Pai e filho se preparam para viajar de bicicleta por 25 países
À primeira vista, George e Josh Kohler parecem apenas mais um pai e filho comuns — mas os dois estão em uma missão extraordinária

À primeira vista, George e Josh Kohler parecem apenas mais um pai e filho comuns — mas os dois estão em uma missão extraordinária.
Partindo de casa, no leste da Inglaterra, em março deste ano, eles decidiram pedalar ao redor do mundo. Nessa jornada que atravessa quatro continentes, os Kohler enfrentam desgaste físico, mental e emocional, encaram a burocracia dos vistos e ainda tentam quebrar três recordes mundiais no processo.
O percurso já os levou pela Europa, depois pela China, e agora eles estão na Tailândia.
Em um “dia sem pedaladas” na China, ambos falaram com a CNN internacional e mostraram pragmatismo diante da empreitada.
“Partimos nessa viagem com três objetivos”, contou Josh, sentado ao lado do pai durante uma chamada de vídeo feita do quarto de hotel.
“O primeiro era nos desafiar, e isso com certeza está acontecendo em todos os sentidos. O segundo era arrecadar fundos e chamar atenção para a Unicef e também para uma loja de bicicletas local.
E o terceiro objetivo era inspirar outras pessoas, incentivar todos a viver pequenas ou grandes aventuras, a sair da zona de conforto e se desafiar de formas que talvez nem imaginassem antes.”
O desafio é enorme. Eles vão percorrer mais de 29 mil quilômetros em duas rodas, passando por 25 países e ficando mais de um ano longe de casa.
Apesar do avanço impressionante até aqui, nenhum dos dois se deixa empolgar em excesso: ambos reconhecem que estão aprendendo muito pelo caminho.
Não é a primeira vez que encaram juntos uma longa viagem de bicicleta. Em 2022, pedalaram pelos Estados Unidos — e foi aí que despertaram a fome por novas aventuras.
Inicialmente, pensaram em voar até Singapura e voltar de bicicleta para a Inglaterra. Mas logo decidiram dar um passo a mais: completar a volta ao planeta.
Se tudo der certo, poderão registrar três recordes no Guinness: a maior distância já percorrida de bicicleta por pai e filho; a volta ao mundo mais rápida feita por pai e filho; e o maior número de países pedalados por uma dupla de pai e filho.
Para que a tentativa seja reconhecida, eles precisam cruzar o mundo em uma única direção, passando obrigatoriamente por dois pontos antípodas — locais conectados por uma linha reta através da Terra. No caso dessa viagem, os pontos escolhidos são a Nova Zelândia e a Espanha; o restante do trajeto fica a critério deles.
“Não vou levar nenhum crédito por isso”, brinca George, revirando os olhos ao atribuir ao filho a ideia da aventura. “Somos ciclistas iniciantes, e alguém decidiu que queria dar um passeio de bicicleta.”
Como o próprio pai admite, Josh é a força motriz por trás da jornada. Aos 22 anos, ele exala entusiasmo e, desde que saiu de casa dois anos atrás, já se acostumou a explorar o mundo.
O interesse nasceu após uma palestra do escritor e explorador Leon McCarron, da Irlanda do Norte, que falou com Josh e seus colegas na escola.
Estrelas das redes sociais
Desde então, Josh criou um canal no YouTube para contar suas histórias de viagem e mostrar sua habilidade com a câmera. Agora, ele usa a plataforma para documentar a aventura ao lado do pai, com vídeos que já somam centenas de milhares de visualizações.
Eles também são ativos em outras redes, compartilhando clipes curtos sobre onde estão no mundo. Para Josh, isso sai naturalmente; já para George, nem tanto.
“Sou o parceiro relutante”, diz George. “Nunca tive vontade de me envolver nesse negócio de Instagram e TikTok, mas o Josh insistiu para que eu tentasse.
De repente, tenho quase 30 mil seguidores, o que é bizarro. Não sei por que as pessoas assistem ao que faço, mas ainda é nada comparado ao que Josh está construindo.
Descobrimos inclusive que temos um público crescente no TikTok na China, coisa que só ficamos sabendo hoje.”
O universo da criação de conteúdo está muito distante da vida que George levava antes. Com carreira no exército e, mais recentemente, trabalhando como limpador de chaminés, ele dificilmente teria imaginado algo parecido.
Ainda assim, nada disso seria possível sem ele. Afinal, foi George quem criou um filho com a confiança e a ambição necessárias para sonhar alto — e ainda topou embarcar junto nessa empreitada.
A oportunidade de acompanhar o filho numa volta ao mundo sobre duas rodas era especial demais para recusar. Mas George sabe que essa convivência tão próxima também traz seus atritos.
Mesmo acostumado a situações desafiadoras durante a vida militar, ele admite que nada se compara ao impacto emocional dessa odisseia.
“É por isso que acho que nenhum pai e filho fizeram isso antes”, comenta, ao ser perguntado se já tiveram brigas. Os dois riem, com cumplicidade.
“É como drenar um abscesso”, acrescenta George. “A pressão vai se acumulando e tivemos algumas explosões ao longo dos meses. Mas depois de cada desentendimento, conversamos, nos abraçamos e lembramos que temos de construir isso juntos. O que importa é a relação a longo prazo, a amizade que vamos fortalecer e desenvolver. O objetivo final é concluir essa viagem como pai e filho.”
A meta é terminar a volta ao mundo no começo do próximo ano, mas eles preferem avançar um passo de cada vez.
A rotina é pedalar cerca de 100 quilômetros por dia — mas tudo depende de onde estão, do clima e de como se sentem fisicamente.
O trajeto já mudou e continuará mudando à medida que avançam rumo ao leste, sempre com a ideia de aproveitar ao máximo os lugares por onde passam.
Com distâncias tão longas diárias, a alimentação é fator decisivo. Eles estimam gastar, em média, 5 mil calorias por dia e, por isso, comem literalmente “de tudo” para compensar.
“É ótimo quando há comida em abundância, mas quando não há, é um desafio. Às vezes, você tem de comer o que encontrar”, diz George, lembrando que a China rendeu refeições memoráveis.
Viagem de uma vida
Tanto George quanto Josh têm dificuldade de escolher um único momento marcante da jornada.
O que se forma é um mosaico de experiências inesquecíveis e encontros com pessoas ao longo do caminho. A gentileza dos estranhos, dizem, é o que mais os emociona — seja alguém oferecendo água pela janela de um carro em movimento, seja um pastor na Turquia dividindo sua comida à beira da estrada.
Mas também há os inevitáveis dias difíceis. Momentos de saudade da família, de falta de motivação para pedalar.
Nessas horas, porém, lembram-se da sorte que têm por estarem juntos nessa aventura.
“Sou incrivelmente grato”, diz Josh, acrescentando o quanto se sente “afortunado” por ter um pai disposto a compartilhar essa experiência única.
“Não há orgulho maior para um pai do que ver o filho ser melhor do que ele”, responde George.



