Turismo de bem-estar deve valer US$ 1,35 tri até 2028
Diversificação da oferta e conscientização sobre estilos de vida saudáveis são alguns dos motivos do crescimento do setor

O turismo de bem-estar tem crescido desde o fim da pandemia de Covid-19, decretado em maio de 2023 pela OMS (Organização Mundial da Saúde), e deve continuar em ascensão. Prova disso é o estudo da Global Wellness Institute, publicado no fim de julho, que prevê uma movimentação no setor de US$ 1,35 trilhão (cerca de R$ 7 trilhões) até 2028. Atualmente, o mercado é avaliado em US$ 830 bilhões (o equivalente a R$ 4,5 trilhões).
O crescimento do turismo de bem-estar é o resultado de uma combinação de fatores. Entre as causas do sucesso estão a diversificação da oferta e a conscientização sobre estilos de vida saudáveis. Entra na conta ainda o fim da pandemia.
"A pandemia teve um papel central ao intensificar a valorização da saúde, da prevenção e do equilíbrio emocional, além de reforçar a busca por melhoria da saúde mental", explica Verônica Mayer, professora da pós-graduação em turismo da UFF (Universidade Federal Fluminense) e da USP (Universidade de São Paulo).
A impossibilidade de sair de casa por longos períodos resultou em um desejo maior por viagens em busca da melhoria da saúde, do foco no bem-estar e do aumento da qualidade de vida. Essas práticas incluem programas como spas, experiências na natureza, termalismo, terapias complementares, programas de relaxamento, alimentação saudável e desintoxicação.
"Outro aspecto é o aumento da conscientização sobre estilos de vida saudáveis e o envelhecimento ativo, o que amplia o público e retira o estigma de que bem-estar é um luxo", completa a professora, que afirma que atividades físicas ao ar livre, esportes náuticos, corridas de aventura e o contato com ambientes naturais impactam positivamente o bem-estar dos viajantes.
Islaine Cavalcante, doutora em turismo pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), explica que, nesse segmento, "o que pesa mesmo é a necessidade de desconectar do mundo digital, aliviar o estresse do dia a dia ou passar por uma transformação pessoal".
Hoje, o 'novo luxo' é poder viver desconectado, estar no off. Isso abriu espaço para viagens que priorizam qualidade de vida
"Boom" do turismo de bem-estar

O relatório do Global Wellness Institute (GWI) aponta tendências do mercado para reforçar o crescimento deste nicho. Para isso, hotéis e agências de viagens devem criar experiências personalizadas, integrar práticas de bem-estar às atividades regulares do destino e valorizar elementos locais, como recursos naturais, conhecimentos tradicionais e cultura local.
"A diversificação para segmentos incluem experiências gastronômicas saudáveis, turismo urbano de bem-estar, aventuras ao ar livre com foco em saúde, programas culturais ligados a práticas de autocuidado e reconexão com a natureza", pontua Verônica.
Segundo o relatório, a África tem se destacado como continente que tem potencial de liderar o mercado global do turismo de bem-estar. Os exemplos vão desde astroturismo na Namíbia e peregrinações espirituais no Egito até retiros de plantas medicinais em países no centro e no sul do continente.
A sustentabilidade "também vai pesar cada vez mais na escolha do consumidor, favorecendo negócios que cuidam do meio ambiente e têm impacto social positivo", aponta Islaine. O estudo do GWI indica que Suíça e Nova Zelândia têm ganhando popularidade por iniciativas turísticas ecologicamente corretas.
Ambos os destinos também têm seduzido viajantes do mundo todo pela qualidade do ar, com certificações que enfatizam padrões de ar limpo alinhados a práticas sustentáveis.
Dentro do turismo de bem-estar, outra vertente que tem ganhado os holofotes é o turismo do sono, que tem ido além de bons colchões nos quartos, como experiências de sono holísticas e até serviços de "coaching" do sono.
Qual a diferença entre o turismo de bem-estar e o médico?
Os turistas em busca de bem-estar planejam atividades em spas, terapias e experiências com a natureza, atuando na prevenção de doenças e na melhoria da qualidade de vida. A diferença é que o turismo médico é motivado por tratamentos clínicos, estéticos ou cirúrgicos.
"Os clientes são incentivados a seguir determinados tratamentos para corrigir problemas de saúde ou estéticos, enquanto no turismo de bem-estar os clientes buscam melhorias na qualidade de vida e o bem-estar como forma preventiva", explica Letícia Cynara, doutoranda em turismo pela Univali (Universidade do Vale do Itajaí).
Apesar das diferenças, ambas as formas de viagem podem ser complementares "quando o turista que viaja para um tratamento médico também busca atividades de bem-estar para acelerar a recuperação ou melhorar seu estado geral antes e depois do procedimento", diz Verônica.
"Os gastos tanto para o turismo médico quanto para o de bem-estar podem ultrapassar em muito os do turismo de lazer convencional, seja pela contratação de serviços especializados e de maior valor agregado, seja pela presença de acompanhantes e familiares, ampliando o impacto econômico nos destinos", completa a professora.
Turismo consciente
Mas como fazer com que o turismo de bem-estar cresça ainda mais? As especialistas apontam para a necessidade de uma boa infraestrutura, qualificação de profissionais e alta capacidade de comunicação sobre os benefícios dessas experiências.
A tecnologia, segundo Islaine, também será uma importante aliada para agendamento, marketing e gestão da reputação online, "mas sempre como complemento do contato humano e não como substituto".
O alto valor agregado de experiências memoráveis e a valorização de empreendedores locais, segundo Verônica, representam uma "oportunidade para promover um turismo mais consciente e sustentável, evitando o incentivo ao turismo de massa", que pode causar danos às economias locais e ao meio ambiente.


