Sicília pouco conhecida: sudoeste da ilha reúne templos, vinhos e falésias
De Sciacca a Agrigento, roteiro passa por praias cristalinas, vinícolas, sítios arqueológicos e pequenos vilarejos que revelam um dos lados mais autênticos da maior ilha do Mediterrâneo

Praticamente do tamanho de Alagoas, a Sicília é a maior ilha do Mediterrâneo e nos revela uma faceta italiana moldada por séculos de encontros entre diferentes povos. Não é uma Itália "típica": muitos habitantes se definem primeiro como sicilianos e depois como italianos. Com uma forte identidade própria, seu legado histórico antecede em mais de dois mil anos a unificação italiana, em 1861.
Para entendê-la, precisamos voltar ainda mais no calendário. Palco de disputas, impérios e civilizações, viajar por esta ilha do sul da Itália é ter a certeza de encontrar marcas deixadas por fenícios, gregos, romanos, árabes, normandos e espanhóis, que moldaram sua arquitetura, tradições e gastronomia.
Palermo, Taormina, Cefalù e Siracusa costumam ser os primeiros destinos que vêm à mente quando pensamos na Sicília. Mas como todo bom destino, a ilha tem um lado que poucos viajantes conhecem. Recentemente, parti em uma jornada pela porção sudoeste, onde encontrei templos gregos, praias selvagens de cores azuis intensas e cidadezinhas com atmosfera de interior.
É uma Sicília menos lotada e mais contemplativa. Entre vestígios da Magna Grécia, reservas naturais, vinícolas e uma gastronomia que sintetiza a herança de diferentes civilizações, a região me revelou um dos retratos mais autênticos do Mediterrâneo.
Sciacca, famosa por sua tradição cerâmica; Agrigento, guardiã do Vale dos Templos; Menfi, cercada por vinhedos; e Torre Salsa, reserva natural com falésias, dunas e mar cristalino, entraram no meu roteiro de férias pela Europa. Juntos, os destinos mostram uma Sicília que merece ser descoberta sem pressa, exatamente como pede a ilha.
Ponto de partida: Sciacca
Sciacca foi a minha base e ponto de partida pelo sudoeste da Sicília. A cerca de duas horas de carro de Palermo, a cidadezinha fica em uma colina voltada para o Mediterrâneo, longe do burburinho dos outros destinos. Com tradição de cerâmicas, encontradas em lojinhas do centro, é uma cidade ainda vivida pelos sicilianos, com ruas estreitas que refletem a ocupação árabe.
Sciacca se desenvolveu como um próspero porto e, desde a Antiguidade, vive da pesca. Hoje, o menu dos restaurantes muda conforme o que o mar entrega naquele dia.
Na minha lista de desejos, o Verdura Resort, a Rocco Forte Hotel foi a minha hospedagem nos dias de verão que passei na ilha. De frente para o Mediterrâneo, o resort se espalha por 230 hectares e reúne fazenda orgânica, campos de golfe, quase 2 km de praia privativa, spa de 4 mil m², oito restaurantes e quatro bares - meus destaques são o Amare, de frutos do mar, o Liolà, tipicamente siciliano, e o Zagara, de fine dining.
Após uma reforma concluída no ano passado, o resort ganhou novas opções gastronômicas e uma charmosa praça ao redor de uma torre sarracena do século XVI, hoje um dos pontos mais agradáveis da propriedade.
Pelos restaurantes locais de Sciacca, vale procurar iguarias como a Tabisca Saccense, espécie de pizza rústica preparada em forno a lenha com anchovas, e os Cucchiteddi, doces de marzipã recheados com doce de abóbora.
Entre as paradinhas gastronômicas, destaco a Hostaria del Vicolo, recomendada pelo Guia Michelin, onde peixes, vegetais e ingredientes locais revelam a essência da cozinha siciliana, e o Porto San Paolo, frequentado pelos moradores, com massas, frutos do mar e peixe do dia.
Uma das lembranças mais marcantes da viagem surgiu cerca de meia hora adiante, quase chegando na cidade de Menfi. Falo da Cantine De Gregorio, vinícola familiar que tem mesas espalhadas ao ar livre do ladinho de uma torre do século XV. Ali são oferecidas degustações, aulas de culinária e almoços regados a rótulos da própria família.
Menfi e o enoturismo
Em Menfi, o vinho faz parte do cenário tanto quanto o mar. Hoje, é uma das regiões vinícolas mais importantes da Sicília, com paisagens recheadas de colinas, oliveiras e vinhedos. A proximidade da costa ajuda a moldar o caráter dos rótulos: são vinhos mediterrâneos, de fruta madura, equilibrados pela frescura das brisas que sopram do mar, combinação que transformou Menfi em referência da nova viticultura siciliana.
Entre os nomes da região, destaco a Planeta, uma das vinícolas mais influentes da Itália; Mandrarossa, símbolo da viticultura moderna siciliana; e a Cantine Barbera, referência em produção orgânica e biodinâmica.

Fundada por uma família que produz vinho há 17 gerações, a Planeta merece estar no roteiro. O passeio pelos vinhedos pode terminar na mesa do La Foresteria Ristorante, comandado pelo chef Angelo Pumilia. A cozinha revisita receitas sicilianas com técnicas contemporâneas, tudo diante de vinhedos que descem em direção ao Mediterrâneo.
A Planeta ainda dispõe de hospedagens e até de um beach club, o Insula, na praia de Lido Fiori. Antes de deixar Menfi, vale uma parada no Ristorante Le 4 Stagioni, em Porto Palo di Menfi. À beira-mar, é um clássico para provar peixes e frutos do mar.
Agrigento e o Vale dos Templos
Em 2025, Agrigento foi escolhida como a Capital Italiana da Cultura, reconhecimento que reforçou a importância da cidade, cuja história remonta ao século VI a.C. Fundada pelos gregos, se tornou um dos locais mais prósperos da Magna Grécia e preserva um dos conjuntos arqueológicos mais impressionantes do Mediterrâneo.
O grande motivo da visita é o Vale dos Templos, declarado Patrimônio Mundial pela Unesco, que ocupa cerca de 1.300 hectares e reúne mais de dez templos da Grécia Antiga, além de necrópoles, jardins e outros vestígios da Antiguidade. É daqueles lugares que nos dão uma aula de história impactante sem precisarmos abrir a apostila.
O cartão-postal é o Templo da Concórdia, um dos templos dóricos mais bem preservados do mundo. Erguido há mais de dois mil anos, sobreviveu praticamente intacto por ter sido convertido em igreja cristã no século VI. Bem à sua frente está outra parada obrigatória: a escultura Ícaro Caído, feita em 2011 pelo artista polonês Igor Mitoraj. A figura monumental cria um contraste entre a arte contemporânea e a arquitetura da Grécia Antiga.
Reserve algumas horas para percorrer todo o parque, já que ali também estão construções como os templos de Hércules e de Zeus Olímpico, além do Giardino della Kolymbethra, antigo sistema de irrigação transformado em um jardim repleto de plantas cítricas, oliveiras e amendoeiras. Os ingressos para o parque do Vale dos Templos saem a partir de 14 euros por adulto (R$ 81).
Depois da visita, vale subir ao centro histórico de Agrigento. A Via Atenea concentra cafés, restaurantes, sorveterias e lojinhas. Também há a Viale della Vittoria, com vistas para o Vale dos Templos e o mar. Para comer, o Il Re di Girgenti é elegante, com vista para os monumentos, assim como o La Terrazza degli Dei, restaurante com vista frontal para o Templo da Concórdia.
Templos, praias e o mar azul infinito
O trajeto entre Sciacca e Agrigento é um espetáculo por si só, com falésias e penhascos que contrastam lindamente com o azul do Mediterrâneo. O trecho abriga ruínas menos conhecidas e até uma reserva natural que é melhor aproveitada em um passeio de barco.
Um dos cartões-postais é a Scala dei Turchi, uma das paisagens naturais mais fotografadas de toda a Sicília. A falésia monumental é composta por uma rocha branquíssima, onde o vento e as ondas moldaram grandes degraus ao longo do tempo. Caminhar por cima da rocha é proibido: hoje, podemos apreciar o local a partir de mirantes ou das praias ao redor.
Porém, para passeios igualmente deslumbrantes, preferi desbravar a Reserva Natural de Torre Salsa, um dos trechos mais intocados do litoral da Sicília, protegida pelo World Wide Fund for Nature (WWF). São quilômetros de praias selvagens, dunas e falésias brancas praticamente sem intervenção humana.

De barco, segui até Capo Bianco, um imponente paredão de rocha branca moldado ao longo de milhões de anos. A combinação das falésias com a transparência da água, a profundidade do mar e o fundo arenoso cria um espetáculo de cores que vai do verde-esmeralda ao azul intenso. Mas se prepare: a água é muito gelada, principalmente na parte mais funda. Mesmo assim, em dias extremamente quentes, o mergulho vale a pena.
No topo de Capo Bianco, outra joia quase esquecida pelo tempo nos lembra das origens da Sicília. Bem menos conhecida que o Vale dos Templos, a Eraclea Minoa foi uma antiga cidade e colônia grega, combinando ruínas, falésias e praias. O pequeno sítio arqueológico remonta ao século VI a.C. e o destaque é o teatro esculpido na rocha. O ingresso sai 6 euros por adulto (R$ 35).
Outros destinos fora do óbvio
Embora Sciacca, Menfi e Agrigento concentrem alguns dos principais atrativos do sudoeste da Sicília, a região reserva outras paradinhas que merecem ser consideradas. Selinunte, por exemplo, abriga o maior parque arqueológico da Europa. Fundada pelos gregos por volta de 650 a.C., hoje abrange templos, muralhas e colunas monumentais diante do Mediterrâneo.
Já o pequeno vilarejo de Burgio nos conquista pela autenticidade. O local mantém viva a cerâmica artesanal e a fundição manual de sinos, tradições que foram passadas de geração em geração e que ainda fazem parte do cotidiano.
Entre vinhedos e o Lago Arancio, Sambuca di Sicilia figura entre os vilarejos mais bonitos do país. Aqui encontramos ruelas estreitas e um ritmo que convida a conhecer uma Sicília ligada ao campo, ao vinho e à agricultura. Por fim, pesquisadores elegeram Caltabellotta como uma "Blue Zone" emergente, reconhecida pela longevidade de seus habitantes, atribuída à combinação entre alimentação mediterrânea e qualidade de vida. No fim do dia, a visita nos inspira a levar uma vida mais tranquila.
Palermo e arredores
É inegável que Palermo e Taormina são as portas de entrada para quem visita a Sicília pela primeira vez. Entre mercados históricos, o Monte Etna e cidades que carregam séculos de história, os destinos reúnem alguns dos cartões-postais mais emblemáticos da ilha. Se esse é o roteiro que você procura, vale conferir os episódios do CNN Viagem & Gastronomia na Sicília:
Sicília: uma viagem pela história e gastronomia italiana
Taormina e os encantos do Etna: vinhos, vulcão e o charme italiano


