Um único check-in, vários destinos: o hotel de luxo flutuante Explora I

A bordo do Explora I, a única loja da Rolex em alto-mar, uma adega com rótulos de milhares de euros e uma galeria de arte com obras de Salvador Dalí chamam a atenção. Mas o verdadeiro luxo é outro: passar uma semana navegando pelo Mediterrâneo, em pleno verão europeu, sem disputar uma espreguiçadeira nem enfrentar uma única fila

Tina Bini, do Viagem & Gastronomia
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"Viajar de navio é como ler um livro que nunca termina." A frase do capitão Diego Michelozzi, comandante do Explora I, sintetiza a proposta do Explora Journeys: transformar a experiência a bordo em algo contínuo e em constante renovação.

A cada dia, um novo programa, um novo lugar para descobrir dentro e fora do navio, novos sabores entre as muitas opções gastronômicas e possibilidades de roteiros que nunca são exatamente iguais. O hóspede desfaz a mala uma única vez, enquanto a experiência se reinventa continuamente, seja em terra ou na vida a bordo.

O Explora Journeys, marca de viagens marítimas de luxo do Grupo MSC, disputa espaço em um segmento em que a referência já não são os grandes cruzeiros, mas os melhores hotéis do mundo. O conceito parece simples, embora seja difícil de colocar em prática: fazer com que o navio deixe de ser apenas o meio de transporte entre dois destinos e passe a ser, ele próprio, o destino.

Para entender até que ponto essa promessa se sustenta, a CNN Viagem & Gastronomia embarcou por sete dias no Explora I, o primeiro navio da marca, lançado em 2023 e prestes a ganhar uma terceira embarcação. O roteiro partiu de Barcelona, onde a companhia mantém um amplo terminal exclusivo para seus hóspedes, e seguiu por Ibiza, Menorca, Alghero, na Sardenha, e Mônaco, antes de retornar à capital catalã.

Para quem ainda associa cruzeiros a filas para o buffet, piscinas lotadas, disputa por espreguiçadeiras e uma programação quase militar para aproveitar todas as atrações, a primeira impressão surpreende. Poucas horas depois do embarque, fica evidente que o Explora I opera em outro ritmo.

Embora receba pouco mais de 900 hóspedes, o navio raramente transmite essa sensação. Sempre há uma espreguiçadeira vazia voltada para o mar. Os lounges permanecem silenciosos mesmo nos horários de maior movimento. Nos restaurantes, dificilmente é preciso esperar por uma mesa. Em vez da agitação normalmente associada aos grandes cruzeiros, prevalece uma atmosfera de calma que lembra mais um resort de alto padrão do que uma embarcação cruzando o Mediterrâneo.

Nada disso acontece por acaso.

A arquitetura foi desenhada para distribuir naturalmente os hóspedes pelos diferentes ambientes, enquanto uma das maiores proporções entre tripulação e passageiros da indústria (cerca de 1,25 membro da tripulação para cada viajante) permite que o serviço aconteça quase de forma invisível. A água chega antes de ser pedida. A toalha da piscina é substituída enquanto o hóspede ainda está na piscina. Em poucos dias, garçons passam a lembrar preferências de bebidas e restrições alimentares sem transformar atenção em formalidade.

É um tipo de hospitalidade que raramente tenta impressionar. Sua maior qualidade está justamente em parecer natural.

Não são cabines, são suítes

A palavra "cabine" praticamente desapareceu do vocabulário da Explora Journeys. Basta atravessar a porta para entender por quê. Todas as acomodações são voltadas para o mar e lembram mais um quarto de um hotel de alto padrão do que uma embarcação. Há varanda privativa, espaçosa cama, sofá, closet, penteadeira, frigobar abastecido de acordo com as preferências do hóspede, máquina de café, banheiro amplo e janelas do chão ao teto que fazem do oceano parte da decoração.

São, porém, os detalhes que transformam a experiência. Cada suíte conta com binóculos para acompanhar a navegação e a chegada aos portos, equipamentos para exercícios físicos e um secador Dyson Supersonic, para o sonho de quem tem longas madeixas. Um sensor de movimento embutido no piso acende uma iluminação suave durante a madrugada, dispensando a busca pelo interruptor. Nas estantes, livros de fotografia, arquitetura, design e literatura, em diferentes idiomas, reforçam a sensação de estar em uma sala de estar elegante, e não em um navio.

Com o passar dos dias, a suíte parece aprender os hábitos de quem a ocupa. As bebidas escolhidas no embarque passam a ser repostas automaticamente no minibar e, todas as noites, um jornal com a programação do dia seguinte é deixado discretamente no quarto. É uma hospitalidade silenciosa, que antecipa necessidades sem parecer excessivamente calculada.

Foi justamente o serviço de quarto, disponível 24 horas e incluído na tarifa, que resolveu um "problema" inesperado durante a viagem. Com o fuso horário completamente desregulado, a fome apareceu no meio da madrugada. Bastaram poucos minutos entre o pedido e a chegada da refeição. Sem filas, sem horários limitados e sem qualquer sensação de improviso.

Outra comodidade que rapidamente deixa de ser um luxo para virar rotina é o café da manhã servido na própria suíte. Todas as noites, um menu é deixado no quarto para que o hóspede escolha os pratos e defina o horário da entrega. Na manhã seguinte, a refeição chega pontualmente. Tomar café na varanda enquanto o navio se aproxima lentamente de um novo porto ajuda a compreender uma das principais propostas da Explora Journeys: transformar o deslocamento em parte da própria viagem.

Essa disponibilidade permanente muda a relação do hóspede com o navio. Em vez de adaptar a rotina aos horários da embarcação, é a embarcação que parece se adaptar ao ritmo de cada passageiro.

Ao deixar a suíte, a sensação permanece. Há sempre um lounge silencioso para ler um livro ou simplesmente observar o mar, um bar onde o bartender prepara seu drinque preferido ou uma espreguiçadeira esperando por quem queira passar horas contemplando o horizonte. O Wi-Fi, surpreendentemente estável mesmo em alto-mar, permite até trabalhar ou acompanhar as redes sociais sem dificuldade, mas poucos resistem por muito tempo às janelas voltadas para o Mediterrâneo.

O Explora I convida à convivência, mas sem a agitação normalmente associada aos grandes cruzeiros. Ao entardecer, o pôr do sol transforma naturalmente os decks externos em ponto de encontro. Para quem prefere uma programação mais ativa, há espetáculos todas as noites, apresentações de DJs, aulas e oficinas que vão da gastronomia ao yoga. Respeitando o ritmo e preferência de cada viajante, seja socializando, seja simplesmente contemplando o mar.

Gastronomia: um mar de opções

A gastronomia é um dos pilares da experiência a bordo. Em vez de concentrar as refeições em um único salão, o navio oferece seis restaurantes e 12 opções de bares/lounges, cada um com personalidade própria. 

Independentemente da categoria da suíte ou do roteiro escolhido, praticamente toda a experiência gastronômica está incluída na tarifa, assim como uma ampla seleção de vinhos, destilados, cervejas e coquetéis. A única exceção é o Anthology, restaurante que oferece menus degustação harmonizados e eventualmente recebe chefs convidados estrelados.

O coração dessa gigantesca operação é o Emporium Marketplace, um amplo restaurante que reúne diversas estações gastronômicas. Ali, é possível escolher entre culinária japonesa, pizzas preparadas na hora, massas frescas, carnes e peixes grelhados, hambúrgueres, saladas, queijos, pães e sobremesas. Apesar da variedade, o ambiente foge do conceito tradicional de buffet. Os pratos não ficam expostos por horas: são preparados continuamente e servidos pelos próprios atendentes em cada estação, uma solução que preserva a qualidade dos alimentos e torna a experiência mais organizada e higiênica. Além disso, é o único restaurante do navio que dispensa reservas. Nos demais, o ideal é garantir uma mesa logo após o embarque, principalmente nos roteiros mais concorridos.

Foi ali que tive meu primeiro contato com a gastronomia do navio. Ainda nas primeiras horas a bordo, pedi algumas peças de sushi, com cortes frescos de atum, salmão e camarão. Depois, o primeiro jantar foi no Fil Rouge, restaurante inspirado na culinária francesa. A clássica sopa de cebola abriu a refeição antes de um cordeiro grelhado servido exatamente no ponto ideal. No dia seguinte, o almoço aconteceu de forma bem diferente: uma salada grega entregue na suíte, apreciada na varanda.

À noite, foi a vez do Med Yacht Club, dedicado aos sabores da Riviera Francesa e da costa italiana. Entre pratos para compartilhar, uma carbonara cremosa e um risoto à milanesa mostraram boa execução. A surpresa ficou por conta de um improvável dadinho de tapioca, preparado com perfeição e dividindo espaço no cardápio com carpaccio, polvo e outras receitas mediterrâneas.

No Marble & Co. Grill, especializado em carnes e frutos do mar grelhados, encontrei provavelmente a melhor refeição da semana. Um corte de carne servido exatamente no ponto solicitado mostrou que, ali, a simplicidade também pode ser sinônimo de excelência.

Já no Sakura, dedicado às cozinhas japonesa e do Sudeste Asiático, a sequência começou com sushis e sashimis de ótima qualidade antes de um pad thai de camarão equilibrado e muito bem preparado.

Depois de sete dias a bordo, surgiu uma constatação curiosa: não houve uma única refeição repetida. E não por falta de vontade de revisitar alguns pratos, mas porque a variedade de cozinhas e a qualidade faziam surgir sempre uma nova opção capaz de despertar a curiosidade.

A engrenagem invisível

É justamente quando a rotina a bordo parece completamente natural que fica mais fácil esquecer a complexa operação que sustenta tudo isso. Enquanto hóspedes escolhem sem pressa entre um mergulho na piscina, uma massagem no Ocean Wellness Spa ou ir a alguma das academias (interna ou externa) uma verdadeira cidade funciona silenciosamente nos bastidores.

Um navio nunca para. Cozinhas abastecem restaurantes praticamente durante todo o dia, toneladas de alimentos são armazenadas e distribuídas, lavanderias operam sem interrupção, sistemas de dessalinização produzem água doce continuamente e centenas de profissionais se revezam para que quase nada pareça exigir esforço.

Da ponte de comando, que é permitida agendar uma visitação muito interessante, também saem decisões que os hóspedes dificilmente percebem, mas que ajudam a definir a filosofia da companhia. Navegar vai muito além de seguir uma rota previamente traçada. Em determinadas regiões, como o Golfo de Lion e o Golfo de Gênova, conhecidas pela presença de baleias, golfinhos e outros mamíferos marinhos, a velocidade pode ser reduzida e pequenas alterações de percurso são realizadas para minimizar interferências na fauna.

A preocupação ambiental aparece em diversos aspectos da operação. O Explora I produz toda a água doce consumida a bordo por meio de sistemas de dessalinização, realiza tratamento rigoroso de resíduos e, por política da companhia, não faz descarte de água oleosa no mar, mesmo quando a legislação internacional permitiria esse procedimento em determinadas condições. As hélices também foram desenvolvidas para reduzir a cavitação, diminuindo o ruído subaquático que pode interferir na comunicação e na orientação de diversas espécies marinhas.

Essa capacidade de combinar hospitalidade, operação e sustentabilidade ajuda a explicar a rápida expansão da Explora Journeys. Lançada em 2023 como a marca de luxo do Grupo MSC, a companhia prevê uma frota de seis navios até 2028, resultado de um investimento de € 3,5 bilhões, algo em torno de R$ 20 bilhões. Os itinerários incluirão Mediterrâneo, Caribe, América do Sul, Ásia, África e Oceania, mantendo a mesma proposta em qualquer parte do mundo.

Depois de uma semana a bordo, fica claro que a ambição da marca vai além de construir navios luxuosos. A ideia é oferecer uma nova forma de viajar, em que o deslocamento deixa de ser apenas o intervalo entre dois destinos e passa a fazer parte da experiência.

Foi impossível desembarcar sem lembrar novamente da frase do capitão Diego Michelozzi: "Viajar de navio é como ler um livro que nunca termina."

Depois de alguns dias no Explora I, ela deixa de parecer uma boa metáfora. Cada porto acrescenta um novo capítulo, mas são justamente as páginas escritas entre uma chegada e outra que tornam a viagem inesquecível.

 

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