Por dentro da Abadia de Melk, com mil anos de história e biblioteca sublime
À beira do Rio Danúbio, abadia é marco da Áustria que reflete história do país e abriga uma das bibliotecas mais valiosas da Europa

Entre as cidades austríacas de Viena e Linz, a pequena Melk possui apenas 5.600 habitantes, mas todos os anos recebe mais de meio milhão de viajantes do mundo todo com uma missão: visitar a Abadia de Melk, mosteiro beneditino que soma cerca de mil anos ininterruptos de cultura, aprendizado e fé.
Fundada em 1089, a abadia foi testemunha de alguns dos acontecimentos mais importantes do mundo, como a Reforma Protestante e as duas Grandes Guerras. Desde 1960, ela abre as portas para aspirantes a monges e viajantes que desejam ver de perto obras-primas como a igreja, a biblioteca, a escadaria imperial e o grandioso salão de mármore.
Hoje, a imponente construção, que se ergue sobre um penhasco e é marcada por ornamentos dourados, é um dos símbolos do Vale de Wachau, Patrimônio Mundial da Unesco moldado por vinhedos e construções barrocas à beira do Rio Danúbio.
Melk, aliás, é tida como a porta de entrada para o vale, ideal para viagens bate e volta a partir de Viena ou como parada estratégica de cruzeiros fluviais.
Foi justamente por meio das águas que visitei a cidadezinha como parte de programas inéditos do CNN Viagem&Gastronomia pela Europa Central, já que Melk fez parte do meu roteiro elaborado pela AmaWaterways por cinco países: Hungria, Eslováquia, Áustria, República Tcheca e Alemanha.
A cidade e a abadia
Situada na Baixa Áustria, a cerca de 80 quilômetros de Viena, Melk fica na margem direita do Danúbio e se espalha por apenas 25 quilômetros quadrados. É ideal para aquele tipo de passeio de um dia, em que podemos conhecer seu centrinho em caminhadas agradáveis.
Por aqui, ruas de paralelepípedo, cafés e casinhas austríacas coloridas dividem espaço com algumas lojas de souvenir em meio a uma atmosfera sossegada e pitoresca. A Rathausplatz, praça da prefeitura, é uma das paradinhas fotogênicas e tranquilas do passeio, a uma curta distância da abadia, a estrela da região.
Apesar de pequena no tamanho, a cidade foi um dos primeiros centros políticos do que viria a se tornar a Áustria. No século X, a região era sede da família Babenberg, primeira dinastia governante do território. Foram eles que doaram o castelo de Melk aos monges beneditinos para que fundassem a abadia - os restos mortais de vários membros da Casa de Babenberg descansam aqui.
O esplêndido complexo barroco que vemos hoje foi erguido mais de 600 anos depois, entre 1702 e 1746, sob a direção do arquiteto Jakob Prandtauer.
Por dentro da abadia
A abadia nos convida a descobrir seus aposentos, em que cada cantinho esbanja detalhes ricamente ornamentados e muita história. Os números surpreendem: há ao todo 1.365 janelas, 497 cômodos e 2,2 hectares.
O tour começa pela escadaria e pelo corredor imperial, onde chegamos ao museu, que narra o passado do mosteiro por meio de salas dedicadas a diferentes temas.
Depois, somos levados ao Salão de Mármore, à varanda, à biblioteca - que merece destaque próprio - , e, por fim, à igreja da abadia, um tesouro barroco feito pelas mãos de mestres artísticos, incluindo afrescos, pinturas no altar e esculturas. Folhas de ouro, trabalhos em estuque e mármore completam o impressionante conjunto.
Do lado de fora, os jardins adicionam ainda mais charme aos edifícios da abadia. Revitalizado ao longo dos anos 1990, o parque tem sido palco de instalações e esculturas de artistas contemporâneos, principalmente no verão.
E quem vive aqui? Os monges beneditinos, é claro. Atualmente, 22 deles chamam a abadia de lar. Eles vivem e trabalham de acordo com a Regra de São Bento, escrita no século VI - a biblioteca preserva a cópia exata da Regra que os monges trouxeram de sua abadia original, um manuscrito com cerca de mil anos.
Em poucas palavras, a mentalidade beneditina é regida pelo lema ora et labora et lege: oração, trabalho e estudo.
A biblioteca
Além da igreja, um dos cômodos de tirar o fôlego durante a visita é justamente a biblioteca. Ela abriga 100 mil livros, incluindo 1.800 manuscritos, com obras de valor imensurável de séculos passados. Na entrada oeste, uma frase em latim rege o tom do local: “Da literatura, a imortalidade”.
Apesar de aberta a visitantes, a biblioteca não é revelada em sua totalidade. O que vemos é a sala principal e a sala adjacente, ricamente barrocas, conhecidas como “a” biblioteca original, do século XVIII. Porém, há uma seção ampliada, com duas outras salas, ligadas aos outros cômodos por uma escada em espiral, que não fazem parte da visita.
Para o CNN Viagem&Gastronomia, tivemos uma autorização especial para gravar dentro da biblioteca, tudo acompanhado por um monge. Confira como é a biblioteca por dentro neste vídeo.
Entre os 100 mil livros, podemos ter um vislumbre de 16 mil deles - número já impressionante. O interessante é que o acervo é constantemente restaurado e atualizado, em que pesquisadores do mundo inteiro são recebidos de braços abertos em prol de seus projetos científicos. Ou seja, apesar de histórica, a biblioteca ainda é ativa.
As visitas na Abadia de Melk saem por 16 euros (cerca de R$ 100). Tours guiados têm adicional de 3,50 euros. Todos os preços e horários podem ser vistos no site.


