Conheça 6 vinícolas uruguaias que te levam a viajar de norte a sul do país

Com vinícolas espalhadas por todo o país, o Uruguai se consolida como um dos destinos favoritos para enoturismo na América do Sul

Giuliana Nogueira, colaboração para o Viagem & Gastronomia
Compartilhar matéria

Em meados dos anos 1980, o Uruguai já estava no mapa dos brasileiros que viajavam para o exterior. O câmbio favorável ajudava, assim como as praias, a vida noturna de Punta del Este e os cassinos. Como viajar para fora do Brasil ainda era algo para poucos, muita gente fazia a viagem de carro e passava as férias no país vizinho. O vinho, porém, ainda estava longe de ser uma das razões para atravessar a fronteira.

Duas décadas depois, o cenário começou a mudar. As viagens internacionais se popularizaram e o enoturismo ganhou força na Argentina. No Uruguai, as vinícolas levaram um pouco mais de tempo para entender que receber visitantes poderia ser tão importante quanto vender garrafas.

A Bodega Bouza foi uma das pioneiras nesta aposta. Inaugurada oficialmente em 2003, com o restaurante aberto diariamente desde 2005, levou cerca de dez anos para que o enoturismo se tornasse uma parte expressiva do empreendimento familiar. Hoje, a Bouza recebe cerca de 40 mil turistas por ano.

A lista de bodegas que recebem turistas é grande. Há nomes já conhecidos dos brasileiros, como Família Deicas, H. Stagnari, Bodega Carrau, De Lucca Wines, Bodega Garzón e Narbona, e outras em franco crescimento quando o assunto é receber visitantes: Casa Grande, Antigua Bodega, Pueblo Tannat, Cerro Chapéu e Alto de La Ballena.

Algumas optaram também por construir espaços de hospedagem, como Bracco Bosca, Viña Edén, El Legado, Pizzorno e Spinoglio.

Para quem pretende visitar a ProWine 2026, que acontece de 6 a 8 de outubro no Expo Center Norte, em São Paulo, é uma boa oportunidade para começar a conhecer um pouco mais sobre a produção de vinho do país vizinho. Neste ano, a feira contará com cerca de 40 produtores.

Mas, para quem vai viajar para o Uruguai, a escolha é mais complexa. Com uma semana, é preciso selecionar, em uma lista extensa, quais vinícolas visitar. Com propostas distintas, sempre digo que não há uma vinícola melhor para se visitar, mas aquelas que atendem melhor às expectativas de cada viajante. Além de bom vinho, boas histórias e hospitalidade são fatores que pesam na escolha.

Abaixo, selecionei algumas delas, em diferentes cantos do país e com propostas bem distintas, que nem sempre aparecem nos roteiros por aí, mas ajudam a compreender um pouco mais como o Uruguai ainda tem muito a ser descoberto em termos de enoturismo.

Vinícolas nos arredores de Montevidéu

1. Los Nadies

No bairro do Prado, a cerca de 15 minutos do centro de Montevidéu, a casa de Manuel Filgueira é uma antiga propriedade cercada por um jardim de plantas autóctones. A família do produtor vive ali, onde elabora seus vinhos e recebe visitantes, sempre com hora marcada.

Durante a visita, é possível conhecer as duas marcas criadas por Manuel. Sob o nome Los Nadies estão pequenas parcelas de vinhos estruturados, complexos, e espumantes produzidos pelo método tradicional, com elegância ímpar. Já a Bodega Urbana reúne vinhos mais descontraídos, que revelam o lado experimental do enólogo, com forte inclinação à baixa intervenção.

Os dois projetos podem ser degustados ali mesmo, na garagem da casa, acompanhados de uma refeição preparada pela companheira de Manuel e na companhia dos filhos, compartilhando com os visitantes vinhos, muito conhecimento e as histórias da família.

Bodega Los Nadies: Av. Buschental 3390, 11700 Montevidéu, Departamento de Montevidéu, Uruguai / Tel.: +598 91 771 711 / Visitas com hora marcada / Mais informações no Instagram.

Vinícolas em Canelones

2. Bodega Marichal

A Bodega Marichal fica em Etchevarría, no departamento de Canelones, a cerca de uma hora do centro de Montevidéu. É ali que a família, vinda das Ilhas Canárias, produz vinho desde 1938.

Hoje, a vinícola é conduzida pelos irmãos Juan Andrés e Alejandro Marichal, ambos enólogos e representantes da quarta geração. A depender do tamanho do grupo, é possível solicitar uma parrillada muito bem servida ou fazer uma degustação acompanhada de uma tábua de frios. O espaço não é um restaurante, mas acomoda bem pequenos grupos.

O mais interessante da visita é perceber a transformação da própria vinícola. De um lado, estão os clássicos mais potentes, como o Tannat A, com 20 meses de barrica. Do outro, a linha mais recente, Creaturas, traz vinhos frescos e jovens, com destaque para um delicioso Ancellotta, uma uva italiana pouco vista nos vinhos uruguaios.

Vale aproveitar a viagem também para provar a linha de Vermutes Flores, projeto de Andrés Marichal com seus sócios Álvaro Aniano e Salvador Banchero.

Bodega Marichal: R 64 km 48,5. Acesso pela: R. 5 km 39, Canelones Departamento, Uruguai (colocar o nome da vinícola no GPS) / Tel.: +598 4332 1949 / Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 9h às 18h / Mais informações no Instagram.

3. Casa Viggiano

Se a Albariño se tornou a uva branca mais amada do Uruguai, é preciso conhecer um de seus maiores apaixonados: o enólogo Martín Viggiano.

Responsável pelos vinhos da Bodega Cerro del Toro, Martín não nasceu dentro de uma vinícola como muitos produtores da região. Ao contrário, depois de anos trabalhando como jornalista, resolveu abraçar a profissão de enólogo e se aprofundar no tema. Entre viagens e temporadas na Espanha, foi construindo uma relação especial com a Albariño.

Mas Martín não parou aí. Em seu projeto pessoal, a Casa Viggiano apresenta microvinificações de pequenas parcelas. Se der sorte, conseguirá provar um delicioso Chenin Blanc ou, na linha Mar de Nos, castas ibéricas como Mencía e Caíño Tinto. Claro que os clássicos tannats e albariños também não podem faltar. A seleção, porém, depende do que o enólogo tiver disponível no dia da visita.

Aliás, a visita ao espaço é sempre feita na companhia dele, que também se dispõe a preparar a refeição para os visitantes. E ainda eventos com chefs convidados podem aparecer na agenda da casa. Nem é preciso falar: é necessário reservar com antecedência.

Casa Viggiano: Canelones Departamento, Uruguai (colocar o nome da vinícola no GPS) / Horário de funcionamento: sábados, das 12h às 17h / Reserva e mais informações no Instagram.

Vinícolas em Carmelo

4. Bodega Cordano - Almacén de La Capilla

Para quem está na região de Carmelo, localizada a cerca de uma hora da histórica Colônia do Sacramento, as opções de vinícolas ficam bem próximas umas das outras. Assim, dá para fazer várias visitas em um só dia.

O Almacén de La Capilla, da Bodega Cordano, fica a apenas cinco minutos de carro de El Legado e 12 minutos de Narbona. As três têm propostas bem diferentes: Narbona, com seu belo restaurante e uma hospedagem de cair o queixo; El Legado, com pequena produção de vinhos, hospedagem e um receptivo feito pela própria família; e a Bodega Cordano, pequena e com uma história que se confunde com a própria história de Carmelo.

Entre 1870 e 1896, o genovês Don Angel Cordano plantou as primeiras variedades de uva criolla na região. Algumas parreiras com 120 anos ainda existem nos fundos da propriedade. Foi somente em 1936, porém, que seus filhos começaram a elaborar vinhos com fins comerciais.

Hoje, a pequena produção está nas mãos da quinta geração da família Cordano, representada por Ana Paula Cordano e seu marido, Diego Vecchio. Ambos recebem os visitantes em um armazém de secos e molhados que parece parado no tempo, entre móveis e objetos antigos que contam um pouco da história dos imigrantes que chegaram à região.

A degustação dos vinhos pode acontecer no jardim atrás do armazém, embaixo de uma antiga parreira. É ali que se pode desfrutar da hospitalidade da família e de uma preciosa sensação de tranquilidade. Aqui, muito mais do que vinho, o Almacén de La Capilla é praticamente uma viagem no tempo.

Bodega Cordano - Almacén de La Capilla: Ana María Carpy 53, Colonia Estrella, Carmelo, Uruguai / Tel.: +598 99 544 255 / Horário de funcionamento: diariamente, das 11h às 18h / Mais informações no Instagram.

Vinícola em Rivera

5. Viñas del 636

Localizada em Rivera, no norte do país, literalmente do outro lado da estrada na fronteira entre Brasil e Uruguai, a pequena propriedade de Thiago Gutierrez divide o cenário do enoturismo da região com a uruguaia Cerro Chapéu e outras tantas vinícolas brasileiras que ficam em Santana do Livramento. Assim, o passeio pela fronteira pode ir muito além das compras no "free shop".

A produção de vinho é pequena, mas muito bem cuidada. O foco não está em fazer o mesmo vinho todos os anos, mas em fazer o melhor vinho possível, com a menor intervenção. Apaixonado pelo processo, Thiago faz praticamente tudo: do cuidado das vinhas à elaboração dos vinhos e à recepção dos visitantes. Por isso, é preciso marcar com antecedência para fazer uma degustação na vinícola.

Outra opção é acompanhar a agenda que ele publica no Instagram. Para este ano, já estão confirmadas as datas de 18 de outubro, 22 e 27 de novembro para quem quiser participar de uma parrilla com degustação. Além da companhia do produtor, os encontros contam também com música ao vivo.

Viñas del 636: Hector Gutierrez Ruiz Km 7, 40000 Rivera, Departamento de Rivera, Uruguai / Tel.: +598 91 723 636 / Eventos e mais informações no Instagram.

Vinícola em Maldonado

6. Bohemian by Fiore

O local não é exatamente uma vinícola, mas sim o espaço de degustação da enóloga Fiorella Faggiani, em Pueblo Éden, um minúsculo povoado a cerca de 50 minutos de Punta del Este.

Reconhecida em 2024 pelo Guia Descorchados como enóloga revelação do Uruguai, Fiorella produz atualmente cinco vinhos de baixa intervenção, com uvas compradas de outros produtores. Um deles é o Lacryma Christi, nome que na Itália está associado a uma denominação de origem aos pés do Vesúvio, elaborada predominantemente com a uva Piedirosso (mínimo de 80%), podendo levar outras uvas locais, como Sciascinoso e Aglianico. No caso de Fiorella, o vinho é 100% Piedirosso. Ela é, atualmente, a única enóloga no Uruguai a vinificar essa uva.

O resultado de seu trabalho são vinhos jovens, frescos e de muita personalidade, e a visita ao espaço funciona não apenas como oportunidade de degustá-los, mas se revela uma boa prosa com quem faz esses vinhos de forma independente.

Ainda no povoado, próximo ao espaço de Fiorella, está o restaurante La Posta de Vaimaca, que pode render um bom almoço. Para quem quiser aproveitar a viagem até a região, também dá para conhecer as vinícolas Viña Éden e Cofradía de La Sierra, ambas a cerca de quinze minutos de distância. É imprescindível agendamento prévio.

Bohemian by Fiore: El Mirlo, Plaza, 20098 El Edén, Departamento de Maldonado, Uruguai / Reservas e mais informações no Instagram.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Giuliana Nogueira

Giuliana Nogueira é brasileira, psicóloga, fotógrafa e assessora de comunicação. Não é enóloga nem sommelière, mas é enófila, apaixonada especialmente por vinhos uruguaios e pelo Uruguai. Mantém o Instagram @Instatannat, falando mais de vinhos uruguaios do que os próprios uruguaios. Sempre que pode, viaja até a terra dos nossos vizinhos, que sabem receber muito bem.

 

Acompanhe Viagens e Turismo nas Redes Sociais