Ciro Dias Reis
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Ciro Dias Reis

Especialista em comunicação e temas internacionais. Fundador e CEO da Imagem Corporativa, é board member da International Communications Consultancy Organization e membro do Copenhagen Institute for Future Studies. Foi também global chairman da rede global PROI Worldwide

Humor e desejo de mudanças movimentam as placas tectônicas da política

No Brasil e na Europa diferentes disputas eleitorais podem elevar as tensões ao longo dos próximos meses

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Nos anos 1980 o grupo Monty Python tornou-se famoso ao criar filmes e esquetes com sátiras abastecidas pelo melhor humor britânico, mirando indiscriminadamente os vários matizes ideológicos, partidos políticos, regulamentos e procedimentos governamentais. Nos anos 1990 Justo Veríssimo fazia sucesso na televisão brasileira: criado pelo humorista Chico Anysio, o personagem encarnava um deputado rico e corrupto, de bordões descarados tais como “eu quero é me arrumar”.

No início dos anos 2000 o programa semanal “Casseta & Planeta” alfinetava os constantes deslocamentos do presidente da República para o exterior chamando-o de “Viajando Henrique Cardoso”. Enquanto isso o seriado “Os Aspones” satirizava o ambiente das repartições públicas de Brasília exibindo um cenário caótico e funcionários sem qualquer compromisso com o trabalho.

O humor sempre foi um vetor lúdico da crítica política, em diferentes épocas e geografias. E continua ativo nessa linha.

Na última semana assistimos o candidato Count Binface (Conde Lata de Lixo), protagonizado pelo comediante britânico Jon Harvey, obter 25% dos votos na cidade de Clacton, litoral inglês, em disputa por uma cadeira no legislativo nacional. Ele ficou atrás apenas do conhecido Nigel Farrage, do bem estabelecido partido Reform UK. Dizendo-se um extraterrestre, Harvey concorreu fantasiado com uma lata de lixo estilizada na cabeça, prometendo, se eleito, limitar o preço dos sorvetes e proibir pessoas de usarem viva-voz no transporte público, entre outras bizarrices.

No outro lado do mundo o humor também atacou o establishment político. Um movimento de protesto iniciado por Abhijeet Dipke, ativista e especialista em comunicação, ganhou as ruas e, assim como Count Binface, também as manchetes mundo afora. Tudo começou em maio com uma declaração polêmica do presidente do Supremo Tribunal da Índia, que comparou ativistas e jovens desempregados a "baratas" e "parasitas", após descontentamentos com o vazamento de gabaritos das provas seletivas para as universidades do país.

As redes sociais, instigadas por Dipke, canalizaram o desconforto da geração Z com a situação do país e levaram a criação do fictício Cockroach Janta Party (Partido das Baratas), uma clara paródia ao partido do primeiro-ministro Narendra Modi, o Bharatiya Janata Party.

A insatisfação do eleitor pode se encaixar no humor ou na sátira, mas outras vezes é atraída pelos acenos de políticos que seguem os ritos tradicionais da atividade mas prometem novos ares e abordagens. Foi o caso da eleição no ano passado de Zohran Mamdani, primeiro prefeito muçulmano e de origem sul-asiática de Nova York. Ele atropelou nas urnas os políticos tradicionais (inclusive, nas primárias de seu Partido Democrata, o ex-governador Andrew Cuomo).

A vitória de Mamdami pavimentou o caminho para outros movimentos bem- sucedidos de uma ala mais jovem e progressista de seu partido, comprometida em atuar na gestão de problemas básicos como os preços dos aluguéis e a ampliação da rede de amparo social.

Seja pelo humor ou seja por promessas de novas maneiras de tratar os temas de interesse público, o fato é que as placas tectônicas da política continuam emitindo sinais, em várias regiões, do potencial de seus movimentos.

No Brasil a corrida presidencial deste ano deve gerar muito mais ânimos acirrados do que propostas robustas com visão de longo prazo, embora tensões no âmbito dos três poderes possam fazer subir a temperatura a níveis preocupantes. Mas é para a Europa que boa parte das atenções do mundo político começam a se voltar. É lá que disputas de peso estão agendadas para os próximos quinze meses.

E justamente nos países de maior protagonismo de uma União Europeia que já enfrenta diversos desafios políticos, econômicos e sociais.

Já a partir de setembro as eleições regionais na Alemanha vão indicar se o partido de extrema direita AfD continuará sua trajetória de avanços registrada ao longo dos últimos anos. Essa tendência tem preocupado boa parte da sociedade, uma vez que o partido possui posicionamentos que flertam com princípios nazistas. Eventual novo crescimento da AfD nas urnas pode aumentar a pressão sobre o chanceler Friedrich Merz e, eventualmente, obrigá-lo a antecipar as eleições legislativas.

Mas é para a França, a Espanha e a Itália que o calendário eleitoral prepara os eventos mais significativos, ao longo de 2027. No primeiro caso, as eleições em primeiro e segundo turno (18 de abril e 2 de maio) vão indicar o próximo presidente da República. A Espanha tem eleições gerais previstas para agosto, quando um novo primeiro-ministro poderá ser apontado. Na Itália elas devem ocorrer em dezembro do ano que vem, mas há quem aposte que ela possam ser antecipadas para o primeiro semestre, visando acomodar os interesses da primeira-ministra Giorgia Meloni.