Catalunha além de Barcelona: conheça Girona, joia medieval e gastronômica

Entre construções históricas, tradições catalãs e o legado dos irmãos Roca, cidade no nordeste da Espanha revela atrações deliciosas que justificam esticar o roteiro a partir de Barcelona

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia

Uma das portas de entrada mais concorridas da Europa, Barcelona me encanta pela maneira como reúne tantas camadas em um só lugar. Há a arquitetura monumental de Gaudí, os grandes mercados, restaurantes que estão entre os mais cobiçados da Espanha e uma vida urbana vibrante, cheia de personalidade, em que a herança histórica convive com a energia de hoje.

Mas, depois de tantas idas e vindas, é curioso notar como acabamos deixando de lado outras joias da Catalunha, região que esbanja destinos de fácil acesso e que guardam histórias próprias, sabores surpreendentes e um charme difícil de reproduzir em outro lugar.

Com mais de dois mil anos de trajetória e pouco mais de 100 mil habitantes, Girona é uma dessas cidades que merecem alguns dias a mais no roteiro pela Catalunha. Pelas vielas, "ramblas" e praças, a cidade condensa mais de vinte séculos de história e continua funcionando como um núcleo vivo onde gastronomia e a identidade catalã se misturam.

O Bairro Velho (Barri Vell) preserva uma atmosfera medieval, nos convidando a caminhar sem pressa até a imponente catedral, que mescla os estilos gótico, barroco e românico. Às margens do rio Onyar, casas de fachadas coloridas formam o cartão-postal da cidade. Não por acaso, Girona conquistou até Hollywood, ou melhor, os fãs de "Game of Thrones", já que ruas e construções históricas deram vida a cenários de cidades fictícias nas telinhas, como Braavos e Porto Real.

Girona também é o berço do universo dos irmãos Roca, que estão entre as figuras mais celebradas da gastronomia mundial. À frente do El Celler de Can Roca, restaurante que ostenta três estrelas Michelin e que faz parte do panteão dos "melhores dos melhores" do mundo do 50 Best, eles ajudaram a projetar Girona no mapa da alta cozinha internacional, com negócios que abrangem ainda chocolateria, sorveteria, bar de vinhos, hotéis e outros restaurantes nas redondezas.

Quer mais motivos para colocá-la no itinerário? Girona também funciona como ponto de partida para descobrir outros cantinhos especiais da Catalunha. Foi esse o caminho que percorri durante as gravações de episódios inéditos do CNN Viagem & Gastronomia, em uma jornada pela Costa Brava, pelo Empordà e pelo Priorat, entre praias mediterrâneas, vilarejos cheios de história e uma das regiões vinícolas mais fascinantes do mundo.

O que é a Catalunha?

Antes de chegar a Girona, vale entendermos o que torna a Catalunha tão particular. Situada no nordeste da Espanha, entre o Mediterrâneo e os Pireneus, a Catalunha é uma das 17 comunidades autônomas espanholas. Ou seja, não é um país soberano nem se separou da Espanha, mas tem governo, Parlamento e um conjunto de competências próprias, em áreas como educação, saúde, cultura e segurança.

A região é habitada por mais de 7,7 milhões de pessoas e é formada por quatro províncias: Barcelona, Girona, Lleida e Tarragona. Além de nomear a província, Barcelona é a capital e a cidade mais conhecida internacionalmente.

O idioma é uma das expressões mais marcantes da identidade regional. O catalão é a língua oficial na Catalunha ao lado do castelhano. No Vale de Aran, o aranês também tem status de língua oficial. Embora possa soar pouco familiar ao escutá-lo pela primeira vez, o catalão é uma língua românica que se desenvolveu a partir do latim entre os séculos VIII e X.

No geral, a história da Catalunha é marcada pela formação de instituições próprias, pela expansão comercial pelo Mediterrâneo e pela defesa da autonomia regional. Na Idade Média, a região integrou a Coroa de Aragão, uma importante potência mediterrânea. A região perdeu grande parte de sua autonomia após a queda de Barcelona, em 1714, durante a Guerra da Sucessão Espanhola.

No século XIX, viveu um renascimento cultural e político, interrompido pela ditadura de Franco (1939–1975), que reprimiu a língua e as instituições catalãs. Com a redemocratização da Espanha, a Catalunha recuperou sua autonomia, e a Generalitat, seu governo regional, foi restabelecida em 1977.

O que ver e fazer em Girona

Capital da província de mesmo nome, Girona é perfeita para uma escapada a partir de Barcelona, com acesso fácil por trem de alta velocidade: o trajeto entre as duas cidades leva cerca de 35 a 45 minutos. De carro, são aproximadamente 100 km, percorridos entre 1h15 e 1h30. O patrimônio histórico e arquitetônico está entre os grandes atrativos, mas a experiência fica completa ao nos deliciarmos com os sabores locais.

De origem pré-romana, Girona passou por diferentes domínios, incluindo o muçulmano e o franco, e se consolidou como centro político e religioso na Idade Média. Após sofrer destruições em guerras no início do século XVIII, a cidade iniciou sua expansão e industrialização no século XIX, quando parte de suas muralhas foi demolida, e viveu uma recuperação econômica a partir da década de 1950.

Para começar, minha dica é se perder pelas ruas (chamadas de "carrer") e praças do Barri Vell, o centrinho histórico, que concentra camadas romanas, medievais, judaicas, românicas, góticas e barrocas. Ali, a Rambla de la Llibertat é a principal avenida, repleta de cafés, restaurantes e lojas. Coloque no roteiro a Plaça de Catalunya, a Plaça del Vi, a carrer Nou, a carrer de Santa Clara e veja diferenças entre as partes moderna e antiga da cidade ao adentrar o bairro de Eixample.

Margeando o rio Onyar, as "Cases de l'Onyar" formam uma das imagens mais emblemáticas de Girona. Podemos apreciar melhor as casas coloridas a partir das pontes. A mais emblemática é a Pont de les Peixateries Velles, construída em 1877 pela Companhia Eiffel, doze anos antes da inauguração da Torre Eiffel, em Paris.

Não deixe de passear e fazer uma paradinha gastronômica na Plaça de la Independència, que ocupa o que já foi um convento. Hoje, é um dos principais pontos de encontro da cidade para comer tapas e curtir a atmosfera ao ar livre nos terraços sob as arcadas.

Outra joia arquitetônica que merece ser percorrida com calma é o bairro judeu, batizado de El Call. Nos limites do centro histórico, é um dos conjuntos judaicos medievais mais preservados de toda a Europa, nos transportando diretamente entre os séculos XII e XV.

Seguindo o caminho, nos deparamos com a imponente Catedral de Girona, dedicada a Santa Maria, erguida no ponto mais alto da cidade. A igreja carrega um mix de estilos que nos levam a diferentes momentos da história: pense que as fundações são românicas, o corpo é gótico e a fachada é barroca. As origens são do século XI e as obras "mais recentes" só foram finalizadas no século XX.

O interior do templo exibe uma nave gótica de 23 metros de largura, a mais larga nave gótica abobadada do mundo. Anexo à igreja, o Tesouro da Catedral abriga duas peças de grande valor histórico: a Tapeçaria da Criação é um raro tecido medieval que retrata cenas da criação do mundo segundo a tradição cristã; já o Beato de Girona é um manuscrito ilustrado do século X.

Do ladinho da Catedral, combine a visita com a Basílica de Sant Feliu, dedicada a São Félix, mártir cristão associado à história local. Foi a principal igreja de Girona antes de a Catedral de Santa Maria assumir esse papel. Entre os tesouros artísticos, há sarcófagos romanos e paleocristãos do século IV. A visita combinada entre a Catedral e a Basílica sai por 7,50 euros por adulto (cerca de R$ 42,50).

Para completar o passeio, os Banhos Árabes são outra relíquia arquitetônica de Girona. Construído no século XII, o edifício segue o estilo românico, com inspiração nas antigas termas romanas. No interior, podemos conhecer os espaços destinados ao vestiário e ao descanso, além de admirar a cúpula que se ergue sobre a piscina central. A entrada custa 3 euros por adulto (cerca de R$ 17).

Sabores catalães

O encanto de Girona também passa pela mesa, onde sabores tradicionais nos ajudam a entender a identidade catalã. Comece pelo pa amb tomàquet, pão esfregado com tomate fresco, azeite e sal, ou por uma seleção de fuet e outros embutidos típicos da região. Entre as especialidades locais, vale provar a botifarra dolça, uma linguiça de porco preparada com açúcar e aromas de limão e canela.

Para a sobremesa, o protagonista é o xuixo, doce de massa frita recheada com creme e envolta em açúcar. As maçãs cultivadas na região também aparecem em preparações doces e salgadas. Para acompanhar, o vermute é uma boa pedida antes da refeição, enquanto a ratafia, licor catalão feito tradicionalmente com nozes verdes, ervas e especiarias, nos convida a um brinde de encerramento.

Sempre digo que uma boa forma de conhecermos a cultura local é começar por um mercadão. Em Girona, o Mercat del Lleó reúne cerca de 50 bancas com produtos frescos e especialidades regionais. Entre peixes e mariscos, frutas, pães, doces, vinhos e embutidos típicos, o espaço nos oferece um retrato saboroso da mesa catalã. Funciona de segunda a sábado, das 7h às 14h.

O universo Roca

Para irmos além dos ingredientes e descobrirmos como a tradição catalã ganha novas roupagens, vale explorar o universo dos irmãos Roca. À frente do premiadíssimo El Celler de Can Roca, Joan, Josep e Jordi Roca construíram um ecossistema de hospitalidade que se estende por diferentes pontos de Girona, reunindo restaurantes, hotelaria, chocolate artesanal, sorvetes, confeitaria e uma maneira própria de pensar a comida, sempre em diálogo com a memória familiar, os ingredientes locais e a criatividade.

Fundado em 1986, o El Celler de Can Roca ganhou projeção internacional ao transformar referências da cozinha catalã em experiências contemporâneas, tudo com muita pesquisa, técnica e liberdade criativa. O restaurante conquistou três estrelas Michelin e foi eleito o melhor do mundo pelo ranking The World’s 50 Best Restaurants em 2013 e 2015, entrando no panteão dos "melhores dos melhores" do mundo.

Todo esse vínculo com as origens pode ser encontrado no Can Roca, restaurante de bairro aberto em 1967 pelos pais dos três irmãos. Foi ali, entre o balcão de bar e os aromas da cozinha caseira da mãe, que os três cresceram e entenderam os primeiros aprendizados da hospitalidade. O endereço, a poucos passos do El Celler de Can Roca, continua em funcionamento, com uma proposta de cozinha tradicional catalã e menu diário.

A criatividade da família ganha outras formas com a Rocambolesc, projeto que se desdobra em sorveteria, confeitaria e uma bikineria, especializada nos "bikinis", como são chamados na Catalunha os sanduíches prensados e tostados. Pelo centro, há ainda o restaurante Normal, onde a tradição ganha interpretações contemporâneas, e o Vii, na Plaça del Vi, bar de vinhos com atmosfera descontraída e pequenos pratos para compartilhar.

Outro capítulo desse universo é a Casa Cacao, inaugurada em 2020 em um edifício histórico na Plaça Catalunya. O empreendimento reúne hotel boutique com apenas 15 quartos, loja de chocolates, oficina de produção e café. Mais recentemente, a família ampliou a atuação para o Castell de Sant Julià de Ramis, a poucos quilômetros de Girona. Instalado em uma antiga fortificação, o projeto Esperit Roca combina restaurante, hotel e destilaria. A adega reúne cerca de 80 mil garrafas e o complexo abriga também o Restaurant Fontané, dedicado à cozinha catalã, em homenagem à mãe dos irmãos.

Entre celebrações e festividades

A primavera e o outono estão entre as épocas mais agradáveis para visitarmos Girona. Estive na cidade pela última vez em setembro e encontrei dias convidativos para explorar suas ruas a pé, com temperaturas amenas e menos movimento do que nos meses de verão.

Antes, entre abril e junho, temperaturas amenas também possibilitam caminhadas tranquilas para descobrir a cidade a pé. Em maio, o cenário medieval é transformado pelo Girona Temps de Flors, festival em que pátios, escadarias e monumentos recebem instalações florais, com percursos que misturam arquitetura, arte e natureza.

Após o verão, setembro e outubro marcam bons meses para fazer uma viagem à cidade e às redondezas. Em 11 de setembro, a Diada marca o Dia Nacional da Catalunha, data que lembra a queda de Barcelona, em 1714, durante a Guerra de Sucessão Espanhola. Ela tem um significado particular: em vez de celebrar uma vitória, lembra a perda de instituições e liberdades. Com o tempo, passou a representar a continuidade da identidade catalã e a reivindicação de direitos, cultura, língua e autogoverno.

No fim de outubro, Girona ganha mais agito com as Fires de Sant Narcís, principal festa anual da cidade, dedicada ao padroeiro local. Durante vários dias, shows, atrações populares, feiras, fogos de artifício e manifestações tradicionais ocorrem em diferentes espaços. Pelas ruas, é bacana observar personagens gigantes e os "correfocs", cortejos em que participantes fantasiados de diabos dançam entre fogos e faíscas.

Mas a jornada pela Catalunha pode ir além. A partir de Girona, faça como eu: vá conhecer Figueres, onde fica o Teatro-Museu Dalí, parada para quem deseja conhecer o universo surrealista do artista. Na Costa Brava, Cadaqués encanta pelas casinhas brancas e pela cor do mar. Já a região do Empordà é dotada de vilarejos medievais e paisagens rurais, enquanto o Priorat é um deleite para quem ama vinhos.

 

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