Montanhas do Paraíso: conheça trilha no Quirguistão com lagos glaciais
Trilha de 110 km cruza montanhas, lagos glaciais e vales do Quirguistão, com acampamentos em tendas tradicionais que permitem percorrer o caminho sem carregar barracas e mantimentos

Faltam apenas alguns passos por um terreno pedregoso coberto de neve até o alto da passagem montanhosa. Ao chegar ao cume, sou recebido por uma vista de cordilheiras que se estendem ao redor de um lago de águas azuladas de origem glacial.
Os picos ao redor são conhecidos como as "Montanhas do Paraíso", tradução aproximada de "Tengir Too" em quirguiz e "Tien-Shan" em chinês, e, do lugar onde estou agora, no topo do mundo, é difícil discordar. A vista sobre o Lago Ala-Kol é o ponto alto entre muitos destaques ao longo de uma trilha de 110 km pelo Quirguistão.
A trilha Ak-Suu Transverse, ou AST, explora alguns dos trechos mais belos do Tien-Shan, no Quirguistão. Ela era percorrida apenas por trilheiros experientes, dispostos a carregar mochilas pesadas, repletas de tendas, comida e roupas para vários dias.
Recentemente, uma iniciativa empreendedora passou a transformar as "yurts boz-ui", tendas circulares tradicionais usadas sazonalmente por pastores nômades, em uma rede de hospedagens relativamente confortáveis espalhadas por essa região remota. Com isso, tornou-se possível percorrer a trilha levando apenas uma mochila pequena.
Estou prestes a seguir para a sexta hospedagem em yurt da minha travessia quando, às margens do lago Ala-Kol, uma tempestade chega de repente. A neblina fica cada vez mais densa, até dar lugar a um verdadeiro dilúvio. A chuva gelada atravessa minhas camadas de roupa enquanto me despeço, aos gritos, dos outros caminhantes e sigo sozinho por uma trilha secundária que leva diretamente à margem do lago, centenas de metros abaixo.

Minha descida da passagem fica cheia de dúvidas. Será que vou conseguir encontrar o acampamento de yurts se a chuva continuar? Será que alguém estará lá tão cedo na temporada para me deixar entrar? Por que continuo fazendo isso?
À medida que a escuridão e a insegurança se aproximam e as ondas do lago batem nas pedras abaixo dos meus pés, ouço meu nome ser chamado lá de cima. Os gritos ficam cada vez mais altos, até que uma figura solitária desce a encosta em disparada e desaparece na curva da margem do lago.
Vale a pena o investimento
Ele é o anfitrião do acampamento. Eu o sigo até a yurt e, quando finalmente consigo passar pela porta, meia hora depois, o chá já está pronto e o plov — um substancioso prato típico da Ásia Central feito de arroz, carne e legumes — está no fogão.
Ao tirar as roupas encharcadas no calor, estou convencido de que pagar pelas estadias na yurt valeu a pena.
Partindo do polo de ecoturismo de Jyrgalan, no extremo leste do Quirguistão, a trilha Ak-Suu Transverse sobe sete passagens e supera 6.500 m de elevação vertical. Ela percorre lagos alpinos e cachoeiras imponentes nos pastos chamados de "jailoo", onde os pastores levam seus rebanhos no verão.
Normalmente concluída em nove dias, a rota conta agora com estadias em yurts disponíveis ao longo de todo o percurso.
As yurts de feltro usadas pelos pastores fazem parte da paisagem do Quirguistão há séculos. A cada primavera, elas saem dos depósitos nas aldeias e voltam a ser montadas nas montanhas. Desde a coletivização da era soviética, poucos pastores, mesmo entre os mais resistentes, mantiveram um estilo de vida inteiramente nômade. Com seus rebanhos de ovelhas, cavalos, vacas e iaques, eles sobem as montanhas em busca das melhores pastagens, acompanhando o avanço do verão.
Em 2024, Daniyar Alymbekov, guia de trilhas local que se tornou empreendedor, redirecionou sua empresa de turismo Kyrgyz Life — antes voltada à organização de expedições com guias, chefs e carregadores — para estabelecer uma rede completa de acampamentos de yurts ao longo de toda a rota.
Alymbekov diz que se inspirou a montar o alojamento ao perceber que três acampamentos já existentes na rota estavam prosperando. Inicialmente, ele pensou em adicionar apenas mais três locais. "Mas depois entendi que vai crescer e preciso ter o AST completo", acrescenta.
Viajar de forma leve

Agora, os acampamentos se expandiram para pequenas vilas, e os negócios continuam prosperando, apesar de alguns problemas logísticos.
"Também enfrentamos o problema de que ficou muito complicado encontrar funcionários, especialmente por ser um trabalho sazonal. Nosso número de reservas crescia a cada ano, mas, em determinado momento, conseguíamos atender no máximo dois ou três grandes grupos. Com os acampamentos, hoje temos até 40 a 50 passeios por dia em todos os nossos acampamentos e ainda temos algum espaço."
Ao contrário da grande maioria das rotas de trekking do Quirguistão, as trilhas de montanha da Ak-Suu Transverse podem ser percorridas individualmente apenas com uma mochila de dia e um par de bastões de trilha.
Com os acampamentos de yurts da Kyrgyz Life fornecendo refeições, abrigo e até roupas de cama, os trilheiros precisam, na prática, apenas de uma muda de roupa e uma câmera para aproveitar ao máximo a trilha. Sem barracas, sacos de dormir ou suprimentos pesados de comida, não há necessidade de mochilas grandes.
E com mochilas mais leves vem mais liberdade para explorar, abrindo a possibilidade de escaladas laterais até mirantes do pico Tashtambek-Tor Bashi, de 4.450 m, ou até pequenos vales laterais pontilhados de lagos em Boz Uchuk e nos vales de Anyrtor.
Para Alymbekov, esse potencial de abrir os espaços naturais mais belos do Quirguistão a visitantes que talvez não tivessem tido acesso anteriormente é um dos principais benefícios da caminhada de yurt em yurt.
"Antes, carregando barracas e tudo por conta própria, era muito mais complicado, mas agora até quem não é praticante de trekking consegue fazer", diz ele. "É nosso terceiro ano, e este ano o trecho de Jyrgalan a Arashan tem, em alguns dias, até mais turistas do que o trecho de Arashan a Jeti-Oguz".
"Muitas pessoas veem a trilha como um desafio, então se desafiam a cruzar sete passagens e 100 quilômetros como uma espécie de maratona. Este ano começamos a entregar medalhas aos hóspedes que coletam carimbos de cada um dos acampamentos em yurts ao longo da trilha."
Uma chaleira de chá à espera
No meio da caminhada, a diferença é evidente. Se, anos atrás, os trilheiros provavelmente encontrariam apenas alguns pastores nos primeiros cinco ou nos dois últimos dias do percurso, agora me deparo com vários grupos de caminhantes seguindo em direção ao lago Ala-Kol.
Avançando passo a passo em direção ao Passo Anyrtor, apesar da consternação coletiva diante de uma falsa passagem 250 m abaixo da crista principal, o clima é positivo. Sem estradas, sem teleféricos e sem qualquer infraestrutura significativa no interior da região, o consenso geral é que uma natureza tão intocada é cada vez mais difícil de encontrar em destinos turísticos populares.
Na subida final até o passo de Ala-Kol, a dor nos pés e os longos quilômetros percorridos desaparecem da memória. Nesse trecho, a trilha se encontra com uma rota circular mais popular, feita em três dias, que passa pelas fontes termais de Altyn Arashan, segue até o lago Ala-Kol e termina no vale de Karakol. A solidão dá lugar, por alguns instantes, à companhia de outros caminhantes, mas as paisagens são ainda mais espetaculares.
Além do lago e do glaciar Takyr-Tor, com cerca de 1,6 quilômetro de extensão e responsável por alimentar suas águas, uma sequência de picos com mais de 4.800 metros de altitude compõe um panorama grandioso, daqueles que permanecem na memória muito depois de as botas encharcadas pela chuva serem esquecidas. E, em algum acampamento de yurts nas proximidades, há sempre um bule de chá quente à espera.
"Como alguém que já fez algumas trilhas pelo mundo todo, esta realmente tem tudo", diz Tara Fenwick-Smith, uma trilheira dos Estados Unidos que completou o AST. "Passagens desafiadoras, vales exuberantes com montanhas cobertas de neve, rios caudalosos com travessias complicadas, mais cavalos do que pessoas, e algum pastor simpático que não via um turista há meses e te convida para entrar em sua yurt para tomar um chá."
"Não só pudemos ver cenas incríveis do interior do Quirguistão, como também tivemos um vislumbre da cultura incrivelmente acolhedora da região. Recomendo muito essa trilha, não se esqueçam da capa de chuva!"
Detalhes práticos
O aeroporto de Karakol (IKG), um importante polo de trekking, foi designado como internacional desde sua tão aguardada reabertura em 2024, mas os únicos voos atualmente em operação são rotas domésticas entre a capital do Quirguistão, Bishkek, e a cidade de Osh, no sul do país.
O Aeroporto Internacional de Issyk-Kul (IKU), nas proximidades, conta com voos sazonais do Cazaquistão, do Uzbequistão e da Rússia, enquanto o Aeroporto Internacional de Manas (BSZ), em Bishkek, possui boas conexões com os principais aeroportos da Europa, do Oriente Médio e da Ásia.
Uma caminhada autoguiada com tudo incluído, com estadias em yurts e três refeições diárias, começa a partir de 5.600 soms quirguizes (aproximadamente R$ 325) por dia quando reservada diretamente pelo Kyrgyz Life.
Se necessário, guias e cavalos também estão disponíveis por um custo adicional, embora, para grupos pequenos com orçamento limitado, as partidas semanais com datas fixas durante a alta temporada de verão sejam também uma alternativa.
Para percorrer o Ak-Suu Transverse de forma independente, os caminhantes devem esperar pagar uma taxa de entrada simbólica de cerca de 300 soms quirguizes (cerca de R$ 17) na entrada do Karakol National Park, além dos custos de transporte de ida e volta ao ponto de partida da trilha.



