Conheça tesouros milenares na ilha mais populosa do mundo

Entre o palácio de um sultão, templos budistas e santuários hindus, cidade de Yogyakarta revela a rica história da ilha de Java

Lilit Marcus, da CNN
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Na frenética e agitada metrópole de Jacarta, um presidente eleito democraticamente supervisiona o governo da Indonésia. Mas, a apenas algumas horas a leste, um sultão ainda mantém a sua corte.

Yogyakarta é algo raro: um reino de sultão dentro de um país que é uma república. Na língua javanesa local, a letra Y é pronunciada como um J forte, e o nome da cidade é abreviado para "Jogja".

Aqui em Jogja, uma cidade cuja espinha dorsal foi construída ao longo de um antigo eixo cosmológico, o presente sempre coexiste com o passado.

A cidade moderna é repleta de ruído e cor. Refrigeradores vermelhos oferecem garrafas da onipresente cerveja Bintang, típica da Indonésia. Cortinas listradas sombreiam cafés à beira da estrada. A arte de rua busca inspiração em antigas estampas de batik, uma técnica milenar de tingimento artesanal. Baladas pop em língua local e rap americano ecoam pelas caixas de som.

Embora o trânsito em Jogja possa rivalizar com o de Jacarta nos horários de pico, o coração da cidade tem uma atmosfera diferente. As ruas estreitas ao redor do palácio do sultão estão repletas de mochileiros, vendedores ambulantes, guias turísticos oferecendo seus serviços e trabalhadores de escritório que saem para tomar um café em meio à agitação.

Mais de 150 milhões de pessoas vivem em Java, núcleo econômico e político da Indonésia, que corresponde à ilha mais populosa do mundo. Ela também está repleta de tesouros. Em um raio de 40 km, há três sítios do Patrimônio Mundial da Unesco. O primeiro deles é a própria Yogyakarta. Seu centro histórico foi construído em meados do século XVIII em um local auspicioso, escolhido por sua proximidade a pontos na terra e nos céus.

Seu edifício mais importante, o Kraton ou Palácio do Sultão, foi construído a uma distância equivalente entre o Oceano Índico, ao sul, e o ainda ativo Monte Merapi, ao norte. O país que se tornou a Indonésia moderna já teve vários sultões, mas o de Yogyakarta se opôs ao domínio colonial holandês após a Segunda Guerra Mundial e teve permissão para manter seu território quando um governo federal independente assumiu o poder.

Kraton é o lugar ideal para começar uma viagem pelo centro de Java, e também é um ponto de partida para entender Yogyakarta. Embora ainda seja a residência do sultão Hamengkubuwono X e de sua família, grande parte do espaço está aberta ao público. A taxa de entrada inclui um guia, e vale a pena: cada construção, do pavilhão de vidro decorado com imagens de instrumentos musicais às esculturas de animais mitológicos que ladeiam as entradas, carrega um profundo significado simbólico que provavelmente passaria despercebido para muitos visitantes.

Também nas proximidades fica Tamansari. Às vezes escrito como duas palavras, Taman Sari, o nome significa "jardim perfumado" ou "jardim belo", mas geralmente é chamado de castelo d'água. É fácil entender o porquê: o impressionante espelho d'água no centro do complexo do palácio é esverdeado ou azul, dependendo da incidência da luz solar. Foi projetado em uma mistura de estilos do patrimônio holandês e indonésio, encapsulando perfeitamente as contradições que tornam Jogja tão fascinante.

Seguindo o caminho além da saída, é possível explorar a área hoje conhecida como Vila Turística de Tamansari. Ali, artistas indonésios contemporâneos pintam murais, vendem peças de artesanato tradicional, como tecido batik e joias de prata finamente trabalhadas, e preparam lattes com o famoso café de civeta de Java.

Um milênio em um dia

É possível viajar centenas de anos em poucas horas visitando dois templos considerados Patrimônio Mundial, localizados nos arredores de Yogyakarta.

O mais famoso dos lugares históricos da ilha de Java é Borobudur, um dos maiores templos budistas do mundo. Atualmente, a religião mais praticada na Indonésia é o islamismo, mas tanto as dinastias hindu quanto as budistas prosperaram aqui nos séculos VIII e IX. Borobudur, um imenso complexo de templos em forma de lótus com uma imponente fachada de pedra, ergue-se majestosamente em uma planície banhada de sol.

A espiritualidade de Borobudur ainda permeia o ar ao seu redor. Embora grande parte da população de Java tenha se convertido ao islamismo e Borobudur tenha sido abandonado, ele não foi destruído.

Segundo Panggah Ardiyansyah, natural de Jogja e professor da Universidade SOAS em Londres, Borobudur é "sagrado" até hoje. Os moradores locais reverenciavam o lugar a ponto de não interferir nele e acreditavam que mexer no sítio traria má sorte.

Ardiyansyah aconselha que as pessoas que visitam Borobudur estudem os relevos ao longo das paredes do templo, que mostram cenas da vida de Buda.

"Na antiguidade, as pessoas tentavam contar histórias usando relevos, desenhos em paredes ou estátuas. É fascinante. Você pode tentar entender por conta própria, tentar consultar os manuscritos e tentar 'ler' essas representações."

É tentador subir imediatamente ao topo de Borobudur e tirar fotos da impressionante paisagem ao redor. Uma abordagem mais espiritual é realizar o pradakshina, um ato tradicional de circundar um local sagrado várias vezes no sentido horário. Os guias recomendam fazê-lo três ou mais vezes para entrar em um estado de espírito mais meditativo. Os verdadeiramente devotos farão 108 voltas, pois o número é espiritualmente importante no budismo.

Ardiyansyah observa que muitos dos tesouros de Borobudur foram, no passado, removidos e levados para o exterior. Nas últimas décadas, o governo dos Países Baixos — que colonizou a Indonésia entre os séculos XVII e XX — vem repatriando esculturas, relevos e outros itens para a administração de artes e cultura em Java.

No entanto, muitos outros artefatos de Borobudur, incluindo cabeças de Buda removidas de seus corpos, permanecem em museus nos Estados Unidos e na Europa, além de provavelmente em coleções privadas.

Os visitantes que desejam subir a Borobudur devem reservar um horário online com antecedência, pois o número é limitado a 1.200 pessoas por dia. No local, eles devem trocar seus sapatos por um par de sandálias tradicionais trançadas chamadas "upanat", que são calçados ecológicos, projetados para proteger as antigas pedras vulcânicas, e que podem ser guardados como lembrança.

Acompanhados por um guia obrigatório, os visitantes embarcam em um veículo até a base do templo. O horário mais cedo disponível para turistas estrangeiros é às 8h30, mas alguns hotéis, como o luxuoso Amanjiwo, podem organizar passeios ao nascer do sol mediante uma taxa adicional.

A escala impressionante e a intrincada obra em pedra de Borobudur têm atraído inúmeras figuras globais ao longo dos anos. O Príncipe Charles, a ex-primeira-ministra indiana Indira Gandhi e Barack Obama estão entre as personalidades que percorreram suas galerias de pedra e experimentaram o "kunto bimo", um ritual popular em que os visitantes estendem a mão dentro de uma estupa em forma de treliça para tocar um Buda de pedra, com a promessa de que isso realizará um desejo.

Como a prática não tem raízes nas crenças budistas tradicionais, historiadores e moradores locais suspeitam que ela foi inventada como uma atração turística há muito tempo, embora tenha se tornado uma tradição à sua própria maneira.

Já complexo de templos hindus de Prambanan não é tão movimentado quanto seu vizinho budista, o que é uma vantagem para viajantes com pouco tempo. Não é necessário fazer reservas, e ambos os templos podem ser visitados no mesmo dia com relativa facilidade. Empresas de turismo, como a Jogja Driver Team, recomendam visitar Borobudur pela manhã para evitar o calor mais intenso e, em seguida, Prambanan após o almoço.

As entradas e saídas de Prambanan também estão repletas de vendedores que comercializam souvenirs e bebidas geladas, oferecendo uma boa oportunidade para adquirir uma garrafa d'água. O local é amplo e totalmente exposto ao sol escaldante de Java, por isso é importante manter-se hidratado. Recomenda-se também o uso de chapéu, calçados confortáveis ​​para caminhada e protetor solar.

Os viajantes pela Ásia podem ter uma sensação de déjà vu ao avistar Prambanan pela primeira vez, o maior complexo de templos hindus da Indonésia. Isso porque ele se assemelha a uma das atrações turísticas mais famosas da região: o Angkor Wat, no Camboja.

Os altos templos apresentam bases quadradas e torres cônicas adornadas com intrincadas esculturas em pedra de deuses e animais mitológicos, com as três maiores estruturas dedicadas a Shiva, Brahma e Vishnu.

No total, mais de 200 santuários e templos estão espalhados por 40 hectares de terra.

Embora Borobudur e Prambanan pareçam e transmitam sensações completamente distintas, é quase impossível não compará-los. Muitos visitantes ficam surpresos com o fato de monumentos tão imponentes, representando duas religiões mundiais completamente diferentes, terem sido construídos a uma curta distância um do outro.

"Muitas pessoas querem enxergar isso como culturas rivais ou religiões rivais, mas, na época, não era visto dessa forma", diz William Chapman, que passou muitos anos na Indonésia trabalhando em projetos de restauração.

"Borobudur começou a chamar atenção cedo, desde o início do século XIX. Há muito mais esculturas, muitos relevos, era mais acessível e tinha uma bela vista." Prambanan, por sua vez, foi abandonado e amplamente negligenciado até o início do século XX, com a primeira restauração na década de 1930, acrescentou Chapman.

Embora Prambanan atualmente receba menos visitantes do que seu vizinho budista, Chapman acredita que esse equilíbrio está mudando. A classe média indiana, em rápido crescimento, está cada vez mais interessada em viagens internacionais, e Chapman afirma que há uma forte atração por destinos com profunda herança hindu. Como a Indonésia oferece visto na chegada para portadores de passaporte indiano, a visita é relativamente fácil.

Mesmo em meio a multidões de turistas, ao sol escaldante do meio-dia e com os pés cansados após quilômetros de caminhada, a sensação de espiritualidade em Yogyakarta e em seus tesouros históricos ao redor é inegável.

É difícil visitar esses locais sem se maravilhar com todo o seu esplendor e sem pensar nos muitos artesãos e construtores que ergueram lugares tão impressionantes sem o auxílio da tecnologia.

Até Ardiyansyah, um nativo de Jogja, diz que ainda se encanta quando visita Borobudur depois de muito tempo. Subir ao topo e contemplar a paisagem ao redor é tão poderoso quanto estudar as intrincadas esculturas em pedra. "Você é recompensado com uma visão do mundo."

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