Por que viajantes de luxo se apaixonaram pelas ilhas remotas da Indonésia
Cruzeiros pelas antigas "Ilhas das Especiarias" e Raja Ampat combinam isolamento, aventura, beleza natural e luxo

Levou alguns séculos, mas a região das "Ilhas das Especiarias" no leste da Indonésia — agora conhecidas como Ilhas Molucas — está novamente atraindo a atenção.
Praticamente inacessível para viajantes do mundo todo há apenas duas décadas, o arquipélago e suas centenas de ilhas, juntamente com diversas regiões vizinhas, agora estão na lista de desejos de viajantes que anseiam por aventuras marítimas novas e inusitadas — tudo isso complementado por comodidades modernas e de alto padrão.
Desde alguns dos nomes mais famosos da hotelaria de luxo até iates particulares sofisticados, há mais de uma dúzia de opções para explorar as ilhas que desencadearam uma “corrida das especiarias” nos séculos XVI e XVII por cravo, noz-moscada e macis por comerciantes portugueses, holandeses e britânicos, que conseguiam altos preços por suas saborosas mercadorias na Europa.
A maioria desses cruzeiros também inclui viagens para regiões vizinhas como Raja Ampat, que é frequentemente chamada de "o último paraíso na Terra".
“As ilhas mais a leste da Indonésia são uma verdadeira fronteira”, diz o consultor de hotelaria Jason Friedman, que trabalha com o Kudanil Explorer, um iate de expedição de luxo com casco de aço que oferece fretamento por US$ 23 mil (cerca de R$ 122.663,60) por noite.
Repletas de uma biodiversidade surpreendente, ele afirma que as ilhas oferecem uma verdadeira sensação de isolamento que só pode ser explorada de barco.
“É um lugar onde os recifes de coral explodem em cores, vulcões emergem de mares intocados e culturas ancestrais prosperam em isolamento”, acrescenta Friedman.
Cada ilha conta uma história diferente, com tradições e idiomas encontrados em nenhum outro lugar. Simplesmente não existe outro lugar na Terra que pareça tão selvagem, autêntico e vivo.
Carolyn Coenen, especialista da agência Wilderness Travel para a Ásia-Pacífico, diz que a região tem se tornado cada vez mais popular entre as pessoas "que querem se impressionar" com a quantidade incrível de vida subaquática.
“Há peixes de recife de coral que você não veria em nenhum outro lugar e em grande quantidade”, ela descreve. “É simplesmente uma sobrecarga para os sentidos.”
Ambiente descontraído, mas cuidadosamente selecionado
Entre as grandes empresas que oferecem viagens para o leste da Indonésia está a National Geographic Expeditions, incluindo um cruzeiro de duas semanas pelas Ilhas das Especiarias/Raja Ampat a bordo do Aqua Blu, que acomoda 28 passageiros e que já serviu como iate particular de uma família aristocrática europeia.
O preço do all inclusive, de US$ 27 mil (cerca de R$ 144 mil) por pessoa, contempla comodidades de luxo como massagens balinesas, refeições gourmet, mergulho e outros esportes aquáticos, além de um instrutor de fotografia certificado pela National Geographic para ajudá-lo a tirar fotos perfeitas.
“Com o Aqua Blu, fizemos uma escolha deliberada de oferecer uma experiência intimista, no estilo de um iate, em vez de um cruzeiro tradicional”, afirma o CEO e fundador Francesco Galli Zugaro.
“A maioria das embarcações na região transporta grupos maiores e segue rotas fixas. O Aqua Blu transporta apenas 30 hóspedes, o que nos permite acessar lagoas remotas e ilhas menos visitadas que navios maiores simplesmente não conseguem alcançar. Oferecemos a combinação perfeita de escala, flexibilidade e serviço.”
Os hóspedes podem passar mais tempo na água ou explorando a costa, sem a sensação de estarem presos a um cronograma, acrescenta Francesco.
“Projetamos a embarcação e o itinerário para proporcionar uma sensação de relaxamento, mas com um toque de requinte, e tudo, desde as operações de mergulho até a gastronomia, reflete o mesmo nível de atenção aos detalhes.”
Outra opção é um "phinisi" indonésio, uma embarcação tradicional de dois mastros usada por séculos por comerciantes, piratas e pescadores das Ilhas das Especiarias.
Os "phinisi" de hoje não se parecem em nada com os barcos de antigamente. Um excelente exemplo é o Lamima, com capacidade para 14 passageiros, disponível para aluguel por US$ 27 mil (R$ 144 mil) por noite (mais impostos).
Construído em madeira, foi feito por construtores navais tradicionais em uma praia de Sulawesi e, em seguida, equipado com recursos de segurança modernos e comodidades de luxo em Bangkok por uma equipe que incluía montadores de velas do Reino Unido e especialistas em casa de máquinas da Alemanha.
“Devido à forma como foi construída e como é operada — com uma tripulação totalmente indonésia — o Lamima tem alma”, diz o coproprietário Dominique Gerardin, que teve a ideia de construir a embarcação de US$ 50 milhões (cerca de R$ 266,66 milhões) e acompanhou até a sua conclusão.“Desde o início, queríamos que este barco refletisse a herança da Indonésia”, diz.
A tarifa all inclusive do Lamima inclui massagens ilimitadas e tratamentos de beleza no spa a bordo, bem como sessões de ioga e meditação, e uma variedade de equipamentos para esportes aquáticos, desde jet skis, scooters subaquáticas e pranchas de e-foil até pranchas de surfe, pranchas de stand up paddle e caiaques.

Michael Travers, da SeaTrek Sailing Adventures, uma das opreadoras de turismo mais antigas da região, afirma que as empresas que oferecem passeios de barco tiveram que mudar radicalmente seus produtos ao longo dos anos para atrair viajantes exigentes com expectativas altíssimas.
“Começamos há mais de 30 anos como uma espécie de operadora de luxo para mochileiros, com banheiros compartilhados e quartos com ventilador, quando não havia outra maneira de conhecer e explorar a Indonésia”, explica Travers.
Ele diz que, embora as ilhas de Bali e Java fossem os únicos destinos que a maioria dos viajantes que não praticavam mergulho conseguiam visitar facilmente nas décadas de 1990 e início de 2000, sua empresa se adaptou para atender aqueles que buscam mais variedade. "Mas, embora banheiros privativos, ar-condicionado e comida gourmet de qualidade sejam agora padrão em nossos barcos, nosso espírito original de aventura — e estamos todos juntos nessa — ainda está no cerne do que fazemos."
Raja Ampat: hotspot de biodiversidade da Indonésia
Não é difícil entender por que o leste da Indonésia atrai viajantes aventureiros e abastados.
Em primeiro lugar, oferece uma mistura de mar e terra que parece totalmente irreal. É um mosaico de enseadas turquesas e ilhas verdes exuberantes que se assemelha mais a algo gerado por computação gráfica ou inteligência artificial do que a um lugar real no planeta Terra.
Abaixo da superfície, estão recifes de coral intocados, repletos de milhões de peixes tropicais e outros habitantes das profundezas. As ilhas também abrigam culturas únicas, encontradas em nenhum outro lugar da Indonésia, sociedades pequenas, porém vibrantes, que misturam aspectos da Ásia e do Pacífico.
Raja Ampat, um arquipélago com mais de 600 pequenas ilhas na costa oeste de Papua Ocidental — a metade indonésia da ilha da Nova Guiné — e adjacente às Ilhas das Especiarias, é o que mais recebe elogios (e itinerários de navios).
Declarado Geoparque Mundial pela Unesco em 2023, Raja Ampat é um hotspot de biodiversidade tanto acima quanto abaixo da superfície. Entre seus tesouros estão mais de mil espécies de peixes e mais de 500 tipos de corais duros.
Travers, da SeaTrek, afirma que diversos fatores tornam Raja Ampat tão atraente. “O isolamento, a beleza, a resiliência e a saúde dos corais, o fato de ser tão difícil chegar lá e, consequentemente, estar quase desprovido de turistas. A única maneira de vê-lo é de barco... É simplesmente muito vasto para ser visto de outra forma.”

Tanto PADI, a organização de treinamento de mergulhadores, quanto a revista Dive Magazine classificam Raja Ampat como um dos melhores pontos de mergulho do mundo. O arquipélago também detém um recorde mundial de maior número de espécies de peixes avistadas em um único mergulho: 374 espécies registradas durante um mergulho de 90 minutos em 2014.
As ilhas cársticas irregulares e cobertas pela selva são conhecidas pela sua diversidade de pássaros espetacular e colorida, incluindo espécies fotogênicas como a ave-do-paraíso vermelha, a águia-marinha-de-barriga-branca e a cacatua-das-palmeiras.
“A água é cristalina em Raja Ampat e esta é uma parte do mundo onde há um branqueamento de coral muito limitado”, diz Gerardin.
“Então você vê uma vida marinha incrível se estiver mergulhando, praticando snorkel ou até mesmo em uma prancha de stand up paddle. Você ouve um barulho, levanta a cabeça e vê um grande calau voando para fora da selva. De repente, você não sabe para onde olhar — para cima ou para baixo!”
Muitos cruzeiros também incluem visitas à Ilha de Komodo para observar de perto os maiores lagartos e morcegos (raposas-voadoras) do mundo, ou um desembarque na Ilha de Sumba para ver os cavaleiros locais correndo pela praia em pequenos e robustos pôneis de sândalo.
Por exemplo, a Wilderness Travel oferece seis roteiros marítimos no leste da Indonésia em três navios diferentes. O menu varia de um popular cruzeiro de mergulho com snorkel em Raja Ampat e uma viagem no estilo expedição entre Komodo e Bali a jornadas mais incomuns, como nadar com tubarões-baleia na remota Baía de Cenderawasih, em Papua Ocidental, e uma expedição de mergulho com snorkel às ilhas Wakatobi, perto de Sulawesi.
“Nós nos orgulhamos de encontrar destinos fora dos roteiros turísticos tradicionais”, diz Coenen.
"Lançar âncora à noite em alguns lugares e navegar a motor durante o dia sem avistar outro barco. Você pode não ver ninguém por vários dias. Essa é uma das coisas que as pessoas realmente adoram nos cruzeiros pelo leste da Indonésia."
Travers afirma que, apesar da crescente popularidade das ilhas do leste da Indonésia, ainda há muitas áreas praticamente intocadas pelo turismo.
“Como os arquipélagos de Kei e Aru no Mar de Arafura, entre Raja Ampat e a Austrália.”
A SeaTrek criou uma nova viagem para 2026 e 2027 que visitará essas duas cadeias de ilhas isolados e as Ilhas Banda, terminando na Baía de Triton, em Papua Ocidental, onde os passageiros poderão nadar com tubarões-baleia.
“As pessoas voltam das nossas viagens se sentindo transformadas em muitos níveis”, diz Travers. “Pelo menos, esse é o nosso objetivo.”



