Europa Central além do óbvio: um cruzeiro fluvial da Romênia à Hungria

Roteiro de uma semana pelas águas do Danúbio revela uma Europa pouco conhecida, onde mercados de Natal, fortalezas medievais e cultura dos Bálcãs se misturam

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
Daniela Filomeno na Fortaleza de Golubac
Daniela Filomeno na Fortaleza de Golubac, às margens do Danúbio, entre a Romênia e a Sérvia  • CNN Viagem & Gastronomia
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Ainda pouco desbravada por brasileiros, a Europa Central nos proporciona uma jornada que parece ter saído de um romance secular. Castelos surgem nas colinas das cidades medievais, pontes de pedra ligam passado e presente, e os centros históricos ecoam tradições. Uma das melhores maneiras de vivenciar tudo isso é pelos rios, a bordo de um cruzeiro fluvial.

Na última semana, embarquei em uma travessia pelo Baixo Danúbio, saindo da Romênia em direção à Hungria. A viagem superou a ideia de um simples cruzeiro que avança na água: para mim, foi uma jornada repleta de encontros com história, arquitetura e com sabores que resistem ao tempo.

Em uma manhã, acordamos em Belgrado, a intrigante capital da Sérvia. Na outra, estávamos em Budapeste, a cativante e grandiosa capital da Hungria. Entre as paradas, surgiu Vukovar, símbolo da resistência croata. Cada uma delas nos revela um pedaço surpreendente da alma europeia e, com o passar dos dias, os diferentes cenários formam um mosaico potente de beleza e heranças culturais.

Por que escolher um cruzeiro fluvial?

A Europa Central, assim como outras regiões da Europa, é fascinante de ser percorrido em todas as modalidades, seja visitando uma única cidade ou combinando a viagem com mais destinos. Mas optar por um cruzeiro fluvial adiciona camadas especiais à ocasião.

Mais do que uma viagem, digo que um cruzeiro fluvial é uma jornada cultural. É sobre atravessar rios, mas também tocar a história da Europa em suas artérias mais profundas. É constatar que os cursos d'água moldaram reinos, fronteiras e o próprio destino do continente. É uma forma sofisticada e confortável de olhar o continente a partir de uma perspectiva sedutora.

AmaMagna possui quase o dobro da largura comum das embarcações fluviais que fazem rotas no Danúbio • Divulgação/AmaWaterways
AmaMagna possui quase o dobro da largura comum das embarcações fluviais que fazem rotas no Danúbio • Divulgação/AmaWaterways

A grande diferença para os cruzeiros marítimos está na suavidade da experiência. O navio não balança, navega em silêncio e se move com delicadeza ao lado de fortalezas, vilarejos medievais e vinhedos históricos.

Não existe enjoo, nem correria. Ao contrário dos cruzeiros em alto-mar, atracamos à beira do centro das cidades, muitas delas pequenas joias ainda pouco conhecidas. A bordo, temos o conforto de um hotel flutuante e, ao mesmo tempo, a chance de conhecer diversos destinos em um único roteiro. A mala fica no mesmo lugar, mas o cenário muda todos os dias.

A bordo do AmaMagna: conforto, elegância e espaço de verdade

Com mais de duas décadas navegando pelos rios da Europa, a AmaWaterways é uma das empresas mais consolidadas do setor. Nascida no Danúbio, hoje a companhia opera embarcações por todo o continente, assim como na Ásia, no Egito, na Colômbia e na África.

Navios elegantemente decorados, serviço personalizado, gastronomia caprichada e imersão cultural definem o padrão dessas viagens. Todas as refeições, com bebida alcoólica, e as excursões em terra já estão incluídas, e os itinerários têm duração de sete dias. Pelo aplicativo do celular, você escolhe antes mesmo de embarcar toda a programação, que pode incluir passeios de bicicleta, tours a pé pela cidade com ótimos guias, degustações e outros. Se preferir um passeio privativo, também há essa opção, com custo adicional.

Minha viagem pelo Baixo Danúbio aconteceu a bordo do AmaMagna. É o maior e mais inovador navio da empresa, com quase o dobro da largura de uma embarcação fluvial tradicional, com 22 metros, criando uma sensação real de espaço.

São 98 cabines ao todo, com no máximo 196 passageiros e 70 tripulantes, e o atendimento é tão atencioso que nos sentimos realmente cuidados. As suítes, de 32 a 66 metros quadrados, todas com varanda, oferecem um conforto raro nos rios da Europa. Algumas têm sala de estar generosa e banheira.

A gastronomia é um dos pontos altos, com quatro restaurantes, que variam do incrível Chef’s Table, com menu degustação de alta gastronomia, ao Al Fresco, com refeições mais leves e onde as enormes janelas trazem o Danúbio para dentro das refeições. No topo, piscina aquecida e hidromassagem nos ajudam a relaxar enquanto a paisagem desfila. Há ainda academia moderna, salas de massagem, salão de beleza e até um gigante jogo de xadrez.

O AmaMagna realiza diferentes roteiros pelo Danúbio ao longo do ano, todos mostrando de forma elegante e contemporânea uma Europa que poucos conhecem. O itinerário que escolhi foi o "Gems of Southeast Europe (Festive Delights)", um roteiro especial de fim de ano que passa pelo sudeste europeu - já há datas para novembro e dezembro de 2026, com passagem em mercados de Natal.

O roteiro: início na Romênia

Bucareste, capital da Romênia, está no roteiro • Wikimedia Commons
Bucareste, capital da Romênia, está no roteiro • Wikimedia Commons

A despedida da terra firme aconteceu em Giurgiu, cidade portuária no sul da Romênia, na margem esquerda do Danúbio, que olha de frente para a Bulgária. Uma ponte liga os dois países e carrega um nome simbólico: Ponte da Amizade. O que se sente aqui é justamente a ligação entre culturas, tempos e memórias. Giurgiu é o pontapé para entrarmos no coração dos Bálcãs.

No dia seguinte, a embarcação atracou em Ruse, na Bulgária, na margem direita do rio. A cidade é chamada de Pequena Viena - basta uma caminhada para entendermos o apelido, já que construções neobarrocas enfeitam as ruas e nos levam diretamente aos séculos XIX e XX.

Nesta parada, temos a opção de conhecermos Veliko Tarnovo, antiga capital do Império Búlgaro. Esculpida nas encostas, é uma joia medieval que parece saída de um livro. Outra opção de passeio é cruzar novamente a fronteira e conhecer mais a fundo Bucareste, capital da Romênia, que guarda resquícios dos tempos do Império Otomano, passando pela Belle Époque e chegando aos blocos socialistas do período comunista.

Depois, foi a vez de atracar em Vidin, seguindo na Bulgária, onde o tempo parece diminuir de ritmo. Aqui, a fortaleza medieval Baba Vida protege histórias que atravessam impérios e resistências. É uma das mais bem preservadas do país e fica às margens do Danúbio, imponente e silenciosa. Nesta parada, as possibilidades de atividades abrangem degustação de vinho e tour de bicicleta.

Destino: Budapeste

Após Vidin, a embarcação passou pelos Portões de Ferro, um grandioso desfiladeiro que se alonga por 134 quilômetros, marcando a fronteira entre a Romênia e Sérvia. É uma passagem pitoresca, que apreciamos de dentro do navio até chegarmos à Fortaleza de Golubac, construída no século XIV para proteger esse estreito estratégico.

Capital da Sérvia, Belgrado é uma das paradas mais vibrantes do roteiro • CNN Viagem & Gastronomia
Capital da Sérvia, Belgrado é uma das paradas mais vibrantes do roteiro • CNN Viagem & Gastronomia

Após as paisagens cênicas, chegamos a Belgrado, capital da Sérvia, que muda completamente o clima. Ela é vibrante, intensa e cheia de camadas. A história não se esconde: aparece nas marcas da ocupação otomana, nas memórias da era iugoslava e na força de um povo que se reinventa. A Fortaleza Kalemegdan entrega uma das vistas mais impressionantes da rota, marcando o encontro do Danúbio com o rio Sava. Quando a noite cai, Belgrado pulsa com bares flutuantes, música dos Bálcãs e a rakia, espécie de aguardente local que desperta nossos sentidos.

Entre todas as paradas, Vukovar foi emocionante. A cidade croata é símbolo de resistência e viveu uma das batalhas mais marcantes do século XX, no contexto da Guerra de Independência da Croácia, quando foi devastada e reconstruída pedra por pedra. Aqui, tudo fala de resiliência, dos memoriais e museus ao silêncio. Até o vinho, que nasce nos arredores, em especial na cidade de Ilok, parece um gesto de vida.

Nos arredores de Vukovar fica a região vinícola de Ilok, uma das mais antigas e prestigiadas da Croácia • CNN Viagem & Gastronomia
Nos arredores de Vukovar fica a região vinícola de Ilok, uma das mais antigas e prestigiadas da Croácia • CNN Viagem & Gastronomia

A travessia terminou em terras húngaras com um brinde em Mohács, conhecida pelo carnaval de máscaras e tradições fortes. Ali perto, em Szekszárd, encontrei vinhos cheios de personalidade. Completando a parada, a cidade universitária de Pécs nos encanta com mosaicos romanos, mesquitas otomanas e igrejas barrocas. Aqui, um mercado de Natal nos aguardava com muitas comidinhas típicas e artesanatos, aquele local que realmente parece cenário de filme.

No fim, Budapeste surgiu imponente, com o Parlamento e palácios sinalizando a conclusão de uma jornada para ficar na memória - ou talvez o início de tudo, já que o itinerário também pode começar pelo caminho inverso.

 

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