Budapeste: um passeio pela festa de Santo Estêvão e a memória da Hungria
Entre celebrações populares, cartões-postais, boa gastronomia e memoriais históricos, a capital húngara revela como passado e presente convivem às margens do Danúbio

O rio Danúbio divide Budapeste em duas margens, mas a capital húngara não se resume em "lados". Pelo contrário: a cidade nos revela uma mistura de múltiplas personalidades, indo da imponência de sua arquitetura e do peso de sua história ao povo que transformou um passado marcado por guerras e conflitos em um destino vibrante, acolhedor e cheio de vida.
Uma das capitais mais preciosas da Europa Central, Budapeste tem cerca de 1,7 milhão de habitantes. É banhada pelo segundo rio mais longo do continente, o Danúbio, que conecta a cidade a diversos outros núcleos europeus. As águas fazem parte do roteiro de cruzeiros fluviais, que celebram sua grandiosidade e reforçam sua importância histórica como ponto de encontro entre Ocidente e Oriente.
Para a 13ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia, embarquei em uma jornada minuciosa por Budapeste, percorrendo desde seus símbolos mais marcantes até endereços frequentados pelos moradores.
Minha tarefa foi mergulhar no que a cidade sente, celebra e carrega. O momento não poderia ter sido mais oportuno, já que a viagem coincidiu com o Dia de Santo Estêvão, celebrado em 20 de agosto, o principal feriado nacional do país. Das cerimônias aos mercados de rua, passando pelo grandioso espetáculo de fogos sobre o Danúbio, a cidade inteira entrou em festa para celebrar suas origens.
A seguir, embarque comigo em um giro por Budapeste, incluindo cartões-postais, restaurantes e bares, além de lugares que preservam a memória de um passado doloroso, mas que nos lembram que a história existe para que seus erros jamais se repitam.
Símbolos da cidade e a presença judaica
Cartão-postal do país, o Parlamento Húngaro sintetiza o que é Budapeste. Erguido no fim do século XIX e aberto em 1902, foi projetado propositalmente com proporções extraordinárias, pensadas para transmitir a grandiosidade do Império Austro-Húngaro.
"Seu tamanho já impressiona, ainda mais com seu estilo neogótico. Um dos problemas foi o peso do edifício, porque ele é muito decorado, com mármore, com granito. É um edifício muito pesado, que chegou a afundar. Mas continua sendo o mais visitado da capital e ainda é utilizado pelos políticos húngaros", me conta Kitty Pavone, guia de turismo e fundadora do receptivo Budapeste para Brasileiros.

Os números do Parlamento impressionam por si só: são cerca de 700 cômodos, 20 quilômetros de escadarias e dezenas de quilos de ouro usados na ornamentação. Durante o dia, é impressionante entrar no edifício para admirar cada detalhe arquitetônico. Os ingressos saem por cerca de R$ 200 para visitantes de fora da Europa. À noite, a construção toda iluminada é perfeita para ser apreciada em um passeio pelo Danúbio.
Mas Budapeste também nos convida a olhar para capítulos mais dolorosos de sua trajetória. Um dos lugares mais impactantes é a Casa do Terror (Terror Háza), museu instalado no edifício onde funcionaram as polícias políticas dos regimes nazista e comunista.
"Foi aqui que nossos compatriotas foram torturados por motivos raciais. As pessoas eram selecionadas com base na classe social, definidas como amigas ou inimigas do regime, submetidas a interrogatórios e torturas", explica Farkas Sebestyén Lőrinc, historiador do museu. O ingresso sai por cerca de R$ 65.
Poucos quilômetros dali, às margens do rio, outro memorial emociona profundamente. Os Sapatos à Beira do Danúbio reproduzem dezenas de pares de calçados em ferro fundido, lembrando o massacre brutal cometido contra judeus durante a Segunda Guerra Mundial pelo partido nazista húngaro, que atirava suas vítimas no Danúbio depois de obrigá-las a deixar os sapatos na margem.
"É impossível não se arrepiar. Quem chega perto entende imediatamente a força desse memorial", comenta Kitty.
Porém, também encontramos a presença judaica contada sob uma outra lente, que fala mais sobre a força e a permanência da comunidade no país, que desde os séculos XV e XVI encontrou refúgio na Hungria, formando uma grande comunidade local no século XIX.
Foi nessa época que surgiu a Grande Sinagoga, inaugurada em 1859 e considerada, à época, a maior sinagoga do mundo, com capacidade para quase três mil pessoas. É um espaço rico em detalhes, onde diferentes culturas se misturam na arquitetura e na decoração. Os tíquetes estão disponíveis no site - preste atenção às regras de vestimenta.
No jardim ao lado, o cemitério e o Parque da Memória nos convidam a uma pausa, onde são celebrados aqueles que ajudaram a salvar vidas nos períodos de perseguições e guerras.

Budapeste em festa: Dia de Santo Estevão
Um dos períodos mais vibrantes para se visitar Budapeste é agosto, mais especificamente na semana do dia 20. A data é uma das mais importantes do calendário húngaro, quando se comemora o Dia da Fundação da Hungria.
O feriado nacional relembra Santo Estêvão, que fundou o país há mais de mil anos, e Budapeste inteira se transforma: há show de drones, fogos de artifício e comidas típicas nas ruas. Vi até ônibus chegando do interior trazendo pessoas para curtir a celebração, reforçando o papel cívico e até mesmo gastronômico da festa.
As celebrações se espalham por diferentes pontos de Budapeste. Na área do Castelo de Buda ocorre uma feira de artesanato popular. O Várkert Bazár, às margens do Danúbio, recebe um festival gastronômico. Já na Praça Vigadó e ao longo do calçadão do Danúbio, a programação inclui shows de música e diversas barracas de comida.
Durante o dia, andar pelas barraquinhas é imperdível. Os pães chamam a atenção logo de cara e, especialmente no dia de Santo Estêvão, simbolizam a abundância do campo. Me deliciei também com embutidos e notei que a páprica está em praticamente tudo.
Descobri até diferentes tipos de torresmo, cada um com sua textura e tempero. Os pretzels, servidos com queijo e sal, também roubam a cena, assim como os vinhos húngaros, que circulam em taças pelas mãos de quem passeia. Antes de provar qualquer coisa, aprendi uma palavra essencial: "egészségedre", que em húngaro significa "saúde".
Quando escurece, a festa continua nas margens do rio. Os fogos de artifício colorem o Danúbio em uma celebração digna de Réveillon, iluminando a cidade toda. É daqueles momentos de guardar na memória.
Entre coquetéis e menus degustação
Além da comida de rua, é nos balcões e na mesa que Budapeste revela sua criatividade. Escuro e intimista, uma boa noite pode começar no Hotsy Totsy, que seduz pela atmosfera de speakeasy e pela carta de drinques autorais. Localizado no Bairro Judeu, é acessado por uma portinha discreta.
O bar surgiu há cerca de oito anos, inspirado no espírito da Lei Seca. Aqui, tudo gira em torno do legado de uma gangue de contrabandistas. A carta mais recente presta homenagem à década de 1920 e busca inspiração nas grandes construções que marcaram o período. O resultado são coquetéis que traduzem conceitos de arquitetura para o copo.
A noite pode continuar com uma reserva no Rumour by Rácz Jenő, que se esconde atrás de uma doceria, a poucos metros do calçadão do Danúbio. Detentor de uma estrela Michelin, o espaço é rodeado por cortinas vermelhas, criando um ambiente teatral. Nós nos sentamos diante da cozinha aberta, sendo testemunhas de toda a performance.

"Comida é tudo. É linguagem. É universal e também a linguagem do amor", me disse o chef Rácz Jenő. Em outro momento, ele resumiu sua filosofia de trabalho: "Precisamos alimentar as pessoas e deixá-las felizes. Isso é o mais importante. Trabalhamos duro e vale a pena."
Atualmente, há dois menus degustação, ambos inventivos do início ao fim, com preços entre R$ 700 e R$ 1.180. O chef já trabalhou em cozinhas da Ásia e trouxe para o cardápio pratos inspirados na culinária de rua indiana, misturados com técnica europeia. O prato assinatura é uma couve-flor queimada, servida com molho hollandaise, que harmoniza com um chardonnay. Ao longo da noite, desfilaram rótulos das regiões de Tokaj e Eger, entre outros vinhos húngaros selecionados.
Para finalizar, destaco o Gundel, um dos ícones locais que, à sua maneira, é um museu vivo. O restaurante nasceu no final do século XIX, em plena Belle Époque, e o salão preserva a elegância da época. Foi frequentado por chefs de Estado, aristocratas e celebridades, e continua como um dos melhores endereços para uma refeição típica húngara.
Giro por Budapeste
O roteiro por Budapeste passa por vários outros endereços emblemáticos. Para ajudar na sua viagem, adicione algum "ruin bar" à programação. Nascidos no início dos anos 2000, os "ruin bars" ocupam prédios abandonados e pátios degradados do histórico Bairro Judeu, recuperados por jovens que, em vez de restaurar os imóveis, preservaram a aparência original e transformaram a decadência em identidade estética.
O mais famoso é o Szimpla Kert, pioneiro do movimento, com múltiplos ambientes, programação de música, feiras e até galeria de arte.
Além dos bares, outro endereço que considero imperdível é o New York Café, apontado como um dos cafés mais bonitos do mundo. Inaugurado em 1894, é um dos grandes símbolos de Budapeste. Instalado em um edifício de inspiração renascentista italiana, o café nos impressiona pelos lustres monumentais, afrescos no teto, colunas de mármore, esculturas e detalhes dourados. O menu reúne pratos típicos da culinária húngara.
No âmbito cultural, coloque no roteiro: o Castelo de Buda, que abriga o Museu de História de Budapeste e a Galeria Nacional Húngara; o Bastião dos Pescadores, um dos mirantes mais bonitos da cidade; a gótica Igreja de Matias; a imponente Basílica de Santo Estêvão; a elegante Ópera Estatal Húngara; e a Avenida Andrássy, um dos principais bulevares da capital e Patrimônio Mundial da Unesco. Adicione ainda a monumental Praça dos Heróis, que representa a formação da nação húngara, e a Ponte das Correntes, primeira ligação permanente entre ambas as margens da cidade.
Para comer, coloque na lista o retrô Menza, do chef László Csizmazia, recheado de pratos típicos; o Felix Kitchen & Bar, que ocupa um edifício de fachada neorrenascentista; e o Urban Betyár, com direito a espaço expositivo dedicado à cultura popular do país.
Além da hospedagem de luxo, o Four Seasons Hotel Gresham Palace Budapest é um destino gastronômico: o restaurante Kollázs Brasserie & Bar combina culinária húngara e francesa em pratos contemporâneos, enquanto o premiado MÙZSA Bar serve coquetéis autorais e pequenas porções em um ambiente com vista para o rio.


