A consolidação da gastronomia de alto nível nos shoppings do Brasil
Foi-se o tempo em que só as redes de fast food e os bufês a quilo reinavam nos centros de compras; novidades como Forno Paradiso, no BarraShopping, e filial do Le Jazz Brasserie no Leblon confirmam tendência

Que os bares e os restaurantes de alto nível dentro dos shoppings vieram para ficar, ninguém duvida. Lá atrás, quando os centros de compras começaram a abrir as portas para eles, muita gente torceu o nariz para a ideia - de consumidores a empresários do ramo. Comida em shopping, afinal, era sinônimo de praça de alimentação, historicamente dominada pelas redes de fast food e pelos bufês a quilo, tirando uma exceção ou outra. Com o advento dos chamados espaços gourmet, a coisa mudou de figura. De lá para cá, os restaurantes e os bares de shoppings não apenas se multiplicaram, como viraram uma nova grande "âncora".
Ultimamente, acompanhar as novidades desse segmento não tem sido fácil, dado o ritmo frenético de inaugurações. No Rio de Janeiro, uma das mais recentes tem como pano de fundo o BarraShopping. Falamos do Forno Paradiso, nova empreitada do grupo Pulse, comandado pelo restaurateur Fabio Dupin e sua filha caçula, Eduarda Dupin. Em funcionamento desde 3 de setembro, espalha-se por uma área de 760 metros quadrados e reúne sete operações, incluindo trattoria, padaria, pizzaria, sanduicheria, bar e salumeria. “A ideia é replicar aquela ótima confusão que reina nos mercados da Itália”, resume o restaurateur.
Mal comparando, é uma espécie de Eataly. A clientela do Forno Paradiso encontra uma adega no segundo andar que comporta até 8 mil garrafas de vinho e fica livre para recorrer à operação que mais lhe interessar, com estações que dão dinamismo ao negócio, pois abarcam ocasiões variadas de consumo — de um simples café para matar o tempo até um jantar a dois. Sob o comando da chef Aline Cury, a cozinha expede entradas como bolinho de risoto e croquete inspirado no macarrão à carbonara. Há opções como ossobuco com risoto à milanesa e massas como rigatoni ao molho cacio e pepe, além de pizzas e sanduíches.

E faltou falar que no mesmo dia, no ponto ao lado, o Pulse inaugurou o Balcão Margot, um francês sem formalidades com cardápio assinado pelo chef francês Damien Montecer.
Com oito casas em funcionamento – e uma nona em vias de inauguração –, o grupo está escolado em operar em centros de compras. Além do Forno Paradiso e do Balcão Margot, encontram-se em shoppings o Roi Méditerranée, a Osteria & Café Sardegna, além de outras três casas em centros comerciais em São Paulo.
O negócio que o grupo está em vias de inaugurar é o La Candela, restaurante de cozinha ibérica que herdou o imóvel que era do Gero, em Ipanema. E há mais dois empreendimentos no horizonte no Rio de Janeiro, estes ainda sem definição de endereço e data de inauguração. Falamos do Errare, bar dedicado à black music, e do Space Fish Market.

A maior abertura dos shoppings para o setor de restaurantes e bares é fruto das grandes transformações impostas pela digitalização do comércio em geral. Para os centros de compras, o impacto mais significativo desse fenômeno é esse: as lojas de roupas e acessórios já não atraem tantos frequentadores como antes. “Os cinemas, por culpa do streaming, também já não alavancam o movimento como há alguns anos”, acrescenta Fernando Blower, presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro, o SindRio. “Em razão disso tudo, os shoppings se deram conta de que restaurantes e bares exercem muito bem o papel de atrair visitantes, ampliando as oportunidades para o nosso segmento”.
Para os empresários do ramo, uma das principais vantagens oferecidas é a segurança, o que leva muita gente a preferir, por exemplo, jantar dentro de um shopping e não em um restaurante de rua. Os centros de compras também seduzem com a promessa de público, apesar de não se preocuparem muito em frear a concorrência. O BarraShopping, por exemplo, concentra mais de uma centena de operações gastronômicas.
Uma delas, o Giuseppe SQ, pertence ao restaurateur Marcelo Torres, que tem mais seis empreendimentos do gênero – Giuseppe Mar, Nolita e Yusha no VillageMall; Nolita Roastery no New York City Center; e Xian e Laguiole no Bossa Nova Mall. “É um erro achar que um centro de compras vai colocar clientes dentro do seu restaurante”, diz Torres. “Se for um shopping de sucesso, pode até colocá-los na porta do seu negócio. Mas cabe a você criar estratégias para atraí-los para dentro”.

O número de grupos que se renderam aos shoppings é cada vez maior. Vai da Companhia Tradicional do Comércio, a CiaTC, dona do Pirajá e do Astor, entre outras marcas, à Alife Nino, do Tatu Bola, do Ninetto e muitas outras. Criado em 2009, o grupo do Le Jazz Brasserie se rendeu ao modelo em 2013, no Shopping Iguatemi, em São Paulo, e repetiu a dose com uma filial no Pátio Higienópolis, na mesma cidade.
A ideia da marca partiu de Chico Ferreira e Gil Leite, que se inspiraram nos bistrôs que conheceram quando moraram na França. “Na época, os restaurantes franceses em São Paulo eram, na maioria, muito caros e demasiadamente formais”, recorda Paulo Bitelman, que ingressou no negócio como investidor e, desde 2023, exerce o cargo de CEO. “Despojado, o Le Jazz veio com o objetivo de fazer com que todo mundo se sinta em casa”.
Ele assumiu o comando logo após a abertura da padaria do grupo, a Le Jazz Boulangerie, em São Paulo. “Com a nova marca, bem mais complexa que as outras, sentimos a necessidade de nos estruturarmos melhor”, diz ele, que está às voltas com a finalização da terceira unidade do bistrô em um centro de compras – a estreia do grupo fora de São Paulo. Será no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, com inauguração prevista para outubro.


