Hotel mais antigo de Londres é “joia da coroa” no melhor bairro da capital

Repleto de história, Brown's Hotel, em Mayfair, eleva experiência britânica com hospitalidade sem igual em endereço vizinho a galerias de arte e lojas de grife

Saulo Tafarelodo Viagem & Gastronomia Londres

O ano da ascensão da Rainha Vitória ao trono do Reino Unido, em 1837, foi o mesmo da inauguração do Brown’s Hotel, o hotel mais antigo de Londres. Pelo menos é o que se pensava até pouco tempo atrás, quando se descobriu que o hotel é ainda mais antigo, de 1832.

Seja qual for a data, as portas abertas em Mayfair, luxuoso bairro da capital inglesa, viram de tudo: desde a primeira ligação telefônica da Europa, feita aqui por Graham Bell, passando pelas visitas regulares de Agatha Christie no salão de chá até jantares com a família real e a Princesa Diana.

Por mais que quase 200 anos tenham se passado desde a abertura, o hotel cinco estrelas mantém sua vitalidade de maneira ímpar, seja com o serviço afável e personalizado, seja com a alma de hotel boutique – apesar dos mais de 100 quartos – ou ainda com os refúgios gastronômicos de sotaque britânico.

Situado a alguns metros da Piccadilly e da Regent Street, duas das principais vias comerciais de Londres, e a 10 minutos do Palácio de Buckingham em uma agradável caminhada pelo Green Park, o vigor do hotel de selo Rocco Forte Hotels reside também em sua discrição, já que celebridades elegem o Brown’s justamente para não serem vistas, em que encontram um local de acolhimento, seja para se hospedar ou apenas para um jantar.

Logo na primeira noite o hóspede se sente como um habitué, com conversas cordiais com os porteiros e tratamento pelo nome. Logo, não é à toa que os brasileiros estão entre as cinco nacionalidades mais assíduas do endereço.

Tradição e estilo: as acomodações

Andar pelos corredores do Brown’s é se deparar com pisos levemente desnivelados: o hotel é a soma de 11 townhouses, as mansões urbanas inglesas, o que faz com que suaves desníveis sejam notados na junção delas, fato que não atrapalha em nada a experiência do hóspede e que adiciona uma camada histórica à estadia.

O que começou como uma pequena casa gerenciada por James Brown, mordomo do poeta Lord Byron, é hoje um hotel de 115 quartos individualmente decorados com um mix de toques clássicos e contemporâneos. Eles estão espalhados em sete níveis e, quanto mais alto o andar, mais baixo o teto. Isso não impede que os quartos de entrada, os executivos, a partir de 28 m², tenham seu charme com os janelões de construções tipicamente vitorianas nos últimos andares e papéis de parede sóbrios.

Os destaques, porém, vão para duas suítes: a Sir Paul Smith e a Kipling Suite. A primeira, com até 170 m², leva assinatura de um dos principais designers britânicos, que mantém uma loja a poucos metros do hotel. Ela conta com uma variedade de móveis personalizados e vintage, uma parede inteira coberta por obras de arte e fotografias escolhidas a dedo, assim como cobertores, almofadas e utensílios da própria coleção do estilista.

Já a Kipling Suite, de até 160 m², é uma homenagem ao autor Rudyard Kipling, que escreveu “O Livro da Selva” no próprio hotel e era hóspede regular. Cartas assinadas por ele entre o final do século 19 e o começo do 20 estão emolduradas na suíte, que tem janelas do chão ao teto, hall de entrada, sala de estar, papel de parede pintado à mão e móveis de época em contraste com escolhas modernas.

Seja qual for o tipo de acomodação, clássicos da literatura inglesa são mais do que mera decoração nas prateleiras. Jane Austen, Emily Brontë, Shakespeare e Charles Dickens são alguns dos autores entre as obras.

Um dos pontos altos dos quartos é a cama, que te abraça e que torna o ato de acordar uma batalha difícil contra as manhãs nubladas de Londres. Ao cair da noite, o serviço de abertura de cama, com preparação dos travesseiros, da colcha e da pantufa, deixa tudo mais convidativo. Clientes assíduos, ou que comemoram datas especiais, ganham mimos extras, como fronhas com as iniciais do nome, um verdadeiro luxo discreto.

Estão também garantidos banheiros em mármore e produtinhos de skincare de Irene Forte, filha de Sir Rocco Forte, detentor da Rocco Forte Hotels, por trás do Brown’s e de propriedades como Hotel de Russie, em Roma, e dos Verdura Resort e Villa Igiea, na Sicília.

Gastronomia britânica clássica

Liderada pelo estrelado chef executivo Adam Byatt, a gastronomia do Brown’s carrega a essência britânica nos menus e no serviço. O Charlie’s é o principal restaurante, servindo do café da manhã ao jantar.

Ele é clássico: muita madeira, papel de parede que remete à fauna e à flora e retratos nas paredes, incluindo da falecida Rainha Elizabeth II. Chamam a atenção os carrinhos de comida em todas as refeições – enquanto no café garçons distribuem croissants e queijos, no almoço lascas de salmão defumado são minuciosamente cortadas.

O café possui itens reconfortantes, sejam ovos diversos e avocado toasts, ou opções completas, com bebidas quentes e bandejas de frutas, queijos e pães. No almoço, aparecem salada de caranguejo, a deliciosa sopa de alcachofra com cogumelo e o filé de halibute no vapor com molho maltês e aspargos ingleses.

No jantar, o clima muda: os abajures são acesos e o ambiente de luzes baixas se revela sofisticado e íntimo. É boa hora para um bem servido filé de linguado diretamente da frigideira, de sabor amanteigado, ou para o ombro de cordeiro lentamente assado para dois. Cardápio plant based também está disponível.

Seja qual for a refeição, a louça é um dos destaques, com utensílios de porcelana fina meticulosamente adornados. Eles são protagonistas também no The Drawing Room, espaço para quem busca uma autêntica experiência de chá da tarde, servido a partir das 12h por a partir de 75 £ (R$ 478). Não tem como ser mais britânico do que isso.

O ritual típico ganha mais adeptos durante a tarde, em que comensais tem em mãos uma dezena de chás, incluindo sazonais e infusões herbais. Enquanto o piano é tocado, podem chegar à mesa torres com delicinhas diversas, desde os tradicionais sanduíches de pepino até típicos scones quentinhos com creme de leite e geleia de morango.

Já o The Donovan Bar, ideal para iniciar ou terminar a noite, envereda para o sotaque italiano. Isso porque ele é chefiado por Salvatore Calabrese, que trocou a Costa Amalfitana por Londres nos anos 1980 e é o inventor do Breakfast Martini. Batizado em homenagem ao fotógrafo inglês Terence Donovan, o bar de luzes baixas tem um ambiente sexy repleto de fotos em preto e branco. Se estiver em grupo, vale ficar no “Naughty Corner”, cantinho mais reservado com fotos “picantes” e mesa para várias pessoas.

Salvatore Calabrese junto de sua coleção de destilados vintage no The Donovan Bar, em Londres
Salvatore Calabrese com sua coleção de bebidas vintage no The Donovan Bar / Lateef Okunnu/Brown’s Hotel

As cartas mudam periodicamente com clássicos e autorais, mas o bar se diferencia com a seção de coquetéis Vintage, que variam de 350 £ a 5,5 mil £ (entre R$ 2 mil e R$ 34 mil), preços explicados pelo uso de destilados vintage, incluindo o drinque Salvatore’s Legacy, um dos mais caros do mundo. As comidinhas também fazem bonito, como as unidades de arancini e os pratos de prosciutto da Toscana, de salame da Sardenha e de mortadela da Emília-Romanha.

Passeios de arte e lojas da família real

Quadros de Marilyn Monroe de autoria de Andy Warhol à mostra na Halcyon Gallery, em Londres
Halcyon Gallery, em Mayfair, possui vasta coleção de obras de Andy Warhol / Saulo Tafarelo

Caminhar por Mayfair já é um baita passeio e nem é preciso sair do quarteirão para se esbarrar com um mundo de descobertas. O hotel realiza periodicamente caminhadas temáticas, as “Art Walks”, com acompanhamento da curadora e crítica de arte Maeve Doyle. Personalizados, eles podem focar em arte, moda ou artesanato e custam 150 £ por pessoa (cerca de R$ 950) com direito a docinhos e almoço.

Na caminhada de arte, por exemplo, Maeve leva os visitantes a galerias a alguns passos do Brown’s, como a Sotheby’s, a Maddox Gallery e a Halcyon Gallery, onde é recebida como uma velha amiga ao lado de obras de Picasso, Monet e Warhol.

Os que quiserem um passeio pelas lojas chanceladas pela família real também têm opção garantida. O hotel organiza caminhadas com um guia por lojas de Mayfair que possuem o “Royal Warrant”, certificado que garante fornecimento de produtos aos membros da realeza. Quase na esquina do hotel é possível comprar chocolatinhos na Charbonnel et Walker, que tem seleção de docinhos prediletos da família real.

Próximo ao Palácio de St. James há a loja mais antiga de chapéus do mundo, a Lock & Co, que exibe as medidas das cabeças de personalidades, como da Princesa Diana e de Jackie Onassis. Ao lado, a James J Fox Cigar vende charutos e há até uma cadeira preservada onde Winston Churchill fumava seu exemplar.

Se o “batidão” cansar, um pequeno spa com três salas, sendo uma para casal, te espera no andar inferior do Brown’s, com tratamentos relaxantes em ambiente aromatizado. E se precisar de uma ajuda especial, como um tíquete para o museu, um arranjo da floricultura vizinha, um mapa com os melhores passeios para cachorros ou até mesmo uma revista esgotada nas bancas, é só avisar o concierge e voilà, a mágica estará feita.

Brown’s Hotel, a Rocco Forte Hotel
33 Albemarle St, Londres W1S 4BP, Reino Unido / Tel.: +44 20 7493 6020 / Diárias em média a partir de 1 mil £ / Reservas via site.

*O jornalista viajou a Londres a convite do Brown’s Hotel.