O 5G pode, enfim, acelerar a implementação das cidades inteligentes no Brasil


André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
22 de julho de 2020 às 10:17 | Atualizado 22 de julho de 2020 às 13:24
São Paulo à noite

Cidade de São Paulo: capital paulista ocupa apenas a 132ª posição de cidade mais "inteligente" do mundo – de 174 analisadas

Foto: Vanessa Bumbeers/Unplash

O 5G está cada vez mais próximo. Diversas empresas no Brasil já iniciaram os seus testes para a nova tecnologia que pode transformar completamente a forma como lidamos com a internet.

Sim, você conseguirá ver os filmes em plataformas como Netflix e Amazon Prime Video com qualidade superior e de maneira muito mais rápida. Mas não será só isso: o 5G permitirá uma adoção mais acelerada da “Internet das Coisas”, o que pode impactar diretamente na eficiência do país – e deslanchar, finalmente, as cidades inteligentes por aqui. 

Não que estes últimos termos sejam novos. Longe disso. A internet das coisas nada mais é que uma infraestrutura que habilita a conexão de “coisas” físicas e virtuais. A cidade inteligente é aquele lugar que consegue conectar tudo isso de uma forma que traga melhor qualidade de vida para os seus habitantes.

Alguns exemplos seriam câmeras inteligentes que comunicam crimes diretamente para a polícia, postes de iluminação que ligam e desligam de acordo com a necessidade, sistemas de semáforos inteligentes, que permitiriam uma gestão melhor do tráfego das cidades, entre outros diversos exemplos.

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"O 5G não é algo que chega trazendo diversas tecnologias prontas, mas é a fase inicial para desenvolver tecnologias que o 4G não dá conta", diz Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, especializada em telecomunicações. 

Essa evolução ajudaria a trazer diversos ganhos para os brasileiros – tanto em qualidade de vida, quanto em maior disponibilidade de dinheiro para estados e municípios. Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) mostra que o Brasil poderia ter ganhos de até US$ 27 bilhões até 2025 se adotasse essas tecnologias.

Muitas delas, é verdade, já estão disponíveis para a banda atual, mas ainda não decolaram por aqui. O que pode mudar em um futuro não tão distante. 

“A chegada da 5G será um marco para a aceleração das cidades inteligentes no Brasil, por ter uma conexão mais rápida e mais estável”, diz Diego Conti, professor da PUC Campinas e especializado no assunto. “Sensor de calçadas, sensor de lixeiras e afins irão facilitar a conexão desses dispositivos e a integração de dados e informações. Esse é o coração de uma cidade inteligente.”

Para isso, a tecnologia precisa ser adotada em prol do cidadão. De acordo com um estudo da consultoria McKinsey, uma cidade de 5 milhões de habitantes mais conectada pode diminuir a criminalidade em 40%, reduzir gastos de saúde em 15% e dar 30 minutos por dia a cada cidadão. 

Como isso funcionaria? Por terem sistemas mais eficientes, os próprios habitantes do local teriam menos tempos em filas ou resolvendo algum problema com o Estado.  

E o Brasil está atrasado nesse tema. Prova disso é o ranking elaborado pelo Centro de Globalização e Estratégia do Instituto de Estudos Superiores da escola de negócios IESE, uma das melhores da Europa. Os especialistas analisaram diversos segmentos, como capital humano, economia, meio ambiente, planejamento urbano, tecnologia e mobilidade de 174 cidades.

Resultado? O município brasileiro mais bem posicionado foi o Rio de Janeiro (128ª), seguida de Brasília (130ª) e São Paulo (132ª). As três cidades mais inteligentes, segundo o levantamento, são Londres, na Inglaterra, Nova York, nos Estados Unidos, e Amsterdã, capital da Holanda. 

Mercado lucrativo

Mas não é apenas de boas intenções que vive esse mercado: ele movimenta muito dinheiro e é também bem lucrativo. Não por acaso, gigantes de todos os setores estão de olho nesse mercado. Uma estimativa realizada pela consultoria especializada em tecnologia IDC mostra que esse mercado deve movimentar US$ 124 bilhões em 2020.

Nas contas da companhia finlandesa Nokia, o 5G poderá ser o responsável, sozinho, por um benefício econômico de R$ 1,2 trilhão para o Brasil entre 2021 e 2035. “Quanto mais postergamos a introdução da tecnologia, mais postergamos os benefícios desse dinheiro para a economia”, disse Wilson Cardoso, Chefe de soluções da Nokia para a América Latina, à CNN. 

A Nokia é exatamente uma das interessadas no mercado. A companhia está em meio à uma disputa global com outras gigantes: a chinesa Huawei e a sueca Ericsson para fornecer equipamentos para que a conexão 5G seja possível. Não à toa, as companhias também fazem eco para esse tipo de previsão do executivo da Nokia.

“Hoje, a economia digital dos Estados Unidos é maior do que o PIB do Brasil. Eles têm grandes empresas que foram criadas após a chegada dessa tecnologia”, disse Eduardo Ricotta, presidente da Ericsson no Brasil, em entrevista à CNN.

Uma das disputas mais acirradas está na questão da velocidade. Para se ter uma base de comparação, as redes 4G mais rápidas têm uma velocidade média de 100 megabytes por segundo. O 4.5G pode chegar a 400 Mb/s – com potencial de chegar a 1 Gigabyte por segundo.

É bem rápido, mas quando comparamos com o 5G é como se fosse uma corrida entre um Fusca e uma Ferrari. A sul-coreana Samsung, que ainda não aparece entre as principais competidoras em infraestrutura, detém o atual recorde com velocidade de 8,5 Gb/s.

É exatamente essa tecnologia que permitirá, além de uma cidade mais conectada, a existência de carros autônomos nas ruas. Ou seja, companhias celebradas como a Tesla precisam (e muito) que essa tecnologia se popularize o mais rápido possível. Isso acontece porque o 5G permitirá uma troca de dados mais rápida, com um tempo de resposta muito menor.

E essa velocidade é fundamental para um automóvel receber um sinal de que pode seguir em uma rua sem nenhum carro até parar antes de atropelar um pedestre – e, com menos acidentes, um trânsito mais fluido e menos problemas para prefeitos e cidadãos. 

Guerra comercial

A velocidade da internet, no entanto, não é a que tem ganhado mais a atenção dos governantes nesse momento. A guerra comercial entre China e Estados Unidos tem criado boicotes à tecnologia chinesa, capitaneada pela empresa local Huawei. O Reino Unido, por exemplo, barrou a tecnologia 5G da Huawei. Outros países podem seguir esse mesmo caminho.

Em mais um capítulo dessa guerra, nesta segunda-feira (20), a China ameaçou retaliar a finlandesa Nokia e a sueca Ericsson do país, principais concorrentes da Huawei, caso países da União Europeia banirem a Huawei das redes de 5G. A guerra está apenas no início.

O Brasil, já que o presidente Jair Bolsonaro é muito alinhado com o seu par americano, Donald Trump, é colocado nessa lista. Apesar disso, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou em entrevista à CNN que quer ver a empresa chinesa competindo pela estrutura por aqui. A dúvida é se esse posicionamento se manterá com uma vitória do presidente americano Donald Trump nas eleições de novembro.

"O governo não regula qual equipamento com que cada empresa vai usar, mas pode impor restrições, como aconteceu no Reino Unido e isso pode até gerar um problema geopolítico com a China, que o Brasil tem uma relação comercial importante", afirma Arthur Barrionuevo Filho, professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas. 

Essa competição deve ficar para o primeiro semestre de 2021, segundo o ministro das Comunicações, Fábio Faria.

“O leilão vai ficar para o ano que vem porque os testes em campo foram atrasados pela Covid-19. Provavelmente irá ocorrer no primeiro semestre”, disse o ministro em entrevista à CNN.

É o que esperam as empresas que vão concorrer para a implementação da tecnologia. A empresa sueca Ericsson é uma delas. O presidente da empresa faz uma ressalva: o leilão precisa ter um viés de infraestrutura e não como uma forma do governo arrecadar dinheiro para cobrir parte do rombo dos gastos.

“Temos que pensar em viés de infraestrutura para atender a população em geral e o custo do Brasil é um dos maiores em relação à renda per capita da população”, disse Ricotta.

A opinião é compartilhada por Paulo Cesar Teixeira, CEO da Claro, controlada pelo grupo mexicano América Móvil. “A tecnologia só consegue ser efetiva quando permeia todas as camadas sociais”, diz ele

Até mesmo a Oi, que não anda muito bem das pernas, está de olho na popularização do 5G para lucrar com a instalação da fibra ótica da tecnologia. Esse, aliás, é uma das principais expectativas para a companhia sair do momento complicado que vive há alguns anos. 

“A fibra vai ser necessária e essa é a única certeza do ponto de vista de tecnologia e de uma maneira capilar, distribuída por muitas antenas e muitos pontos de acesso. O que dá uma previsão de crescimento independentemente de como seja feito o processo.” 

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