Sarajevo: entre marcas da guerra e resiliência no coração dos Bálcãs
Capital da Bósnia e Herzegovina reúne mesquitas, sinagogas e igrejas lado a lado, refletindo uma história marcada por conflitos e um desejo de transformação
No coração dos Bálcãs, Sarajevo é onde a vida política, social e cultural da Bósnia e Herzegovina acontece. Com cerca de 280 mil habitantes, é uma das poucas capitais europeias onde encontramos uma mesquita, uma sinagoga, uma igreja católica e uma igreja ortodoxa vivendo harmoniosamente no mesmo bairro, a poucos metros de distância.
Esse é apenas um vislumbre do caldeirão cultural que há pela cidade, que mescla de maneira singular influências do Oriente e do Ocidente.
Tida como um dos principais núcleos culturais dos Bálcãs, Sarajevo revela muitas histórias entrelaçadas, várias delas marcadas por conflitos. A visita deixa claro que tanto a cidade quanto o país ainda estão se recompondo, passando por um processo de transformação.
Sarajevo foi uma das cidades que visitei durante o "Grande Expresso do Oriente", viagem de trem desenhada pela agência brasileira Latitudes. Inspirada no lendário Expresso do Oriente, mas adaptada ao contexto geopolítico atual, a travessia cruzou 10 países e 14 cidades da Europa, da Suíça à Turquia, revelando as facetas culturais mais profundas de cada local e nos desafiando a ir além do lugar-comum. O itinerário rendeu cinco episódios para a 12ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia.
Nesse contexto, a capital da Bósnia e Herzegovina foi um dos destinos mais pulsantes que já visitei em termos de resiliência.
As feridas do passado ainda estão aqui, seja nas paredes laterais de algumas igrejas que carregam marcas de tiros ou nas centenas de “rosas de Sarajevo”, que lembram pontos atingidos por bombas durante a década de 1990. Ainda assim, o grande trunfo reside na sua pluralidade, que mostra que uma convivência entre diferentes culturas é possível, revelando uma cidade em reconstrução.
O passado de Sarajevo

Presente no imaginário popular com mais notoriedade a partir do século 20, Sarajevo tem uma história que remonta a tempos mais antigos. Diferentes povos passaram por aqui ao longo dos séculos: romanos deixaram vestígios de termas e eslavos chegaram por volta do século VII. Foi no século XV que a cidade começou a tomar forma, quando os turcos otomanos conquistaram a região.
Ficaram até 1878, quando o Império Austro-Húngaro tomou o controle. Com os austríacos, veio uma certa modernização. Entretanto, no século 20, ficou conhecida como o “barril de pólvora da Europa”.
Foi em Sarajevo que o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em 1914, desencadeou a Primeira Guerra Mundial. O governo austro-húngaro usou a ocasião como pretexto para se mobilizar contra a Sérvia, precipitando o conflito.
Em 1984, Sarajevo sediou os Jogos Olímpicos de Inverno, projetando a cidade globalmente, incitando prosperidade e investimentos em infraestrutura. Tristemente, voltou aos holofotes durante a Guerra da Bósnia, nos anos 1990, um dos conflitos mais violentos da história recente da Europa. Quando a antiga Iugoslávia se desfez, todas as diferenças vieram à tona de forma violenta.
Com o fim da guerra, cujo cerco durou até 1996, a cidade começou a ser reerguida. Em 2019, foi reconhecida pela Unesco como uma Cidade Criativa do Cinema por ter colocado a cultura no centro de suas estratégias de desenvolvimento.
Destaques de Sarajevo
Embora Sarajevo ainda guarde marcas da guerra, a convivência pacífica dos dias atuais se revela em cada caminhada. Há um desejo evidente de seguir em frente. Para nós, visitantes, a cidade é segura e aberta ao turismo.
Em poucos metros, encontramos minaretes, igrejas ortodoxas, catedrais católicas e sinagogas quase lado a lado. A Catedral do Sagrado Coração de Jesus, de 1889, é um dos exemplos mais notáveis dessa mescla. Fica no centro antigo e se consolidou como a maior catedral da Bósnia. Em frente, uma estátua comemora a visita do Papa João Paulo II feita em 1997.
A uma curta caminhada da catedral reside a Il Kal Grandi, uma sinagoga de 1581, a mais antiga do país. Desde 1966, ela abriga o Museu dos Judeus da Bósnia e Herzegovina. Uma vez por ano, o museu abre as portas para orações durante o Ano Novo Judaico, dando continuidade ao legado da antiga comunidade judaica em Sarajevo.
Também na área central, a Gallery 11/07/95 é um espaço de memória dedicado ao genocídio de Srebrenica. O nome faz referência à data de 11 de julho de 1995, quando mais de 8 mil pessoas foram mortas durante a Guerra da Bósnia.
A galeria reúne fotografias, vídeos, documentos e depoimentos que ajudam a contextualizar o massacre e suas consequências. "As fotografias não são apenas instrumentos estáticos. Servem como instrumentos vivos de lembrança. As instituições culturais e memoriais cumprem um papel significativo ao lembrar da história, pois até hoje o genocídio está fora dos livros de história", conta Nedzla Kurtcehajic, curadora da galeria.
Na Coppersmith Street, rua batizada oficialmente de Kazandžiluk, lojinhas típicas vendem produtos de cobre. Os kits de café feitos à mão, símbolo de um hábito enraizado no país, são os itens mais vendidos, alguns feitos até com restos de munição, dando um novo significado ao material.
Entre um passeio e outro, vale sentar em um bar, pedir uma cerveja local e provar o tradicional ćevapi, prato de influência otomana. O pão é servido com carne bovina ou de cordeiro, creme de leite e cebola crua. A iguaria é parte fundamental da culinária e do patrimônio cultural dos Bálcãs, com versões encontradas também na Croácia e na Sérvia.
Para experimentar a receita e apreciar uma cerveja local, a dica é adicionar a Sarajevska Pivara ao roteiro, que, além da produção cervejeira, abriga um restaurante. Trata-se de uma das cervejarias mais antigas dos Bálcãs em operação. Foi fundada em 1864, ainda durante o período do Império Otomano, e atravessou administrações do Império Austro-Húngaro, do Reino da Iugoslávia, da Iugoslávia socialista e da independência da Bósnia.
O interessante é que se tornou um dos símbolos de resistência e esperança da cidade ao fornecer água para a população durante o Cerco de 1992. Na época, grande parte da infraestrutura urbana foi destruída e o acesso à água potável era escasso. Como tinha fonte própria de água subterrânea, a cervejaria virou um ponto de abastecimento fundamental para a vida local.


