Roteiro 48 horas: um giro cultural e gastronômico por Tampa, na Flórida

Ideal para uma escapadinha de Orlando, cidade a 1h20 da terra da Disney vai além do Busch Gardens e oferece passeios sem pressa ao lado do rio, programas familiares e restaurantes recheados de história

Marina do centro de convenções de Tampa é local de onde saem passeios pelo rio
Marina do centro de convenções de Tampa é local de onde saem passeios pelo rio Keir Magoulas

Saulo Tafarelodo Viagem & Gastronomia Tampa, Flórida

Miami e Orlando já são duas velhas conhecidas dos viajantes brasileiros na Flórida. A primeira, com suas praias, restaurantes estrelados e agito cultural, é uma das principais portas de entrada para os Estados Unidos. A segunda dispensa apresentações, com os parques temáticos realizando sonhos de pessoas ao redor do mundo.

Mas uma terceira cidade surge aqui como destino fora do eixo: Tampa, uma das maiores do estado, com 400 mil habitantes, e também uma das que mais tem mudado ao longo dos anos.

A cidade às margens da Baía de Tampa tem visto novos hotéis na região do centro, como os luxuosos The Tampa Edition e o JW Marriott Tampa Water Street, e restaurantes reconhecidos com distinções pelo Guia Michelin. O hotel de selo Edition na cidade faz parte inclusive de um novo distrito urbano na região de Water Street, que compreende mais de 836 mil m² e tem custo de US$ 3,5 bilhões.

Assim, a cidade vai além das diversões no Busch Gardens – que pode ser incluído na lista de atividades por Tampa – e serve como uma escapadinha de final de semana a partir de Miami ou Orlando. A viagem pode ainda se estender depois para Clearwater ou St.Petersburgo.

E uma dica: apesar do aluguel de carro ser popular entre os destinos da Flórida, Tampa oferece um serviço gratuito de bonde todos os dias da semana. O serviço liga os principais pontos e bairros da cidade com paradas em 11 estações cobertas. Os veículos recriam a antiga linha e passam a cada 15 minutos, diminuindo em 12 minutos nos horários de pico.

A seguir, entre passeios culturais, familiares e gastronômicos, confira uma sugestão do que fazer em dois dias em Tampa:

Dia 1

Após o check-in pela manhã, preferencialmente nos hotéis da região de Water Street e da Channel District, uma tranquila caminhada pelo Tampa Riverwalk ajuda a dar uma boa percepção da cidade. É um percurso de 4,2 km que tange as águas do rio Hillsborough e proporciona visuais incríveis de parte do centro, que mistura altos prédios e instituições culturais.

O trajeto é bem sinalizado e é comum se deparar com entusiastas de jogging com roupas esportivas, fones de ouvido sem fio e pets. Espaços verdes, árvores e gramados fazem parte do cenário – alguns hotéis têm até restaurantes no primeiro andar voltados para o rio e formam uma espécie de marina.

Tampa Riverwalk é ideal para passeios ao lado das águas do rio Hillsborough / Pedro Castellano

Caso anime e queira conhecer a cidade de uma perspectiva diferente, aposte em um passeio de barco pelas mesmas águas. O eBoats Tampa aluga diariamente pequenas embarcações elétricas supersilenciosas com o diferencial de que você mesmo as dirige – basta ser maior de 25 anos e ter licença de motorista; licenças marítimas não são necessárias.

É passatempo ideal com a família e amigos: é possível passar pelos canais do centro e avistar importantes pontos da cidade, o que inclui a University of Tampa, o Tampa Museum of Art e o Straz Center for the Performing Arts.

Os barquinhos podem acomodar de 10 a 12 pessoas, possuem conexão bluetooth para embalar a trilha sonora e comidinhas e bebidas próprias são permitidas e incentivadas.

As embarcações ficam posicionadas na pequena marina do centro de convenções da cidade e o uso custa por US$ 89 – R$ 426,2, nos valores atuais- a hora para grupos de até 10 pessoas.

Skyline do centro com destaque para a pequena marina do centro de convenções da cidade / Divulgação

Depois dos passeios, a fome deve bater. A dica é dirigir-se ao Oxford Exchange, que mistura livraria, loja de objetos de decoração e café-restaurante de mesmo menu das 7h30 às 17h em dias de semana. É um local badalado, ideal para cafés da manhã, almoços tardios e brunches aos sábados e domingos.

Ele ocupa uma construção original de 1891 e tem decoração inspirada em históricos clubes, livrarias e lojas londrinas. Uso de madeira, retratos nas paredes e sofás de couro fazem parte do salão interno, enquanto um agradável pátio com teto de vidro joga luz natural aos ambientes.

O menu rotineiro contém clássicos americanos bem feitos e pitadas de brunch, como avocado toast (US$ 13), enormes panquecas (US$ 17), omelete (US$ 19), salmão defumado (US$ 18), seleção de saladas e burgers. O french toast (US$ 17) é molhadinho, macio e tem certa crocância – vale dizer que a conta chega dentro de um livro.

Para beber, uma série de cafés e chás se faz presente – se gosta de latte, tente o salted caramel latte da casa. Há um balcão reservado para café “to go”, popular entre os engravatados da região, e, por que não, um bar de champagne com seleção da bebida e de rosés em taça.

Durante a tarde, reserve horas relaxadas para um passeio no The Florida Aquarium. Junto do Busch Gardens e do Zoológico de Tampa, ele forma o chamado “the big three”, ou seja, “os três grandes” atrativos locais.

Em Water District, bem ao lado do terminal de cruzeiros da cidade, o aquário é pedida para conhecer mais da vida animal que rodeia a Flórida e se encantar com uma bem-vinda diversidade marinha e terrestre de maneira lúdica.

Um dos mais importantes do estado, o aquário ajuda na conservação das espécies e dá oportunidade para crianças, jovens e adultos verem de perto pássaros e até jacarés dos pântanos da Flórida em um dos mais incríveis habitats do local, o Wetlands of Florida, situado dentro de uma impressionante redoma de vidro de quase 25 metros de altura.

Arregace as mangas, pois é possível tocar os corpos aveludados de raias e ainda sentir as diferentes texturas de estrelas-do-mar, anêmonas e pepinos-do-mar. Por fim, medusas-da lua, que recebem este nome por conta de seu formato circular translúcido em forma de lua, flutuam em um grande tanque iluminado por diferentes luzes, formando um verdadeiro show da natureza.

The Florida Aquarium tem diferentes habitats e é local ideal para visita ao lado das crianças / Saulo Tafarelo

O local recebeu 925 mil visitantes em 2022, recorde em todos os 27 anos de funcionamento, e passa atualmente por uma expansão de US$ 40 milhões que deve ser concluída em 2025, com a inclusão de um habitat de leões-marinhos. O aquário fica aberto todos os dias e o preço médio do ingresso integral tem valor de US$ 30.

Com o cair da noite, Tampa ganha novas cores. Luzes de variados tons colorem as pontes e canais e os grandes prédios centrais ganham uma sobrevida.

O jantar pode ser na área de Seminole Heights, bairro central de Tampa, lar do Rooster & the Till, um dos três restaurantes da cidade com o selo Bib Gourmand do Guia Michelin, distinção que avalia preço justo e qualidade. O pequeno restaurante se abre para um bar e a casa se intitula como uma “cozinha americana moderna de bairro”.

Cobia Collar é iguaria vietnamita servida na Rooster & the Till / Skyler June Pursifull

O restaurante trabalha com menu-degustação que muda periodicamente e opções à la carte. Os pratos costumam ter inspiração importada de outros países. Entre as pedidas podem estar os “not pork dumplings” (US$ 16), dumplings recheados com tofu com gengibre e óleo intenso de chili, e gnocchi (US$ 28) com short-ribs, ricotta e peperonata.

Se ainda tiver disposição, termine o dia com um drinque no Bar do Lobby do hotel The Edition. Com balcão central amadeirado e cadeiras em tons amarelos, o local serve coquetéis clássicos e autorais das 11h à 0h. É uma boa pedida para um Negroni ou Old Fashioned, preparados à sua frente.

Dia 2

No segundo dia, Tampa ainda reserva diferentes passeios e descobertas gastronômicas. Comece o dia no Goody Goody Burgers, na graciosa região de Hyde Park Village. É local ideal para um café da manhã reforçado e autêntico, com menu servido o dia inteiro das 7h às 21h.

Com pratos e canecas pesadas, o restaurante faz referência aos típicos “american diners” e carrega uma atmosfera dos velhos tempos. As enormes panquecas (US$ 10,95) podem ser compartilhadas e ficam melhores com o maple syrup da casa; as tortas são feitas diariamente e a dica é experimentar uma fatia (US$ 6,95) da Butterscotch Pie, sabor de caramelo feito com açúcar mascavo e bastante manteiga.

Caso não resista, experimente também um sanduíche: o original da casa, o POX (US$ 7,50), tem quase um século de história e leva carne angus, picles, cebola e molho secreto à base de tomate. Batatas fritas, saladas, cafés e milk-shakes completam um verdadeiro “sabor de Tampa”.

Depois de paga a conta, um passeio pelo bairro ajuda na digestão e revela casarões requintados, lojas, boutiques e uma atmosfera familiar e aconchegante. São cerca de seis quarteirões com diferentes comércios. Bem ao lado do Goody Goody há até um cine bistrô, onde filmes em cartaz podem ser apreciados junto de comidinhas e drinques para pessoas acima de 21 anos.

Todo primeiro domingo do mês, das 10h às 14h, ocorre na região uma feira livre com cerca de 80 vendinhas locais que abrangem legumes e verduras, produtos artesanais e plantas. Com fonte e árvores, o Village Circle é a pracinha central de atmosfera convidativa, bom ponto de encontro para saídas sem pressa pelas redondezas.

De Hyde Park, a sugestão é cruzar o rio novamente em direção ao Ulele, cervejaria e restaurante ao lado do Water Works Park – um parque público à beira do rio com espaço verde, área para cachorros, playground para crianças com direito a brinquedo molhado.

A dica é passear por ali e depois sentar-se em uma das mesas do amplo salão do Ulele para um almoço sem pressa, também com vista para o rio. A casa tem uma cara industrial, com tijolos aparentes, já que ocupa uma construção dos idos de 1900. Um jardim com esculturas que remetem povos americanos nativos fica de frente para as águas.

Antes das pedidas, é possível também conhecer a cervejaria própria, uma extensão nos fundos do restaurante. Ipas, ale, lager e tipos sazonais são feitas ali, em que os mais de mil barris por ano são destinados exclusivamente ao restaurante, sem engarrafamento para o mercado externo. Se der sorte, é possível experimentar até cervejas feitas com morangos locais e sour beer.

Já de volta ao restaurante, o menu apresenta frutos do mar, muitos deles vindos de águas locais, como ostras, vieiras, lagostas e até carne de jacaré.

Aproveite a localização e o tempinho pós-almoço para uma volta no Heights Public Market, a poucos passos do Ulele. É um espaço multiuso também com vistas para o rio e que funciona diariamente com uma série de restaurantes e vendas. Pode ser destino para adoçar a boca com um sorvetinho ou ainda para um café e chá.

Vale dizer que ele também é cortado pelo Tampa Riverwalk, logo, passeios a pé pelas redondezas também são recomendados. Caso tenha disposição, é caminho para descer até o Tampa Museum of Art, não muito longe dali.

Fundado em 1920, o local dispõe de acervo e exposições temporárias com artefatos de arte antiga, moderna e contemporânea. Antiguidades gregas e romanas fazem parte do acervo permanente, assim como bandeiras de vodu haitiano.

Fachada do Tampa Museum of Art / Divulgação

Vale checar as exposições temporárias: até o fim de 2023 e começo de 2024 há obras que abrangem fotografias sobre mulheres anônimas de “espírito independente” e artes haitianas. As entradas inteiras custam cerca de US$ 25.

Se estiver com crianças, a dica é dar apenas alguns passos para adentrar o Glazer Children’s Museum, colado ao Tampa Museum of Art.

A premissa do museu é fazer com que os pequenos aprendam brincando e desenvolvam conhecimentos com atividades interativas. São vários ambientes com diferentes temas em que eles podem brincar, desde saber de onde as comidas vêm até ajudar a salvar o dia com o corpo de bombeiros. Aberto de terça a domingo, os ingressos saem por US$ 18.

À noite, a sugestão é outro playground, mas desta vez gastronômico: voltando em Hyde Park, uma das instituições mais famosas de Tampa é o Bern’s Steak House, restaurante que clama ter o maior inventário de vinhos do mundo. Para ter uma ideia, a carta de vinhos tem 188 páginas; a maioria são rótulos de Bordeaux e da Borgonha e há exemplares que datam de 1845.

O que era um minicentro de compras virou em 1956 um restaurante. Hoje há cerca de oito salões, mais de 300 mesas e 250 funcionários. Os ambientes são temáticos e é daqueles locais bastante frequentados também pela população local, procurado para ocasiões como aniversários e comemorações de casamento. Do cardápio, opções bem americanas: grande seleção de carnes, batatas, mac and cheese, caesar salad (finalizada na mesa); mas também variedade de frutos do mar e peixes.

Bern’s Steak House tem uma das maiores coleções de vinhos do mundo / Reprodução/Instagram

E esteja preparado para as sobremesas: elas são servidas em um salão superior especialmente voltado para os doces. Aberto na década de 1980, o “dessert room” tem mesas em formatos de barrica. Do menu, tente o cappuccino que leva o nome da casa (US$ 12), feito com uma mistura secreta de licores aromatizados e creme de baunilha; e ainda a Bananas Foster (US$ 34), prato para dois finalizado ao lado da mesa com bananas caramelizadas, rum, licor de banana, conhaque e sorvete de baunilha.

O dress-code é levado a sério: as vestimentas devem ser semi-formais, nada de camisetas, roupas atléticas ou shorts – caso as use, você ficará sentado em uma área de lounge ao invés dos salões.

Se sobrar tempo…

Se ainda houver um tempinho para passeio de manhã e almoço no dia seguinte antes de partir, a dica é conhecer Ybor City, que se abre para o passado de Tampa. A 7th Avenue é a veia central do local, onde construções e prédios históricos que parecem cenográficos aludem à fabricação de charutos que ocorreu ali a partir de 1880.

O distrito foi povoado nos anos seguintes principalmente por imigrantes de Cuba, em que, junto de Miami, a cidade compartilha uma rica história com a ilha no Caribe. Andar por Ybor City é se deparar com centros culturais de outras línguas além do inglês, antigos clubes, fábricas, restaurantes e bares que servem mojitos e sanduíches cubanos e até clubes LGBTQIA+.

Interessante é que galos e galinhas selvagens perambulam pelas ruas principalmente pelas manhãs – eles são descendentes diretos dos animais que viviam nos quintais dos primeiros residentes do bairro há mais de um século e há até multa caso eles sejam tocados e machucados.

Murais coloridos com galos e episódios da vida local colorem alguns comércios e, pela 7th Avenue, chega-se ao Columbia, tido como o maior restaurante espanhol do mundo e o maior e o mais antigo em funcionamento da Flórida, fundado em 1905. Dividido em cerca de 16 salões, são mais de 1.700 lugares para almoços e jantares, espaço para eventos e até sala para apresentações de flamenco.

O menu mistura influências cubanas e espanholas. O bacana é experimentar o tradicional sanduíche cubano (US$ 14), já que Tampa tem uma rixa com Miami para eleger de surgiu, de fato, o sanduíche original. Uma seleção de tapas espanholas e pratos principais como o cubano ropa vieja (US$ 16) completam o cardápio – para beber, peça uma jarra de sangria (US$ 28) para dividir e escolha entre vinho branco ou tinto.

Outras opções pela cidade incluem o Zoo Tampa, que ajuda na conservação de uma grande variedade de animais de vários locais do mundo, incluindo da própria Flórida, da Ásia e da África, com entradas por US$ 45,95. Já na seara da gastronomia, Tampa tem agora três restaurantes com estrela Michelin: o Lilac, no hotel Edition, com menu de preço fixo de quatro pratos com influências mediterrâneas, ingredientes da Flórida e técnicas francesas; o pequeno Koya, de menu-degustação pautada pela cozinha japonesa; e o Rocca, um italiano com massas feitas na casa.