Como Budapeste reinventou prédios abandonados e criou os ruin bars
Bares instalados em antigas construções degradadas transformaram a vida noturna de Budapeste e se tornaram um dos maiores símbolos da capital húngara
Por trás de algumas fachadas desgastadas de Budapeste, a cidade nos revela espaços boêmios dedicados à arte, à convivência e aos goles. Falo dos ruin bars, que, em vez de esconder as marcas do tempo, transformam a deterioração em parte de sua identidade, refletindo a diversidade cultural da capital húngara e sua capacidade de ressignificar o próprio passado.
Para quem gosta de descobrir a alma de um destino por meio de seus bares, ou simplesmente busca programas fora do óbvio, os bares em ruínas são uma das experiências mais autênticas de Budapeste. Frequentados tanto por moradores quanto por viajantes, tornaram-se símbolos da vida noturna da cidade.
Para as gravações da 13ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia, os ruin bars entraram no meu roteiro por oferecerem uma perspectiva bastante interessante de Budapeste, já que a capital húngara mescla a grandiosidade de seu passado imperial com uma cena contemporânea vibrante. Cortada pelo rio Danúbio, a cidade nos impressiona com monumentos históricos, cafés centenários e uma cena cultural que não deixa ninguém parado.
A origem dos ruin bars

Os ruin bars não são de hoje: o movimento ganhou força no início dos anos 2000, quando antigos edifícios do pré-guerra e pátios abandonados do histórico Bairro Judeu passaram a ser ocupados por jovens empreendedores.
Em vez de restaurar os imóveis, eles preservaram sua aparência original e transformaram a decadência em linguagem estética, combinando paredes descascadas, grafites, luzes, móveis garimpados e objetos vintage, muitos de segunda mão e até reciclados.
Embora hoje façam parte da paisagem urbana de diversas cidades europeias, Budapeste foi pioneira ao ocupar edifícios históricos dessa maneira. Criativos, despretensiosos e acessíveis, os ruin bars nos envolvem em uma atmosfera underground e nos lembram de que Budapeste preserva um admirável espírito de reinvenção.
O mais famoso dos ruin bars é o Szimpla Kert, considerado o pioneiro do movimento. Inaugurado em 2002 como um endereço para quem buscava bebidas a preços acessíveis em um ambiente descontraído, o espaço se transformou em atrativo turístico e um dos principais redutos culturais da cidade.
Por dentro do Szimpla Kert
O Szimpla Kert já é uma instituição de Budapeste. Com proposta simples, virou um dos locais mais visitados do destino.
"O Szimpla Kert é o mais autêntico. Ele conseguiu preservar esse prédio antigo, marcado pelos danos da Segunda Guerra Mundial. O interessante é que a decoração está sempre se transformando, já que novos objetos vão sendo incorporados ao espaço, criando um ambiente único", me conta Kitty Pavone, guia de turismo e fundadora do receptivo Budapeste para Brasileiros.
Esqueça a ideia tradicional de um bar: o Szimpla se espalha por vários andares e por vários cômodos, nos convidando a desbravar um mundo próprio, cheio de personalidade. As paredes são cobertas de grafites, os assentos são bancos rústicos de madeira, o piso é de concreto e plantas e bolas de espelhos decoram os tetos.
O ideal é sentar em alguns dos ambientes e tomar uma cerveja, mas o menu também reserva taças de vinhos locais, champagne, prosecco, comidinhas e doses de destilados, como a Pálinka, tradicional destilado de frutas da Hungria.
A atmosfera costuma ser mais tranquila durante o dia. À noite, o clima fica mais movimentado, com programação que costuma incluir música ao vivo e DJs. O espaço também recebe exibições de filmes e apresentações de banda, abrigando ainda uma galeria de arte. Regularmente, a equipe organiza uma feira de produtores locais e um mercado de pulgas.
Depois de ter percorrido quase todo o prédio, saí de lá com a certeza de que dificilmente conseguimos descobrir tudo o que existe aqui em uma única visita. Isso porque o Szimpla Kert acaba funcionando como um resumo de Budapeste em um só lugar: reúne as lembranças de um passado marcado por conflitos e a efervescente cena cultural que define a cidade hoje.
Outras opções pela cidade
De baladas a um pátio ajardinado que funciona como um oásis em meio à cidade, o Bairro Judeu de Budapeste reúne opções para diferentes estilos de viajantes.
Para quem prefere estender a noitada, a pedida é o Instant-Fogas (antigo Fogasház), um dos maiores complexos de vida noturna de Budapeste, que preserva a atmosfera dos ruin bars. O espaço reúne seis pistas de dança, cerca de 18 bares e ambientes com diferentes estilos musicais, que vão do techno ao rock, pop e música latina. Funciona diariamente, das 18h às 6h - haja fôlego!
Mais tranquila e diurna, outra opção é o Mazel Tov, que combina restaurante e bar em um ambiente dedicado aos sabores do Oriente Médio. Centrado em um jardim interno, o espaço recebe luz natural durante o dia e, ao cair da noite, ganha um clima de encontros.
O que fazer em Budapeste
Além dos ruin bars, outro endereço que considero imperdível é o New York Café, apontado como um dos cafés mais bonitos do mundo. Inaugurado em 1894, é um dos grandes símbolos de Budapeste. Instalado em um edifício de inspiração renascentista italiana com influências ecléticas, o café nos impressiona pelos lustres monumentais, afrescos no teto, colunas de mármore, esculturas e detalhes dourados. O menu reúne pratos típicos da culinária húngara, incluindo bebidas e doces tradicionais.
No âmbito cultural, coloque no roteiro: o Castelo de Buda, que abriga o Museu de História de Budapeste e a Galeria Nacional Húngara; o Bastião dos Pescadores, um dos mirantes mais bonitos da cidade e que parece ter saído de um conto de fadas; a gótica Igreja de Matias; a imponente Basílica de Santo Estêvão; a elegante Ópera Estatal Húngara; e a Avenida Andrássy, um dos principais bulevares da capital e Patrimônio Mundial da Unesco.
Adicione ainda a monumental Praça dos Heróis, que representa a formação da nação húngara; a Ponte das Correntes, primeira ligação permanente entre ambas as margens da cidade; a Grande Sinagoga, no coração do Bairro Judeu e a maior da Europa; e a Casa do Terror (Terror Háza), museu na antiga sede da polícia secreta que retrata crimes cometidos pelos regimes nazista e comunista.
Ao anoitecer, vale reservar um passeio de barco pelo Danúbio. Das águas, é possível admirar as margens históricas e ver o Parlamento iluminado. É um passeio que guardo com carinho na memória.
Para comer, coloque na lista o retrô Menza, do chef László Csizmazia, recheado de pratos típicos; o Felix Kitchen & Bar, que ocupa um edifício de fachada neorrenascentista construído para bombear água até o Palácio Real; o Gundel, clássico restaurante húngaro; e o Urban Betyár, com direito a espaço expositivo dedicado à cultura popular do país. Entre os estrelados, considere o Rumour by Rácz Jenő e o Borkonyha Winekitchen. Para beber, o Hotsy Totsy é um speakeasy que combina atmosfera vintage com uma carta de coquetéis criativos.
Para se hospedar, o Four Seasons Hotel Gresham Palace Budapest é um dos marcos mais elegantes da cidade. Às margens do Danúbio, em frente à icônica Ponte das Correntes, ocupa um palácio Art Nouveau inaugurado em 1906. Além da hospedagem de luxo, o endereço é um destino gastronômico por si só: o restaurante Kollázs Brasserie & Bar combina culinária húngara e francesa em pratos contemporâneos, enquanto o premiado MÙZSA Bar serve coquetéis autorais, espumantes, vinhos e pequenas porções em um ambiente elegante, ideal para um drinque com vista para o rio.


