Conheça "museu a céu aberto" de quase 4 mil anos escondido no Quirguistão
Com quase 90 mil petróglifos e acessível apenas por seis semanas ao ano, o santuário de arte rupestre é um dos mais remotos do mundo

Sob o manto escuro da noite, o céu estrelado se reflete nas pedras. Dez mil rochas, esculpidas com quase 90 mil petróglifos, captam o feixe de uma lanterna de cabeça, contando histórias tão antigas e vastas quanto as constelações acima.
Próximo ao topo do vale de Saimaluu Tash, no Quirguistão, um pequeno lago sagrado une a terra e o céu em um ponto que tem sido utilizado há séculos em rituais religiosos tengriistas, crença tradicional de povos nômades da Ásia Central que tem como figura central Tengri, o deus do Céu.
Conhecida em quirguiz como "Pedras Bordadas" ou Saimaluu Tash, uma das mais espetaculares atrações culturais da Ásia Central é também uma das mais difíceis de alcançar.
Com cerca de quatro mil anos de história e abrangendo três milênios de culto contínuo, Saimaluu Tash é um dos maiores e mais remotos sítios de petróglifos em alta altitude do mundo.
Esculpida em basalto vulcânico escuro por sucessivas ondas de tribos nômades da Idade do Bronze, guerreiros citas e civilizações túrquicas primitivas, esta galeria a céu aberto serve como um arquivo bruto e intocado da crença humana ancestral — retratando desde caçadas pré-históricas até rituais sagrados de adoração ao sol.
Chegar lá envolve subir uma trilha que serpenteia pelo terreno rochoso das montanhas Tian-Shan e atravessa uma ponte de neve efêmera, crucial para toda a jornada. Chegar cedo demais na temporada significa que os petróglifos ainda estarão soterrados pela paisagem invernal; chegar tarde demais significa que a ponte de neve já terá derretido além do ponto em que pode ser atravessada com segurança.
Essa delicada corda bamba sazonal limita o acesso aos petróglifos a um breve período de seis semanas, geralmente entre julho e setembro.
Espíritos da natureza

Durante a lenta subida, a guia turística Altynai Kudaibergenova, baseada em Bishkek, a capital do Quirguistão, explica as dificuldades que esses artistas há muito esquecidos teriam enfrentado para chegar até aqui, e o que torna o sítio tão especial como local de culto.
"Os povos antigos teriam de planejar cuidadosamente e enfrentar todo tipo de desafios ao percorrer esse caminho ano após ano, durante séculos", ela diz. "Eles precisavam enfrentar trilhas que sobem por encostas íngremes e traiçoeiras, manchas de gelo que persistem nas sombras e se recusam a derreter sob o sol do pleno verão."
A pouco mais de dois mil metros acima do nível do mar, após quase três horas de escalada, as primeiras paredes de rocha basáltica escura começam a aparecer.
Essas esculturas parecem retratar cenas de caça, guerra, adoração ao sol e muito mais — arte criada em agradecimento por bênçãos já recebidas ou para implorar a um poder superior por uma boa sorte tão necessária.
O tengrismo, uma tradição animista na qual os espíritos da natureza são mediados por praticantes xamânicos, dominou as crenças religiosas da Ásia Central antes da chegada do Islã no século VIII. Embora muitos dos locais espirituais desse sistema de crenças ainda existam de alguma forma, são raros os que, como Saimaluu Tash, permaneceram em seu estado original sem serem afetados pelo advento da religião moderna.
Segundo Kudaibergenova, este é um patrimônio cultural como nenhum outro.
"Saimaluu Tash está situado no desfiladeiro que liga o vale de Fergana ao interior de Tian-Shan e ao sul do Quirguistão, historicamente mais sedentário, às suas regiões norte, que permaneceram fortemente nômades até o século XX", diz Kudaibergenova. "É o maior sítio de petróglifos da Ásia Central, deixado por diferentes grupos de povos ao longo de quatro milênios."
"Isso torna o local único do ponto de vista histórico, arqueológico e antropológico, e, por último, mas não menos importante, um museu da arte mais antiga."
Perdido para a história
Após horas de caminhada, as pernas doloridas são esquecidas assim que as primeiras gravuras aparecem. Ao escalar os últimos trechos até o centro do sítio arqueológico, a sensação é tanto de caça ao tesouro quanto de museu a céu aberto.
Um dia e uma noite entre as pedras parecem pouco diante dos milênios que foram necessários para esculpir essas maravilhas.
Enquanto o calor do verão ilumina cenas de culto solar e caçadores perseguem mamíferos caprinos chamados de íbex pelo vale vizinho, uma guerra interna se trava entre a simples alegria da exploração e o impulso inato de encontrar, ver e documentar. Histórias que chegam de milhares de anos atrás se conectam ao público moderno com uma gravidade definida por sua distância física e temporal.

Os petróglifos estiveram perdidos para a história até serem redescobertos pelo cartógrafo militar imperial russo Nikolai Khludov em 1902. Os arqueólogos só começaram a estudar o sítio de forma aprofundada no final da década de 1940.
Pesquisas datam os petróglifos mais antigos do local como sendo da Idade do Bronze, com continuidade pela Idade do Ferro até o início do período túrquico, aproximadamente 900 d.C. Isso significa que esse pequeno vale glacial foi um centro de culto por cerca de três milênios.
As gravuras retratam grupos de caça e comunidades agrícolas, tribos em guerra e culto ao sol, oferecendo importantes perspectivas sobre a vida e os modos de vida das culturas turca, cita e de povos nômades ainda mais antigos da região, para os quais achados tão significativos são raros.
O mesmo isolamento que restringiu os estudos e o acesso de turistas, no entanto, é também o que preservou os petróglifos em condição tão extraordinária, com saques e vandalismo mínimos. A espessa camada de neve no inverno protegeu amplamente o basalto das rápidas variações de temperatura.
"Sasha esteve aqui"
Embora existam alguns casos de grafites modernos ao lado dos entalhes antigos, Altynai adota uma visão de longo prazo.
"A arte ancestral dos petróglifos demonstra o que tinha valor para aqueles que viveram em 3.000 a.C. — comida, caça, guerra, adoração, procriação."
"Hoje em dia, ao lado dessas inscrições, encontramos entalhes que dizem 'Sasha esteve aqui 2012'. Consideramos isso vandalismo agora, mas daqui a um milênio, os cientistas provavelmente também farão observações sobre eles e notarão a diferença entre o que importava para as pessoas de diferentes épocas, da sobrevivência básica à identidade pessoal."
Com a indústria do turismo do Quirguistão vivendo um boom recente, à medida que projetos de infraestrutura planejados há muito tempo aproximam essa região das grandes cidades, persiste a sensação de que o silêncio profundo que envolve os petróglifos não pode durar muito mais.
Para os poucos turistas internacionais que se aventuram na trilha, o isolamento extremo é o principal atrativo. Saimaluu Tash permanece, por ora, bem longe dos roteiros convencionais. Seguindo mais adiante pelo vale, passando pelo lago sagrado em direção ao desfiladeiro varrido pelo vento, os únicos sinais de atividade humana são aqueles esculpidos nas rochas há milhares de anos.
Do alto do desfiladeiro, olhando para as dez mil rochas espalhadas pela encosta gramada, a cena parece muito distante dos dias atuais.
"Como alguém que já fez algumas trilhas pelo mundo todo, esta realmente tem tudo: passagens desafiadoras, vales exuberantes com montanhas cobertas de neve, rios caudalosos com travessias complicadas, mais cavalos do que pessoas, e algum simpático pastor que não via um turista há meses e te convida para entrar em sua tenda para tomar chai", diz a americana Tara Fenwick-Smith, que visitou recentemente o vale de Saimaluu Tash.
"Não só pudemos ver cenas incríveis do interior do Quirguistão, como também tivemos um vislumbre da cultura incrivelmente calorosa que existe ali."
A partir do acampamento base, a rota é apenas uma caminhada de meio dia até o veículo que aguarda e que, na manhã seguinte, levará os viajantes de volta, passando pela cidade vizinha de Kazarman, até a capital quirguiz de Bishkek. Mas esta noite, enquanto a lua nasce atrás da cordilheira, as estrelas ainda brilham intensamente sobre os vestígios mais extensos que restam de uma tradição que praticamente desapareceu do mundo moderno.
Como chegar lá
Operadoras de turismo sediadas em Bishkek e em Osh podem organizar viagens incluindo todos os guias, licenças, equipamentos e traslados necessários até o local diretamente dos aeroportos internacionais dessas duas cidades, com conexões para os principais centros na Europa, no Oriente Médio e na Ásia.
Essas opções incluem a Bishkek Walks, a Kyrgyzstan-Tourism e a Nomad's Land.
Viajantes independentes podem usar o transporte público de qualquer uma das cidades até Kazarman, onde podem pagar a taxa de entrada antecipadamente (pouco menos de US$ 5, aproximadamente R$ 25) para Saimaluu Tash e contratar cavalos (cerca de US$ 23, ou R$ 119), sendo necessário, a partir daí, um transporte particular até a entrada do parque nacional.
A CBT Kazarman também pode organizar traslados, guias e outros serviços logísticos, mas é recomendável entrar em contato com bastante antecedência.


