonitos do mundo.

Na gastronomia, entram na lista ainda o retrô Menza, com pratos típicos húngaros; o Felix Kitchen & Bar, instalado em um edifício de fachada neorrenascentista; o Hotsy Totsy, bar speakeasy com atmosfera retrô; o Rumour by Rácz Jenő, com uma estrela Michelin, que se esconde atrás de uma doceria; e o Gundel, que nasceu no final do século XIX, em plena Belle Époque, e que preserva a elegância da época.

Uma escapada pelas vinícolas da Hungria

Os vinhos são uma das facetas mais incríveis da Hungria, nos convidando a sair de Budapeste e conhecer o interior do país. As regiões vinícolas mostram outro patrimônio, construído ao longo de séculos e, muitas vezes, preservado por famílias, que guardam um "ouro líquido" nas taças.

O país possui 22 regiões vinícolas, e algumas das mais emblemáticas podem ser conhecidas em uma escapada de carro a partir de Budapeste. A cerca de 1h30 da capital, a região de Eger combina vinho e história. Foi ali que, em 1552, os húngaros resistiram ao avanço do Império Otomano.

Reza a lenda que, antes da batalha, os soldados locais bebiam vinho e, quando os turcos os viram com as barbas brancas manchadas de vermelho, imaginaram que estivessem bebendo sangue de touro. Daí teria surgido o nome Egri Bikavér, o célebre "Sangue de Touro", um dos vinhos mais emblemáticos da região.

Minha primeira parada foi na vinícola St. Andrea. "A região vinícola de Eger tem quase mil anos de história. Um dos vinhos mais conhecidos é o Eger Csillag, um blend de uvas. A primeira uva é a Pinot Gris. É um vinho único", explica György Lőrincz, fundador e enólogo da casa.

A visita também revela como a produção local vai além dos rótulos mais conhecidos. A vinícola trabalha com variedades menos familiares ao público internacional, como Kékfrankos, com notas de especiarias e referências a pimenta-preta. Entre os rótulos mais emblemáticos da St. Andrea está o Agapé, produzido com uvas cultivadas no alto da colina.

De Eger, a viagem pode continuar rumo a Tokaj, reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco. Aqui, a paisagem do vinho também está debaixo da terra. O território é cortado por uma extensa rede de adegas subterrâneas, formada por túneis de dezenas de quilômetros que criam condições favoráveis ao envelhecimento dos vinhos.

Mais de 20 vilarejos fazem parte da região, conhecida principalmente pelos vinhos doces e pelo histórico Tokaji Aszú, considerado um dos grandes vinhos de sobremesa do mundo.

Uma das dicas é fazer uma visita à Szepsy, vinícola familiar que está na 18ª geração de produtores. A presença de vulcões no passado resultou em solos específicos, enquanto as condições de umidade favoreceram o desenvolvimento da Botrytis, o chamado “mofo nobre”, fundamental para a produção dos grandes vinhos doces de Tokaj. Desse processo aparece um dos conceitos mais tradicionais da região: os puttonyos, escala usada para indicar o nível de doçura e concentração dos vinhos Tokaji Aszú.

Para viver toda essa experiência com mais calma, me hospedei no Minaro Hotel Tokaj - Mgallery Collection, instalado em uma antiga área de mineração. O passado do local foi preservado em diferentes elementos da arquitetura e da decoração, enquanto a estrutura atual aposta em bem-estar e vistas para as montanhas. É uma espécie de refúgio no campo que combina a experiência de enoturismo com dias de descanso.

 

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